Sábado, 17 de Janeiro de 2009

A badalhoca que não se lava por baixo e aquela ali que até parece não tem espelhos em casa...

O velho Haddock é o mestre do insulto

“Sua badalhoca! Não te lavas por debaixo”. Mais ou menos ipsis verbis foi este o mais espalhafatoso insulto entre mulheres que me foi dado a ouvir.

A rua da Reboleira (onde outrora residiu o célebre Toninho da Reboleira, especialista amador no tratamento de esquentamentos e outras doenças venéreas - não sei de que é que a Câmara para mandar por uma placa evocativa à porta!), na Ribeira, foi o cenário em que foi pronunciada este pequeno pedacinho de ouro da oralidade neo-realista.

O insulto foi o refrão mais sonante da rica banda sonora de uma bulha entre mulheres cuja dimensão física reunia os ingredientes indispensáveis para ser cinematográfica - ou seja, arranhavam-se na cara e tentavam arrancar os cabelos uma à outra. Acção a mais para o nosso Manoel, que imortalizou a Ribeira com o seu Aniki Bobó.

Foi já há uns bons 15 a 20 anos, quando eu frequentava com alguma frequência o território que os gangs da Ribeira e de Miragaia usam agora como a sua Faixa de Gaza privativa, que registei este insulto no meu disco rígido.

Nunca cheguei a apurar ao certo qual a divergência de pontos de vistas que originou a briga, mas estou a crer que não errarei muito se presumir que era assunto de calças ou de maledicência circular (1).

Não tenho dúvidas de que os mais cruéis insultos são ditos por mulheres e para mulheres. Se o da “badalhoca que não se lava por baixo” é o meu preferido, pela sua extravagância, não posso deixar de referir a imensa preversidade contida na frase “aquela ali parece que não tem espelhos em casa…” tantas vezes murmurada (talvez para não chegar aos ouvidos da visada).

O que nos trás de volta para a temática da casa de banho e do respectivo espelho.   

 …………….

(1)  O conceito de “maledicência circular” (ou, se preferirem, “maledicência de volta perfeita”) foi, neste preciso momento, inventado por mim para significar uma situação em que a fulaninha usa a sicraninha para pôr a circular um boato doloso e assassino sobre beltraninha, sendo que esta última acaba, mais cedo ou mais tarde, por descobrir toda a tramóia, que na origem do rumor prejudicial está a cabra da fulaninha, pelo que se dirige a ela para tirar explicações e obter o conveniente desforço. No momento desta minha invenção, acho por bem dedicá-la ao grande e falecido Eduardo Prado Coelho, como singela retribuição por ele ter cunhado o conceito de orgasmo vertical, contribuindo assim para a felicidade de muitos portugueses e brasileiras (e, estou em crer, de outros lusófonos de ambos os séculos). Já agora um pergunta ao Instituto Camões. Para quando a exportação deste conceito genial do EPC?

 

música: Freeway, Aimee Mann
publicado por Jorge Fiel às 18:08
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5 comentários:
De Tibetana a 18 de Janeiro de 2009 às 13:23
Preclaro JF, estás ferino e como!
Mas esta de blá blá blá e tititi, é o seguinte:
"Assombração não aparece a qualquer um!"
Realmente existe uma maledicência circular alimentada pelo feminino, acho que é aprendizagem caseira, doméstica.Os homens entre si são muito mais amigos do que as mulheres entre elas, é uma grande verdade e terrível.
gosto do ditado "conhecidos poucos, amigos raros"!
De Jorge Fiel a 18 de Janeiro de 2009 às 16:37
Preclara Tibetana

"Timeo Danaos et dona ferentes" (temo os gregos mesmo quando nos dão prendas), como dizia o sábio Laocoonte para tentar convencer os troianos a não meterem na cidade o cavalo de madeira que os gregos tinham deixado na praia, quando fingiram retirar-se.

O Laocoonte estava cobertinho de razão. Devemos desconfiar dos inimigos, principalmente quando eles se revelam generosos.

É o conceito do presente envenenado.

A bem da Nação!
De a 23 de Janeiro de 2009 às 12:38
tenho ideia que já li essa do timeo não sei o que, num astérix qualquer
De Jorge Fiel a 27 de Janeiro de 2009 às 11:55
Preclaro a

Uma das delícias do Astérix é a maestria com que o Goscinny usava as locuções latinas para fazer graças.

Bene vulgo audire est alterum patrimonium - que é como quem diz, a boa reputação éum segundo património.

A bem da Nação!
De Maria Nata a 24 de Maio de 2017 às 19:16
Num passeio à Ribeira lembrei-me de recordar algumas casas conhecidas e bonitas daquela zona, quando me apercebi que a Farmacia do Toninho da Reboleira tinha desaparecido.A curiosidade de saber o que tinha sido feito daquele espaço levou-me a consultar a internete quando deparo como seu comentário depreciativo que demonstra alguma ignorancia sobre quem foi esta personalidade. O Toninho da Reboleira não era como diz um especialista amador em esquentamentos e doenças venereas. Era sim um estudioso sobre produtos naturais que aplicava nas maleitas de quem o procurava. Eram seus pacientes crianças com males de pele, senhoras com problemas de varizes e outros. Não era Prof. Dr. Toninho da Reboleira mas era considerado e respeitado pelo sucesso dos seus tratamentos. Maria.

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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