Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Bolo rei, rosbife, pezinhos de coentrada, muamba, rissóis de carne, francesinha e pimentos de Padron

Claro que isto já começa a meter um bocado de nojo. Eu sei. A boa e velha expressão “nem o pai morrre, nem a gente almoça” assenta como uma luva a esta maçadora saga do pneu, que está a viver um longo parêntesis que engobou um arroz de pato, que espero não tenha sido indegesto para ao clientela da Lavandaria.

Hoje concluo, em passo de corrida, a lista das dez coisas que me levam a gostar muito da rua do Campo Alegre. Espero amanhã ter boas notícias (ou seja o epílogo) para dar sobre o intrincado Caso do Pneu Estraçalhado:   

 5.     A Confeitaria Duvália encerra um si um segredo pouco conhecido mas precioso. Pertence à família de Ilídio Pinto e o bolo rei que fabrica é igualzinho em qualidade ao da sua irmã mais velha, a Petúlia. Ou seja, nas festas que avizinham, será uma opção inteligente comprar o bolo rei na Duvália em vez de engrossar as longas filas na rua Júlio Dinis;

 

6.     O Clube Inglês é, como não podia deixar de ser, uma ilha britânica no meio do imenso mar portuense, com o seu restaurante, onde não lhe servem refeição se não estiver de casaco, e o relvado onde se joga criquete, uma entediante modalidade que estou convencido que vou morrer sem conhecer as regras que a regem;  

 

7.     As Torres de Arménio Losa (732-738), ligadas por um edifício mais baixo, merecem uma honesta vista de olhos;

 

8.     O Restaurante Campo Alegre, que eu já não frequento há uma data de tempo (vá-se lá saber porquê) é acanhado em espaço mas amplo e generosa na oferta, que contempla duas cozinhas tão diferentes como a alentejana e angolana. Este pluralismo corresponde à denominação de origem do casal de donos, mas não me perguntem por favor se é ele ou ela que é de Angola porque eu faço sempre confusão;

 

9.     O Capa Negra é um valor seguríssimo para uma refeição tripeira – de tripas ou francesinha – ou de origens mais alargadas. O meu amigo Amadeu, que é o zelador da Confraria das Francesinhas, torce o nariz relativamente à qualidade da francesinha, alegando que a altura do pão não é “conforme” (o vocábulo é dele), por ser exagerada, iludindo o freguês encantado com a altura da sandes. Pode ter razão. Aliás planeio voltar a este assunto da francesinha, escapelizando-o com minúcia aqui nesta Lavandaria. No entretanto, declaro que continua a gostar da francesinhas e dos magníficos rissóis de carne o Capa Negra, que antes de ser um fábrica de comida era um café onde eu passei muitas manhãs e tardes a estudar quando andava na faculdade;

 

10.    A estátua da Rosalia Castro (na foto), na Praça da Galiza, da autoria de Barata Feyo, agrada-me de tal maneira que achei por me concluir esta lista de dez razões que me levam a gostar do Campo Alegre com um fragmento do poema Negra Sombra da poetisa galega, que morreu prematuramente (48 anos), em Padron, a terra dos famosos pimentos.

En todo estás e ti es todo

                                                                               pra min e en min mesma moras,

nin me abandonarás nunca,

 

sombra que sempre me asombras.

 

(continua)

música: O hábito faz o monstro, Rádio Macau
publicado por Jorge Fiel às 18:08
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Terça-feira, 10 de Novembro de 2009

O arroz de pato que está na origem da Quimonda

A Siemens estava decidida a fazer um grande investimento tecnológico em Portugal e diversas regiões lutavam para o acolher. Luís Braga da Cruz, à época presidente da CCRN, pediu a Daniel Bessa que fizesse de cicerone aos alemães que andavam a visitar as  diferentes localizações disponíveis e a estudar os prós e os contras de cada uma delas.

Bessa levou-os a Vila do Conde e foi muito convincente porque foi esse o local escolhido para a fábrica, que no entretanto mudaria de mãos e de nome, passando a chamar-se Quimonda.

No que toca ao programa social, o futuro ministro da Economia do primeiro Governo Guterres tentou impressionar os quatro alemães que constituíam a embaixada da Siemens levando-os a jantar à belíssima sala de refeições do Circulo Universitário do Porto, ao Campo Alegre,  e aconselhando-os a encomendar o Arroz do Pato, um dos pratos mais afamados da cozinha deste restrito clube.

Pouco depois da comida desembarcar na mesa, Bessa arrependeu-se do conselho ao ver os seus convidados a olharem para o prato com um ar desconfiado, após o que usaram faço e garfo para separar as águas, arrumando os bocadinhos de pato a um canto.

Ao olhar para o resultado final desta operação, constatando que o arroz ocupava a quase todalidade do prato, o bom do Daniel ficou envergonhado por os ter aconselhado uma refeição tão pobre e resolveu logo tentar emendar a mão levando-os, no dia seguinte, a almoçar à Cooperativa dos Pedreiros, um clássico que há largas décadas é considerado um dos melhores restaurantes do Porto.

O almoço correu muito bem. Os tornedós e linguados satisfizeram os olhos e a barriga do alemães. O único pequeno problema foi a conta.  Desenferrujado na aritmética, Bessa reparou logo que tinha ficado a cinco contos por cabeça, soma que Braga da Cruz, iria com toda a certeza achar exorbitante.

Para não ofender o espírito económico do presidente da CCRN, pediu ao empregado que indicasse na factura que os 25 contos se referiam a oito e não cinco refeições – pensando que este pequeno truque de baixar artificialmente o preço médio de refeição por cabeça chegaria para a conta passar despercebida ao escrutínio de Braga da Cruz.

