Sexta-feira, 27 de Março de 2009

A filha que foi atropelada na passadeira, o sogro com Alzheimer e a mulher com cancro na mama

A gravidade de chegar atrasado a um encontro – ou até mesmo não comparecer – é tal que os perpretadores são, no mínimo, obrigados a apresentar desculpas suficientemente brutais e imaginativas para levarem as vítimas a ponderar aceitá-las.

Desculpas do estilo “estava muito trânsito”, “tive um furo”,  “fiquei sem gasolina”, “apanhei um acidente na auto-estrada”, “venho de uma reunião que nunca mais acabava”  não valem um tostão furado e estão mais gastas que as meias Ecco bordeaux que adquiri em 1995.

Em nome da criatividade e de um resto de respeito pelas vítimas do atraso alheio, passo a inventariar quatro desculpas aceitáveis.

“A minha filha foi atropelada na passadeira e tive de a levar ao hospital”

Ora aqui temos uma boa desculpa, capaz de absolver um atraso superior a meia hora (se não houver lugar a amputações) ou até mesmo uma falta (mas pode ver-se na contingência de apresentar uma filha estropiada)  contanto que seja verdadeira. Não se esqueça que pode deitar tudo a perder se responder “Que filha? Que eu saiba não tenho filha nenhuma…”   quando a vitima lhe telefonar no dia seguinte a inteirar-se do estado de saúde da sua filha.

“Atrasei-me a sair de casa porque o meu sogro, que está com Alzheimer, queria bater na minha sogra, que está entrevada na cama”

Mais uma excelente desculpa, mas que deverá abster-se de usar com as pessoas que conheçam os seus sogros e saibam que eles são saudáveis e vivem em Olhão, em casa do seu irmão mais velho que é médico.

“Desculpa lá não ter aparecido, mas comecei a sentir um dor no peito, suores frios, vim ao hospital e eles não me querem deixar sair, porque desconfiam que estou a fazer um enfarte”

Uma desculpa de primeiríssima água, mas deve certificar-se previamente de que as pessoas que estão sentadas ao seu lado, na mesa da esplanada, não vão tecer comentários em voz alta acerca da sua enorme lata -  pelo menos durante o telefonema.

“Peço muito desculpa mas atrasei-me porque a minha mulher começa amanhã uma série de tratamentos no IPO e pediu-me para a levar ao cabeleireiro – sabe, pode ser a última vez...”

Magnífica desculpa que tem o único inconveniente da vítima se convencer de que você é um adultero sem coração quando no fim de semana a seguir o encontrar de mão dada no cinema com um mulher com farta cabeleira (que por acaso é mesmo a sua).

 

PS. Não sei se já perceberam, mas eu também começo a ficar contaminado pelo fuso horário de Varsóvia J

 

música: Beutiful, Aimee Mann
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publicado por Jorge Fiel às 20:20
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Quinta-feira, 26 de Março de 2009

Um período máximo de tolerância de 15 minutos

 

Umas das coisas que me irrita solenemente nas pessoas atrasadas é o facto de não serem coerentes.

Chegam atrasados a jantares, apresentação de livros e encontros, mas - numa demonstração inequívoca de uma intolerável hipocrisia - comparecem à hora marcada nos acontecimentos e situações em que isso é obrigatório.

Esses horríveis hipócritas estão no aeroporto à hora (fica caro perder o avião),  chegam ao cinema a tempo de ver os previews (não querem, por nada, perder o início do filme),  ao concerto antes dos músicos afinarem os instrumentos certos (não arriscam ficar à porta à espera do final do primeiro andamento) e ao futebol enquanto os jogadores ainda fazem os exercícios de aquecimento (não lhes passa pela cabeça deixarem de ver um golo). Mas chegam impreterivelmente atrasados ao encontro para jantar ou à reunião de condomínio.

Recais sobre os ombros de nós, que somos pontuais, a pesada tarefa de educar pelo exemplo os atrasadinhos mal educados.

Amorim Martins, empresário da construção civil e ex-presidente da AI Portuense e do Conselho Empresarial do Norte, tinha como regra de conduta nunca esperar mais de cinco minutos. Quem chegasse seis minutos atrasado não o encontrava a ele - apenas o lugar.

Na minha cruzada pessoal pela pontualidade, sugiro que comecemos por um período máximo de tolerância de 15 minutos aos atrasado. Nem mais um segundo!  

…………..

(1)  Estou a falar das pessoas saudáveis que se atrasam por sistema, e não das patologicamente atrasadas, como é o caso do Santos,  que ontem foi aqui escalpelizado.

 

música: The barring of the door, June Tabor
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Quarta-feira, 25 de Março de 2009

A breve história do meu amigo C. Santos que tem a vida dele toda regulada pelo fuso horário polaco

Tenho um amigo, o C. Santos, que é alérgico às horas e geneticamente incapaz de comparecer a um encontro com um atraso inferior a duas horas – ou seja está regulado pelo fuso horário de Varsóvia.

