Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007

Nótulas sobre o uso e desuso do guarda-chuva

 

 

O Mundo divide-se em duas partes: os fãs do guarda-chuva e os seus detractores, que não o utilizam porque acham completamente obsoleto este «objecto portátil que consiste numa armação flexível de hastes metálicas coberta por pano ou outro material que se estica ao abrir-se a armação, protegendo do sol ou da chuva o seu portador» (socorro-me da definição do douto Houaiss na vã tentativa de emprestar alguma densidade teórica a estas nótulas).

 

A minha observação aponta no sentido do guarda-chuva estar claramente em vias de extinção, tal como o Lince da Malcata e o jogo da malha, uma vez que as novas gerações se recusam terminantemente usá-lo, nem mesmo quando está a chover a cântaros (cães e gatos, como diriam os ingleses).

 

Será muito fácil ao grande ayatollah Sistani e ao primeiro ministro Nouri al Maliki convencerem o lider religioso xiita Moqtada al-Sadr a desmobilizar a milicia Exército de Mahdi, do que eu conseguir que os meus filhos (Mariana, 22 anos, Pedro, 18, e João, seis) usem um guarda-chuva.

 

E o ódio ao guarda-chuva não se circunscreve aos mais novos. Jesualdo Ferreira, cujo prazo de validade está próximo de expirar, mudou-se para o partido dos detractores deste objecto portátil  no já longínquo ano de 1984, quando, após ano e meio a treinar o Atlético (esse mesmo Atlético Clube de Portugal que domingo foi ao Dragão ganhar ao FCP!), foi despedido pelo presidente, que assim aplacou a ira dos adeptos que não gostaram nada de ver o professor a orientar um treino na Tapadinha com o chapéu de chuva aberto!

 

Longe vão os tempos em que o meu bisavô Planta, que foi subido na tropa e era um homem do Reviralho, andava sempre de guarda chuva, chovesse ou fizesse sol, que manuseava como se tratasse da Mauser regulamentar.

 

As gerações vindouras necessitarão de consultar uma enciclopédia online (ou a avó) para compreender a indirecta que Miguel Cadilhe lançou a Cavaco - «A lealdade é como o guarda-chuva. Só se dá pela falta dele quando chove» -  quando abandonou o ministério das Finanças.

 

Agora que a Guerra Fria acabou, os famosos guarda chuvas búlgaros (preparados com um veneno mortal na ponta para serem usadas como arma para assassinar na rua, sem despertar a atenção dos passeantes, traidores e agentes secretos capitalistas na rua) também já passaram à História.

 

Eu, que sei perfeitamente (e por experiência própria) que quem anda à chuva molha-se, também estou cada vez mais renitente em usar guarda-chuva. Transporto um no carro, mas é raro abri-lo. Prefiro em alternativa a combinação gabardina e chapéu impermeável - dois a três euros, se optar pela imitação barata dos chineses, ou 20 vezes mais se preferir um belo Barbour igual ao que a Helen Mirren usa no filme em que faz de Isabel II (uma fita imperdível, aproveito para dizer).

 

Com o fim anunciado do guarda-chuva tocará também a finados para uma das mais extraordinárias demonstrações públicas de vitalidade do mercado e do sistema capitalista - 47 segundos após terem começado a cair as primeiras pingas aparecem logo vendedores ambulantes de guarda-chuvas nas esquinas mais movimentadas e junto às estações de metro.

 

 

Os dois quadros de Dominguez Alvarez que reproduzimos, pintados à volta de 1930,  ilustram as duas atitudes face à chuva.

Em cima, À Chuva, 1930, óleo sobre tela, 43,4 x 54,2 cm.

Em baixo, Homem a correr à chuva, óleo sobre tela, 14 x 15,1 cm.

 

publicado por Jorge Fiel às 22:51
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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