Terça-feira, 2 de Outubro de 2007

A problemática da vocalização durante a cópula

As deficientes condições de isolamento acústico dos apartamentos modernos geram situações a um tempo incómodas para os vizinhos e inibidoras da livre expressão da nossa sexualidade.

O ponto de partida para esta reflexão é uma história que me foi contada pelo Kiki Eça de Queiroz, meu distinto amigo e preclaro ex-colega (mudei-me para a secretária que ele ocupava, que dispõe de uma bela situação geo-estratégica na Redacção do Expresso no Porto, após ele, há coisa de dois meses, ter acertado a rescisão do seu contrato de trabalho).

Conta o Kiki que uns vizinhos do lado, no prédio que habita na Alameda Eça de Queiroz (a rua apropriada para o bisneto do autor dos Maias estabelecer residência), não só tinham uma vida sexual muito activa como, ainda por cima, bastante ruidosa.

Queixa-se o Kiki que invariavelmente, a determinado passo da refrega, a vizinha berrava "Chupa-me, boi!", o que o incomodava.

Alega o Kiki, homem que gosta de exercitar os rigores da nossa língua (que, salvo seja!, é muito traiçoeira), que o desafio estava mal formulado.

Argumenta que atendendo à morfologia específica do focinho do boi, lhe seria impossível a prática do acto de chupar, pelo que vizinha deveria antes berrar "Lambe-me, boi!".

Claro que tudo isto não passa de um preciosismo. O vizinho só poderia ser boi em sentido muito figurado. É um ser humano e sabia perfeitamente a performance que a parceira desejava, independentemente dela usar o verbo "chupar" ou "lamber".

Há duas vertentes nesta história contada pelo Kiki. Uma é a da interacção oral no decorrer da relação sexual. A outra é a do respeito pelo sossego dos vizinhos.

Indo por partes, há primeiro que estabelecer um chão comum de conceitos na abordagem desta problemática. Fazer confusão entre a oralidade durante o sexo e o sexo oral é tão grave como confundir a obra-prima do mestre com a prima do mestre de obras, ou o Manuel Germano com o género humano.

O sexo oral é incompatível com a oralidade durante o sexo por razões de ordem prática (a língua está ocupada) e de educação (não se deve falar com a boca cheia).

Posto isto, nenhuma teoria sobre a oralidade durante o sexo pode ignorar a tese de doutoramento feita pela antropóloga Catarina Casanova onde se demonstra, urbi et orbi, que os chimpanzés vocalizem sempre durante a cópula.

Eu sou claramente a favor da vocalização durante o sexo. Todos os sentidos podem e devem ser usados em ordem a optimizar o prazer dado e recebido durante a relação sexual.

Claro que há conversas mais apropriadas do que outras. Nessas alturas não estou muito disponível, por exemplo, para debater se o melhor mozzarella é o do Lidl ou o do Pingo Doce. Em pleno transe, há valores mais altos que se levantam (eu não vos avisei que a nossa língua é muito traiçoeira?!?).

Sou favorável a toda a liberdade. Podem e devem usar-se não só todas as palavras armazenadas no Houaiss mas também outras que ainda não acederam ao douto dicionário, bem como todo o tipo de urros, uivos ou gemidos, mesmo que sejam tão lamentáveis como os fazem a banda sonora dos filmes porno dobrados em espanhol que passavam no canal Vivir/Viver ("folla-me, cariño, folla-me").

Posto isto, há a segunda questão, a do respeito pelo sossego dos vizinhos.

Este é o aspecto mais delicado. Camuflar berros, gemidos e frases rudes é uma tarefa fácil. Basta, por exemplo, usar como banda sonora da relação sexual peças de Modest Mussorgky como a Noite no Monte Calvo, com rastilho para 12m50s de sexo selvagem (na orquestração do compositor, já que na lamentável versão de unhas paradas de Rimsky-Korsakov dura apenas dez minutos) ou Quadros de Uma Exibição, 32 minutos de prazer intenso em que vale a pena fazer um esforço para tentar fazer coincidir com um orgasmo simultâneo com o final do andamento A Grande Porta de Kiev.

Para soluções para além da camuflagem, acho que os interessados devem recorrer a especialistas em insonorização de salas, podendo começar a aprovisionar, para o efeito, embalagens de ovos.

Jorge Fiel
publicado por Jorge Fiel às 16:26
link do post | comentar | favorito

Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
Ler mais

Pesquisar este blog

Entradas recentes

Lavandaria está agora a c...

Moscas anunciam chegada d...

Apaixonei-me pela Bona, a...

Uma folha A4 dobrada em 4...

O café do Europeijska não...

mais comentados

últ. comentários

Tive conhecimento deste vinho," monte ermes", tint...
Num passeio à Ribeira lembrei-me de recordar algum...
prática do sexo anal estaria aumentando?Embora no ...
O autor deste artigo de peixe não sabe nada, por i...
Carissimo, em Espanha o pez espada é o que nós cha...

Arquivos

Abril 2012

Março 2012

Outubro 2011

Agosto 2011

Abril 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Maio 2006

Ligações

Tags

todas as tags

blogs SAPO

Subscrever feeds