Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008

Sobre a utilidade marginal dos jornais

 

Além de informar, os jornais têm tido diferentes utilidades ao longo dos tempos. Depois de folheados, são usados com vantagem em inúmeras situações.

Os jornais são óptimos para embrulhar peixe, ajudar a secar o interior de sapatos encharcados e acender lareiras. São ainda espectaculares para nos proteger do frio.

Os sem abrigo de Nova Iorque, que são provavelmente os maiores especialistas vivos na arte de sobreviver ao frio (nunca percebi porque não se mudam para um clima mais temperado, como, por exemplo, o algarvio), são peritos em usar edições antigas do New York Times (as suas folhas broadsheet são melhores para o efeito que as tablóides do Post) para se protegerem dos rigores do Inverno.

Eu próprio tive oportunidade de comprovar pessoalmente esta valência dos jornais na noite do jogo da segunda mão da meia final da Champions em que o FC Porto defrontou o Deportivo na Corunha.

Aquele venturoso dia para as nossas cores amanheceu no Porto com um agradável calor primaveril, que me levou a cometer a imprudência de viajar para a Corunha em corpinho bem feito – expressão, que no meu caso particular, não é empregue no sentido literal, apenas no figurado, pretendendo descrever que usava apenas camisa com qualquer protecção exterior do tipo casaco.

O frio que sublinhou a escala para almoço em Santiago de Compostela (onde na companhia do Manuel Serrão, Juca, Miguel e Vítor Oliveira, aviei calamares, pulpo à galega, pata negra, pimientos de Padrón e manchego) tornou claro a minha errada avaliação das idiossincrasias metereológicas   da Galiza.

Chovia cães e gatos, como diriam os ingleses, quando desembarcamos na Corunha. Fiquei logo totalmente encharcado e a única maneira que arranjei para esconjurar os perigos inerentes à situação (mãe, pela certa, de uma broncopneumonia) foi usar o know how dos homeless novaiorquinos e calafetar-me todo com os jornais que trouxera para ler enquanto fazia horas para o jogo. Só vos digo que deu um resultadão!

 

música: Baby come to me, James Ingram e Patty Austin
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publicado por Jorge Fiel às 18:08
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4 comentários:
De Anónimo a 19 de Dezembro de 2008 às 21:51
Estou a ver onde quer chegar.

Sentiu-se reconfortado.

Do género - ou, como dizem agora: tipo - 'andei uma vida na labuta, a encher colunas destas para estar agora a habilitar-me a uma broncopneumonia..., nã..., essa é que era boa!! vão mas é p'ró camandro que eu revisto-me já todo de folhas '''broadsheet''', qu'isto nunca terá utilização melhor que esta, ai não, não!'

E se não foi assim, podia ter sido...




Já quentinho, com o seu corpinho bem feito todo forrado de jornais, até ficou clarividente para topar as manhas da formação atacante, tornando-se imune ao frio húmido da Coruña.

Enfim...


Vai-me desculpar, pois mesmo entendendo que algo de semelhante a isto que refiro lhe pode ter varrido a cabeça, não entendo é por que raio faz referência a NY.
Porque é mais fino?
Olhe que também há frio e pobres sem casa no Porto, em Gaia, em Braga e, até, em Bragança.
Para não dizer que os há igualmente em Santiago de C. na Coruña, ou até em Vigo.
Ou em Madrid.
Ou Paris.
Ou Milão.
Ou Roma.
Ou Berlim.
Ou Londres. Ou mesmo em Moscovo.

Não vejo que o Pravda - como sabe bem, Пра́вда, isto é, a Verdade - nos tempos em que ainda se lia, enquanto exponente mediano da razão soviética, ou seja, da Verdade do lado de lá da Guerra Fria, não vejo, dizia, que fosse impresso com pior papel que os títulos que circulam nas avenidas endinheiradas (agora falidas) da nova amesterdão.


Nem vejo que um pobre de Paris, que não tenha lugar no respirador do Metro, possa ter menor dignidade, nem que o Le Monde não preste para o efeito...