Conta-se que ele já cometeu a proeza de chegar mais de um dia atrasado a compromisso com um cliente - sublinho que ele estava na ingrata posição de vendedor, ou seja o interesse era dele, o que por si só atesta, no meu entender, estarmos na presença de um atraso perpretado de boa fé na cara do pagante e e não uma falta de respeito pelo desgraçado que tinha de aguentar e calar, com um sorriso nos lábios, para ver se conseguia impingir-lhe o servicinho.

Até eu tomar conhecimento da ocorrência deste atraso superior a 24 horas (confirmado por várias fontes), eu estava intimamente convencido que problema do Santos consistia no facto do seu relógio interior ter sido regulado na origem para ele funcionar noutro fuso, mais a Leste (o já referido fuso polaco) e que tudo se resolveria se ele, por exemplo, fosse exportado para a Rússia.

Em Moscovo, atrevia-me eu a pensar, o Santos até seria capaz de chegar um bocadinho antes da hora marcada para um determinado compromisso.

Mas toda esta minha teoria benevolente foi arrasada como um castelo de cartas pelo atraso superior a um dia. Fiquei convencido que o assunto não se resolveria mesmo que o Santos fosse transplantado para Brisbane.

Neste momento, tendo a olhar para estes pantagruélicos atrasos como uma manifestação de uma terrível doença incurável.

Da mesma maneira que há pessoas que não conseguem evitar roubar (ou seja são cleptómanas), também há gente, como o Santos, que não conseguem cumprir horários (ou seja são cleptómanas do tempo dos outros).

 

música: I never thought my love would leave me, June Tabor
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Terça-feira, 24 de Março de 2009

Um libelo contra a errónea ideia de que é chique chegar atrasado a uma data de eventos sociais

Nós, portugueses, temos tatuadas no nosso carácter algumas idiossincrasias que nos perdem – fazendo com que continuemos a divergir da União Europeia e a ser alegremente ultrapassados pelos países do alargamento. Uma dessas coisas é considerar chique chegar atrasado.

A conferência de imprensa do presidente da Câmara está marcada para as 15 horas? Se aparecer antes das 15h30 ficará para todo o sempre conhecido como o jornalista precoce – e arrisca-se a ser considerado pelos seus colegas como alguém que presta clandestinamente um serviço de assessoria de imprensa ao autarca conferencista.  

A vernissage de uma exposição está marcada para as 19h00? Se ousar chegar antes das 19h45 ficará para todo o sempre classificado como o bimbo desocupado – e arrisca-se seriamente a chegar antes dos organizadores.

O jantar está marcado para as 20h30? Se se atrever a chegar antes das 21h30 ficará para todo o sempre com a fama de ser o convidado esfomeado – e arrisca-se seriamente a ser mobilizado pela empresa de catering a distribuir pelas mesas os pratinhos com os bolinhos de bacalhau.

A festa está marcada para a meia noite? Habilite-se a chegar antes das duas da manhã e ficará para todo o sempre conhecido como o borguista ansioso que chegou à discoteca ainda antes da hora do despertador tocar na mesinha de cabeceira do porteiro.

Tenho para mim que este país não vai para a frente enquanto chegar atrasado for considerado chique e as Paulas Bobones indicarem nos seus manuais de etiqueta e boas maneiras o atraso mínimo com que se deve chegar a eventos sociais.

música: Twist and shout, Beatles
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Segunda-feira, 23 de Março de 2009

Os atrasados são mal educados

Estou atrasado. Não no sentido feminino, que pode significar a iminência de estar pronto a despontar um clandestino pela proa. Mas no sentido literal.

Este post deveria ter sido publicado às 18h08 e eu falhei a entrega pontual, que consegui manter durante mais de quatro meses (com duas ou três pequenas vigarices  - dias em que, reconheço, postei com alguns minutos de atraso, mas mantendo o carimbo horário que elegi como uma das marcas da Lavandaria).

Este falhanço não faz de mim um atraso de vida, mas perturba-me. Incomoda-me porque eu detesto atrasos e a pontualidade é uma daquelas qualidades que eu considero indispensáveis para quem queira viver em sociedade – muito mais importante do que saber comer com faca e garfo, limpar o salão antes da meia noite ou cortar as unhas em público.

Irrita-me solenemente que um tipo que chega meia hora atrasado, sem avisar previamente (o que, como agravante, não custa nada desde a revolução das SMS) e sem apresentar uma desculpa aceitável (1), se dê ao luxo de considerar má educação que o desgraçado que esteve à espera o mande foder (no sentido figurado).

É uma profunda falta de respeito pelo próximo chegar atrasado. Um atrasado é isso mesmo e ainda pior: um grande mal-educado.

Peço por isso um milhão de desculpas por este atraso, e prometo duas coisas:

a)     esforçar-me por voltar a ser pontual;

 

b)    continuar a dissecar aqui o tema dos atrasos.

 

 (continua)

……………………………

(1)  Queixar-se do trânsito não vale, porque os engarrafamentos são como o sol – quando nascem são para todos.

música: These cold lips, June Tabor
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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