Quinta-feira, 4 de Janeiro de 2007

Regras mínimas a observar na limpeza do salão

 
Mask, de Ron Mueck, 1997, é uma escultura de grandes dimensões (1m58x1m5x1m24), feita em resina de poliester. Imagine a enorme superficie de fossas nasais que há para limpar neste caso! Um trabalhão

 

Ninguém está imune ao fenómeno da acumulação de catotas no interior do nariz. Por isso, a questão das regras mínimas a observar no capítulo da chamada limpeza do salão é um assunto que toca a todos, mulheres e homens, velhos e novos, de todas as extracções sociais.

 

Ressalvo, no entanto e desde já, que este breve conjunto de regras não se aplica aos bebés de colo. Nestes casos, compete ao pai ou à mãe o uso de cotonetes para desentupir as narinas dos pobres infelizes.

 

Um velho ditado popular condena a extracção de burriés antes da meia-noite. O conselho é sábio, mas não deve ser levado à letra. O que o legislador popular pretendia dizer era que as pessoas se deveriam abster de proceder à limpeza das fossas nasais, com o indicador direito (o esquerdo no caso dos canhotos), à vista dos colegas, da amiga, do filho - ou seja de segundos e terceiros, em geral (animais domésticos excluídos).

 

Dito por outras palavras, não há qualquer problema em remover as catotas do nariz antes da meia noite se a operação decorrer na mais absoluta das intimidades, no resguardo da sua casa de banho, por exemplo,

 

Nunca será demais sublinhar a necessidade de rodear a limpeza do salão de uma privacidade maior que aquela que a Elsa Raposo dispensou às suas relações sexuais com o professor de surf Mário Esteves. Câmaras de vídeo estão, pois, absolutamente proibidas.

 

Também nunca será demais realçar o carácter íntimo da extracção de burriés. Ninguém está interessado em vê-lo a limpar o salão, o Cavaco a comer bolo rei, ou a sua prima a limpar o rabo.

 

No entanto, já haveria freguesia se se tratasse de ver a Elsa Raposo a falar com a boca cheia durante a sua maratona sexual com o professor de surf, numa alcova concorrida, em Carcavelos.

 

Há uma situação particularmente perigosa, uma verdadeira armadilha, que a todo o custo deve evitar. Você está sozinho no carro, as janelas fechadas, o ar condicionado ligado, a Mega FM aos berros a debitar o «Drops of Jupiter», o trânsito está completamente parado, a mão direita está ocupada a bater no volante ao som da música dos Train – e a mão direita parece que tem vida própria, dirige-se ao nariz, e inicia uma limpeza metódica e sistemática das fossas nasais.

 

Entretanto, olha para o lado e uma sósia da Scarlett Johansson está a olhar para si com um ar misto de censura e espanto!

 

Neste tipo de situações de crise, o essencial é evitar entrar em pânico. Se foi surpreendido em pleno transporte da matéria do delito, mantenha a calma e evite desembaraçar-se da catota  atirando-a pela janela. Não se esqueça que a janela está fechada e por isso vai fazer um pobre «remake» do célebre e rocambolesco episódio de Sousa Cintra com a garrafa de Água das Pedras (a vantagem é que as catotas, por muito idosas que sejam, são muitíssimo mais leves que uma garrafa e por isso não partiriam o vidro).

 

O que tem a fazer é usar a outra mão para tirar o lenço do bolso, desdobrá-lo, acondicionar lá os burriés, voltar a guardar o lenço,, fingir que nada aconteceu, manter o olhar fixo em frente, ocupar as mãos a desligar o ar condicionado e a mudar de estação, sintonizar a Antena 2, diminuir ligeiramente o volume de som, abrir um pouco a janela, procurar o olhar da sósia da Scarlett e assim que o contacto visual estiver estabelecido cubra a cara com as mãos, em sinal de vergonha. Pode ser que resulte…

 

As catotas são amigas do ambiente. A Natureza tem enormes dificuldades em digerir pilhas e sacos de plástico, mas devora burriés enquanto o diabo esfrega um olho. Mas isso não quer dizer que deva atirar para o chão, descuidadamente, os dejectos provenientes da limpeza das suas fossas nasais.

 

O aconselhável é extrair os burriés manualmente, no recato da sua casa de banho e depois deixá-las escoar pelo ralo do lavatório, sem preocupações. As catotas são solúveis na água.

 

Em toda e qualquer situação é terminantemente proibido – repito, completa e absolutamente proibido! – organizar um arquivo morto de catotas debaixo do tampo da sua secretária.

 

Se fizer isso, a prazo a sua reputação vai ser destruída para todo o sempre. Vai ver que se esquece do arquivo e um dia, no âmbito de uma reestruturação lá no escritório, o novo dono da sua secretária não resistirá em divulgar a toda a gente a sua javardice e falta de higiene.

 

publicado por Jorge Fiel às 20:37
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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