Terça-feira, 14 de Abril de 2009
O Américo, o Joe, eu e o Álvaro

Américo Amorim é o homem mais rico de Portugal e apesar disso não se incomoda nada em declarar, urbi et orbi, que não sabe abrir portas nem fazer chamadas telefónicas – tarefas que delega no Bacelo, um simpático cavalheiro que além disso ainda lhe faz as vezes de motorista, espécie de guarda costas e secretário em part time (quando vai buscá-lo de manhãzinha cedo à casa da rua rainha D.Estefânia, atrás do Capa Negra e um pouco abaixo da CCRN,  já leva assinalado nos jornais os artigos que ele deve ler na viagem até Mozelos).

Joe Berardo, que já foi mais rico do que é agora e ideologicamente se está a aproximar a grande velocidade do Bloco de Esquerda (não encontro outra explicação para ele ter afirmado que “os executivos dos bancos e operadores de derivados deviam estar todos presos”), é proprietário de uma das mais cobiçadas colecções de arte contemporânea do Mundo e apesar disso não se coibe de divulgar, urbi et orbi, que a primeira obra de arte que  comprou foi um poster da Gioconda, convencido de que se tratava de um original (só soube disso quando chegou a casa e a mulher o desenganou explicando-lhe que o original de Leonardo estava exposto em Paris, no Louvre).

Se Américo e Joe se podem dar a estas franquezas, não vejo motivo para eu próprio vos confessar que há uma data de coisas que sou absolutamente incapaz de fazer, como andar de bicicleta, falar mandarim, adivinhar quando será a retoma ou deitar fora coisas velhas.

É por essas e por outras que estou apavorado com a perspectiva de ter de empacotar a mobília, papéis, livros, discos e ofícios correlativos que acumulei ao longo do último quarto de século.

Para a semana vou mudar de casa e estou aterrorizado com a perspectiva, principalmente depois de me ter visto ao espelho na resposta que Álvaro Siza deu, na penúltima edição da Pública, quando a Anabela Mota Ribeiro lhe perguntou: “O que sentiu quando saiu da casa da rua da Alegria?”

“Um enorme incómodo: mudar de casa é uma das coisas mais terríficas da existência. Vamos acumulando coisas, a maior parte das quais não serve para nada. É muito difícil na hora de mudança, que é a oportunidade de dispensar todas as coisas inúteis, a gente desprender-se. Há coisas que tenho no armazém (do escritório) que não me interessa nada ter. Mas não consigo dar ou deitar fora. Há um agarramento grande. Há uma longa história que é difícil abandonar. É muito doloroso”, respondeu Siza.


música: Devolva-me, Adriana Calcanhoto

publicado por Jorge Fiel às 18:08
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18 comentários:
De Abobrinha a 14 de Abril de 2009 às 18:29
Guru

Lamento não contribuir para a sua paz de espírito, mas mudar de casa realmente é das coisas mais horríveis do mundo e a pior oportunidade de ver a quantidade de quinquilharia que se acumulou ao longo da vida. É nessas alturas que a pessoa pensa que devia ser menos agarrada ao mundo!

O pior é que eu tenho algo de Siza vieira em mim. Infelizmente não a fortuna nem o prestígio nem mesmo o talento, mas só mesmo o apego a coisas perfeitamente inúteis e a incapacidade de me livrar delas!

Não tenho que lhe diga a não ser que compre muitos sacos azuis do IKEA (dão imenso jeito para transportar e mesmo armazenar coisas) e... olhe... boa sorte!


De Jorge Fiel a 26 de Abril de 2009 às 09:07
Preclara Abobrinha

O dia D é 30 de Abril. Já me doem as costas e gastei umas 50 caixas mas ainda só esvaziei duas estantes.

A bem da Nação!


De Tibetana a 14 de Abril de 2009 às 20:17
Preclaro JF, siga o meu sábio conselho, que devido a ser o mais certo, deverá ter um preço, pois gratuito nada é bom!
_Aproveite a oportunidade e execute a famosa técnica do "5S"!!!!
Aconselho a ser frio e nada condescendente, com as quinquilharias!.
Pertences acumulados, e que não sejam úteis, acumulam poeira para a nossa querida Leonor!
_Não te conhecia mais piegas! Ora, ora, após o primeiro passo, que é a Determinação de um "espadachim" (tipo um dos Mosqueteiros), use os braços e a lateralidade, explico: sente-se ao alcance do que vai analisar e : à direita o que interessa (até fotos de ex-amigas) e à esquerda os trastes com destino certo, o lixo.
_ O segundo passo, é sentir-se mais leve, pois devemos sempre cortar certos cordões umbilicais, caso não aconteça, o Preclaro ainda estaria nas asas da Mamã!
-O terceiro passo, é encarar esta mudança de endereço, como uma mudança de pele, uma metamorfose, pois não deixa de ser um novo ciclo, já que os prós e contras da compra do imóvel efectivou-se.
Afinal, em nossos caminhos há de momentos bons e outros ruins, sigo as lições que aprendi com o preclaro, e viva uma nova fase!
boa sorte, as mudanças são maravilhosas nos dão a chance de aprender, e principalmente ficar mais leves, pois objectos inúteis empilhados aparentam ser o mundo que o Atlas mantinha aos ombros!
felicidades mil, ao observar uma nova paisagem na famosa janela do banheiro!



