Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Estou de luto porque o meu Chveik ficou maneta

Interrompo hoje a publicação da Enciclopédia Sexual por um motivo de força maior. Estou de luto. A Leonor (a senhora que trata das limpezas cá em casa) partiu a estatueta de porcelana do Chveik que eu comprei há uns ano na cervejaria O Cálice, em Praga, onde Jaroslav Hasek situou o início da acção de "O valente soldado Chveik".

Demonstrando uma enorme insensibilidade (que não surpreende porque se ela fosse sensível muito provavelmente seria poeta, cabeleira ou proprietária de uma galeria de arte), a Leonor entrou-me pelo escritório dentro anunciando-me que “partira o polícia” (como se o bom do Chveik pudesse ser um polícia, valha-nos Deus) e acrescentando que “fora sem querer” – buscando assim atenuantes para a monstruosidade do seu acto na ausência de premeditação.

Fiquei como o camarada Guterres declarou estar a seguir à derrota eleitoral do Ferro Rodrigues (em estado de choque) quando reparei que ela se preparava para o inumar, sem dó nem piedade, despejando os cacos remanescentes no balde do lixo da cozinha. Interrompi esse acto bárbaro e irreflectido e estudei a situação.

O tronco e a cabeça sobreviveram à fúria devastadora com que a Leonor limpa o pó. A base partiu-se em três bocados, mas já os consegui colar. O principal problema, que não vejo jeito de resolver, é o do braço que estava a fazer a continência.

O braço direito do Chveik estilhaçou em nove pedaços, alguns deles tão pequenos como um dedo, que ainda não conseguir apurar se se trata ou não do polegar. Guardei tudo numa caixa de chá, para tentar a reconstituição quando tiver tempo e paciência. Para já, o meu Chveik dá um bocado ares de Victoria de Samotrácia.

Quero a propósito deixar aqui escrito que “O valente soldado Chveik” , do checo Hasek, é um espectacular compêndio de humor e um fantástico hino ao anti-militarismo.

Li-o avidamente e com prazer, quando tinha 15 anos, numa belíssima edição de Maio de 1971 da colecção de Livros de Bolso da Europa América, que ainda preservo.

Não tenho qualquer dúvida em declarar que derar que foi (pelo menos) um dos dez melhores e mais marcantes livros que li em toda a minha vida. Que me perdoem os espíritos dos milhões de mortos e gaseados, mas quase faz sentido que tenha havido a I Guerra Mundial para dar a Hasek o pretexto para escrever esta notável obra prima .

Já terei de ser mais comedido quanto à cervejaria O Cálice, onde estive por duas vezes. Fiquei com a ideia que se tornou uma coisa cara para turistas e que vive à custa da fama que Hasek lhe deu.

 

música: Ma Vlast, Smetana
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publicado por Jorge Fiel às 18:08
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10 comentários:
De Zé da Póvoa a 26 de Fevereiro de 2009 às 18:32
Pois é, o Jorge Fiel em jovem lia livros de bolsos da Europa-América , da colecção RTP e possivelmente o Mundo de Aventuras e a Marca dos Avelares, por isso nunca pode chegar a 1º. ministro deste país.
Veja o que lia o candidato do PSD, Pedro Passos Coelho : Kafka , Sartre, Balzac , Tolstoi , Dostoievski e outros grandes clássicos. Só assim é que é possível chegar a lugares de grande relevo nacional.
De Jorge Fiel a 1 de Março de 2009 às 09:18
Preclaro Zé da Póvoa

Li muito Mundo de Aventuras, muito Texas Jack, muito Condor, muito Falcão, etc.

Mas também alguma literatura sem desenhos - comprava regularmente as duas colecções de livros de bolso editadas durante a minha adolescência: a RTP (mais seca) e a Europa América, que me apresentou a autores fabulosos, incluindo o Sarte.

Os politicos deviam ter vergonha e não mentir sobre as suas leituras. Com aquela tirada, a armar-se, o Passos Coelho desceu alguns pontos na minha consideração.

A bem da Nação!
De Peça, com i a 26 de Fevereiro de 2009 às 19:59
Leonor não tem culpa. Não resistiu a dar uma traulitada no polícia opressor.
E não é insensível, é apenas pragmática, como qualquer bom proletário.

A bem da Nação
De Jorge Fiel a 1 de Março de 2009 às 09:21
Preclaro Peça, com i

Lá está. O proletariado às vezes engana-se na escolha dos alvos da sua justa raiva. Foi o caso. A Leonor terá confundido um simbolo do anti-militarista com um policia de giro. Uma pena! O proletariado precisa de mais instrução.

A bem da Nação!
De Laranjada Ovarense a 26 de Fevereiro de 2009 às 22:07
Camarada,
Não foi o Ferrinho, foi o ComPaio ...
Parece impossível um lapso destes num xuxa tão ferrenho! (Ou será um neo-xuxa, facção Augusto Santos Silva, secção tripeira ?)
Cumprimentos,
De Jorge Fiel a 1 de Março de 2009 às 09:24
Preclaro Laranjada Ovarense

Exacto. O ComPaio. Lamentável engano. Obrigado pela correcção. A minha única dúvida é se estou a ficar gagá ou já estou efectivamente gagá.

Neo-xuxa? Moi?? Não me parece. E que tal cripto-xuxa? Ou filo-xuxa? Com ou sem hifen? O que acha?

A bem da Nação!
De fp a 26 de Fevereiro de 2009 às 22:36
JF
Confesso-lhe que também li, no final da adolescência esse livro, e que teve em mim efeito semelhante.
Ajudou (junto com outros livros, e ... a vida) a tornar-me fortemente anti-fardas.
Se soubesse o que me custou rapar a carapinha e vertir-me de feijão verde em mafra!

Hoje em dia, com o culto das marcas (que não passa de outro tipo de uniformes), dou por mim a desejar a igualizadora farda escolar no ensino público ( enfim, com avelhice vem alguma capacidade de relativizar as coisas).

Quanto ao boneco, com paciência, não há nada que não se cole.
De Jorge Fiel a 1 de Março de 2009 às 09:28
Preclaro fp

Em Mafra, meu preclaro amigo, custou-me mais ter de me habituar a comer e calar, sem refilar, do que a máquina zero ou ter de andar vestido com a farda número 3 - que sempre me pareceu de boa qualidade e design atraente (já a farda 2, ou de saída, sempre a detestei).

Estou tentado a estar de acordo consigo relativamente ás fardas escolares no ensino público.

A bem da Nação!
De Anónimo a 3 de Março de 2009 às 23:00
O Valente Soldado Scvheik ??? Grande livro, comecei a lê-lo depois de ver a série que chegou a passar na televisão. Fantástico
De Jorge Fiel a 7 de Março de 2009 às 17:23
Preclaro Anónimo

Grande é pouco para qualificar o Chveik. Gigantesco. Fenomenal. Sublime. Sensacional. Imperdível. Arrasador. Espantoso. Fantástico. Extraordinário.

A bem da Nação!

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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