Vários anos depois, já com as despesas recebidas e a história esquecida, estavam os dois à conversa, quando, assim como quem não quer a coisa, Braga da Cruz comentou : “Ó Daniel, não acha que se está a comer cada vez mais caro na Cooperativa dos Pedreiros?”.

(continua)

música: Guarda a faca, Rádio Macau
publicado por Jorge Fiel às 18:08
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Segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Passeio no Campo Alegre com Groucho na cabeça

 

“Não posso ser sócio de um clube que me aceite como sócio” é um das frases mais conhecidas do baú de humor marxista (tendência Groucho), onde estão arrumadas algumas pérolas que não resisto a partilhar como os preclaros, como

 “Nunca esqueço uma cara, mas no teu caso abro uma excepção”

e

“O meu cliente tem ar de imbecil, mas desconfiem das aparências, ele é mesmo imbecil”

ou, ainda, este fabuloso diálogo, mantido com um dos irmãos que falava:

- Olha, o homem do lixo está a bater à porta...

- Diz-lhe que não queremos lixo nenhum!

Desenterrei estes pedacinhos a propósito de uma das coisas que me faz gostar da rua do Campo Alegre, que é precisamente o Circulo Universitário do Porto, um clube de que eu adorava ser sócio mas que não me pode aceitar como sócio porque a admissão está restrita a professores da Universidade do Porto (UP) e eu não passo de um reles jornalista biscateiro.

 

4.     O Círculo Universitário do Porto é um belo palacete romântico do século XIX,  que foi conhecido como a Casa Primo Madeira, o nome do seu proprietário após uma profunda remodelação levada a cabo pelo arquitecto Marques da Silva.

 

Quando passou para a posse da UP, a reitoria encomendou o restauro ao arquitecto Fernando Távora.

 

Ou seja, dois dos maiores arquitectos da cidade deixaram as suas impressões digitais neste palacete transformado num clube restrito, onde jantei por diversas vezes como convidado, e que além de servir refeições, também recebe festas e disponibiliza alojamento.

 

A qualidade do edifício foi reconhecida pela Câmara Municipal, que em 1990, lhe atribuiu o Prémio João Almada (o equivalente portuense ao lisboeta Valmor). 

Não fui testemunha, nem auricular nem ocular, da melhor história que conheço, tendo como cenário o Circulo Universitário do Porto, que me foi contada pelo seu protagonista, Daniel Bessa, tem a ver com arroz de pato, contempla de raspão a fonice de Braga da Cruz e cruza com a actualidade já que se situa na proto-história do investimento na Quimonda.

 

Acho que, enquanto a situação dos meus pneus dianteiros se mantém estacionária, esta história vale bem um intervalo no enunciar da lista de razões porque gosto da rua do Campo Alegre.

 

(continua)

música: Sinfonia Novo Mundo, Dvorak
publicado por Jorge Fiel às 18:08
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Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Três razões para gostar do Campo Alegre

Os afazeres derivados desta minha vida de jornalista biscateiro ocupam-me mais tempo do que deviam, pelo que se escoou mais uma semana sem que eu conseguisse arranjar tempo (estive de 3ª de manhã até 5ª à noite em Lisboa) para ir à oficina da Pneus Ramalhão (que está fechada ao sábado e domingo) trocar de lado os pneus da frente para ver se é desta que o meu carro deixa de inclinar para a direita.

Como o Caso do Pneu Estraçalhado parece contaminado pela morosidade da Operação Furacão, aproveito a pausa para vos falar do Campo Alegre e das razões (enunciadas no sentido Lordelo-Praça da Galiza) que me levam a gostar muito desta rua:

1.     A Garrafeira do Campo Alegre é muito porreira e foi preciso vir um gajo de Lisboa para lhe dar publicamente o devido valor. Estou a referir-me ao MEC, que assinou em tempos idos, no DNA (um magnífico suplemento que a direcção do DN decidiu descontinuar, em hora menos feliz), um justo elogio desta garrafeira, que está encaixilhado, em papel já amarelecido, junto ao balcão. Por razões de força maior, o Miguel está agora circunscrito a uma dose diária de ginjinha, que usa à noite, antes de se sentar ao computador a escrever (ele é biscateiro como eu), mas nos seus tempos mais gloriosos era um avisado conhecedor e forte consumidor e de vários tipos de álcoois;

 

2.     O Jardim Botânico , com os seus liquidambares, faias, sobreiros, tílias, carvalhos e ofícios correlativos, é um local de que guardo, desde o tempo da faculdade (a FLUP ficava mesmo ali ao lado) gratas recordações, principalmente das margens do laguinho dos nenúfares. Acresce que o jardim está instalado na casa que foi habitada por dois nomes grandes da nossa literatura: Sophia e Ruben A – um tipo que intitula a sua autobiografia “O Mundo à minha procura” e que fez um strip tease integral num museu grego, porque não se sentia bem vestido no meio daquelas belíssimas estátuas nuas, só pode merecer as nossas mais elevadas estima, consideração e admiração;

 

3.     A Confeitaria Botânica é uma das minhas esplanadas preferidas por razões de índole geo-estratégica. Comecei a frequentá-la quando andava em Letras (a faculdade ficava mesmo em frente) e mantenho-me freguês entre outras coisas porque o facto de estar a coberto de uma arcada a torna utilizável mesmo em dias de chuva;

 

(continua)

música: Any time at all, Beatles
publicado por Jorge Fiel às 18:08
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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