De Tibetana a 14 de Abril de 2009 às 20:19
"efectivaram-se"...
:(


De Jorge Fiel a 26 de Abril de 2009 às 09:11
Preclara Tibetana

Não vejo qualquer problema em decidir unilateralmente observar os termos do novo acordo ortográfico.

A bem da Nação!



De Jorge Fiel a 26 de Abril de 2009 às 09:10
Preclara Tibetana

Obrigado pelos conselhos e pelas palavras de encorajamento!

A bem da Nação!


De clarinha a 14 de Abril de 2009 às 21:28
O que você precisa é de uma pessoa realmente valente e objectiva na avaliação da tralha a guardar ou a ir directamente para o lixo. Leia-se precisa de uma mulher. O ideal seria a mulher a dias de muitos anos. Se não for possível, boa sorte. Siga a regra de ouro: tudo o que dentro de dois anos ainda estiver dentro de caixotes por abrir vai directamente para o lixo (sem abrir).


De Jorge Fiel a 26 de Abril de 2009 às 09:15
Preclara Clarinha

Essa regra dos dois anos parece-me boa. Em 2011 confirmarei a sua validade.

A bem da Nação!


De PRMP a 14 de Abril de 2009 às 21:41
Comprei ainda nem à 15 dias a minha primeira casa, e estou na situação oposta. O que tenho nem um móvel ocupa, se não contar com a roupa.

É desolador cada vez que entro em casa imaginar o tempo que vou levar para compor aquilo. :/


De Jorge Fiel a 26 de Abril de 2009 às 09:16
Preclaro PRMP

O Ikea existe para resolver os problemas como o seu.

A bem da Nação!


De Anónimo a 15 de Abril de 2009 às 12:25
Caro Fiel: aconselho-o vivamente a livrar-se sem mais demora dos livros. São um peso desgraçado e servem para pouco - principalmente os que já foram lidos. Para sua sorte, ofereço-me para ficar com eles; e nem sequer tem de os levar a minha casa: eu próprio me proponho ir buscá-los à sua, em horário a combinar. A.F.S.


De Jorge Fiel a 26 de Abril de 2009 às 09:18
Preclaro AFS

Ora aqui temos o chamado amigo da onça :-) (que não é a mesma coisa que o amigo de Peniche)

abraços

A bem da Nação!

PS. O Pepe Carvalho usava os livros para acender a lareira. Mas na casa nova eu não tenho lareira.


De ines a 15 de Abril de 2009 às 14:14
E nestas alturas que uma Oxfam da jeito ter perto de casa. Eles aceitam tudo! E ainda estamos a fazer solidariedade. Eu sou o oposto: as vezes deito coisas importantes para o lixo e depois tenho que ir vasculhar no balde o maldito papel ou roupa!


De Jorge Fiel a 26 de Abril de 2009 às 09:20
Preclara ines

Leio o que a minha preclara amiga escreve e sinto que encontrei mais uma alma gémea... Eu também sou um veterano de expedições ao cesto dos papéis.

A bem da Nação!


De Helder Brites a 16 de Abril de 2009 às 16:44
Pois é, nesse aspecto estou contigo. Chateia-me deitar coisas fora. Livros então, nem pensar. Mudar de casa é que é um berbicacho. Uma trabalheira. Acho que não mudo mais. Digo eu...pois a minha mulher, como sabes, andou com o pai desde pequena a saltar de cidade em cidade. Para ela, mudar de casa, é tinto. Por falar nisso, deixa-me estar calado...que há quatro anos que não aborda o assunto...

Parabéns e felicidades na nova morada
Abração
HB


De Jorge Fiel a 26 de Abril de 2009 às 09:21
Preclaro Helder Brites

Agora que estás instalado num verdadeiro e amplo palacete, num parque digno de principes, já não deves mudar tão cedo. Penso eu de que...

abraços

A bem da Nação!


De neli araujo a 17 de Abril de 2009 às 03:21
É, todos nós temos as nossas fraquezas, rsrsrs

Boa Sorte na nova casa!

Um abração,

Neli


De Jorge Fiel a 26 de Abril de 2009 às 09:27
Preclara neli araujo

O busilis é saber transformar essas fraquezas em forças.

A bem da Nação!


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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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