E um pedinte londrino? Não se pode embrulhar no Observer, ou se quiser, no Guardian? E é pior? Não serve?




É óbvio que não admitirá que, no Porto, um pobre sem casa se possa embrulhar no JN e que um cidadão em situação semelhante rejeite recorrer ao DN em Lisboa. Sim, porque no Porto reinam as casas de banho de Serralves, patrocinadas pelo Grande BPI, e produzem-se milionárias torneiras banhadas a ouro, da Ilustre Casa de Cifial. Sim, porque no Porto, pobre que é pobre, só pode ter aprendido a embrulhar-se em jornais a meio da Madison Av. Lá, ao menos, não trocam os bês pelos vês, pensarão...
E será nessa linha de pensamento que se entendem os seus recentes escritos sobre o dr. Cunhal?
Olhe que o mundo de Bush acabou. Isto agora está diferente. E ainda bem!!



Confessa?
Aquilo que pôs ali acima, sobre NY, é fetiche?


Muito se escreve por tortas linhas, para acabar soprado ao coração e reconhecer a razão!! Como as duras verdades que só os filhos dizem aos pais.




Bem Haja, se puder
De Jorge Fiel a 21 de Dezembro de 2008 às 07:50
Preclaro Anónimo

Corunha com ñ parece-me uma inaceitável submissão ao imperialismo castelhano, mas cada um sabe as linhas com que se cose.

Eu não quero implicar com o meu preclaro amigo, tanto mais que está coberto de razão quando diz que há pobres e frio em todo o lado.

Caro que eu poderia responder-lhe que há mais frio na Finlândia e mais pobres na Somália, mas não o vou fazer - esqueça este parágrafo.

Sim, eu tenho uma fixação apaixonada por Nova Iorque - acho que já deu para perceber. Aos meus olhos é uma cidade fantástica apesar de povoada ppr uma quantidade não negligenciável de homeless.

Sim, eu tenho uma fixação apaixonada por clichés - acho que já deu para perceber. E os homeless de Nova Iorque calafetados em papel de jornal são um cliché, da mesma maneira que é um cliché os sem abrigo de Paris viverem debaixo das pontes.

Os sem abrigo de Lisboa ou do Porto não podem viver debaixo das pontes porque elas são manifestamente desadequadas a esta função de abrigo. Quando muito podem abrigar-se debaixo de um viaduto.

A minha observação dos sem abrigo da zona circundante da rotunda da Boavista permite-me afirmar-lhe que os homeless portuenses estão regra geral apetrechados com cobertores bem felpudos - deve ter a ver com a pujança da nossa indústria têxtil - e usam muito caixas de cartão - deve ter a ver com o facto de se tratara de uma zona de muito comércio.

A bem da Nação!
De Tibetana a 20 de Dezembro de 2008 às 18:46
Preclaro JF,
segue lista :
1-previnem constipações, gripes, pneumonias e broncopneumonias;
2-enchem por completo o interior de sapatos encharcados
3-auxiliar das pinhas e acendalhas da lareira
4- limpa-vidros impecável, incluso os do automóveis, absorvendo a gordura ou humidade
5-absorvem o xixi dos cães e gatinhos, de caracter solido incluso
6- absorvem agua do piso, porventura de chuva intensa
Nota-
o poder de absorção dos jornais é intenso e metafórico, pelo visto, imagine o poder de osmose para as mentes!
Mas, em um passar de vista ultra rápido, no post mais recente, admiro o corte perfeito, com a tesoura, ao contrário de épocas passadas :D

Estás a melhorar!!!!!!
De Jorge Fiel a 21 de Dezembro de 2008 às 07:54
Preclara Tibetana

Como diziam os romanos:

"Palmam qui meruit ferat"

(dito por outras palavras, dêem a palma a quem a mereceu, ou, ainda mais prosaicamente, os aplausos para quem se tornou digno deles)

A bem da Nação!

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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