Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

A enganadora expressão "água vai" e a séria eventualidade de sofrer com o despejar do penico

As casas de banho nasceram no exterior e o movimento urbano de as acomodar no interior dos apartamentos desencadeou protestos de cariz higienista.

À época, as cidades não estavam equipadas com modernas redes de esgotos e como toda a gente sabe as fossas sépticas entopem (às vezes até transbordam, o que é uma enorme chatice) e carecem de uma manutenção regular.

Acresce que a democratização do autoclismo é uma revolução relativamente recente. As casas de banho onde nos aliviávamos “à caçador” não estavam apetrechadas com esse moderno mecanismo.

Quando eu era miúdo, a minha mesinha de cabeceira continha um compartimento especialmente concebido para albergar um penico.

O uso do penico, agora restrito à hora do cocó dos bebés (por vias da desproporção gritante entre o diâmetro das sanitas e dos rabinhos deles),  era generalizado a gente de todas as idades e condições na época em que as casas de banho moravam no exterior das casas.

Se o pessoal acordava durante a noite com vontade de satisfazer as suas necessidades fisiológicas de carácter líquido (ou até mesmo sólido, imaginem!) tinha o penico à mão (na mesinha de cabeceira ou debaixo da cama) que lhe poupava o incómodo de ter de sair de casa para se aliviar.

Depois, pela manhã, o penico era esvaziado, nem sempre da melhor maneira.

A enganadora expressão “água vai” ficou do tempo em que servia de aviso ao pessoal que seguia na rua para a iminência de despejo de líquidos – que nem sempre eram apenas água. Podia muito bem tratar-se do despejar do penico.

 

música: Throwing it all away, Genesis
publicado por Jorge Fiel às 18:08
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2 comentários:
De Anónimo a 12 de Dezembro de 2008 às 21:07
A faiança portuguesa é um primor.

De Sacavém, à Viuva Lamego, passando pela Bica, ou pela prestigiada fábrica do Rato, ou, no Norte, pelo Cavaquinho e as peças de Santo António do Vale da Piedade, ou pelos produtos da zona duriense, sobretudo de Vila Nova de Gaia, ou ainda de Massarelos, ou de Miragaia ou pelos produtos da grande e reputada tradição cerâmica de Viana.

Não nos faltam também grandes coleccionadores de faiança, desde os que se especializaram em artigos mais populares, das Caldas (incluíndo as excelente peças e bonecos desenhados pelos dois irmão Bordallo Pinheiro), aos que têm tudo nos seus acervos, como foi o caso de colecções tão imponentes quanto as do Comandante Vilhena, de Lisboa, ou de António Moreira Cabral, portuense.

Por isso, cagar em faiança é muito português.
Com ou sem aranhões na faiança, ou com maior ou menor mistura de caulino, a faiança nacional é o produto de muitos séculos de miscigenação histórica. Essencialmente, a faiança nacional cruza o mundo chinês com o mundo islâmico.

A nossa faiança foi incorporando todos os elementos bebidos na porcelana chinesa, encomendada pelas companhias das índias, e produzidas para responder aos gostos da clientela europeia, logo desde a Dinastia Ming (começaram em 1500 e troca o passo e foram por aí adiante até quase ao século XIX), produzindo sucessivas famílias de peças, geralmente referenciadas por cores (a família azul, a verde, a amarela, e assim sucessivamente). Do Islão fomos beber à tradição hispano-árabe, de que também se produziram peças importantíssimas na Península Ibérica.

Por isso, em matéria de cagueiro, temos muitas décadas de especialização, todas elas anteriores aos modernos quartos de banho de alta tecnologia e requintado design.

Ou seja, os penicos nacionais sempre gozaram de elevada técnica de produção, desde uma altura em que não havia globalização (e em que os nossos penicos já eram globalizados) -- nem consta que qualquer cartomante já vislumbrasse o nascimento de Kotler, ou de outros gurus que pudessem vir a inventar o marketing. Nessa altura, estariamos longe de imaginar que os penicos deveriam ser identificados na sua trajectoria de produção com uma denominação de origem "made in Portugal". Arriscaria dizer que se assim tivesse sido, mais de meia Europa cagava «made in Portugal» -- uma ideia que o ministro Manuel Pinho ainda não apanhou devidamente, mas que pode vir a chegar longe... Aliás, já desde essa altura, boa parte dos nossos produtos (genuínos penicos portugueses) vinham do Oriente, do Rio das Pérolas, da costa Oriental de África ou da costa Ocidental da Índia.

Goa, Damão e Diu cagam em penicos globalizados há muitos séculos, graças aos portugueses.

E não é tudo. Este útil objecto de higiéne pessoal também teve diferenciação por sexos. As senhoras, para não terem que ficar de cócoras, ou para evitarem encaixarem-se nos inestéticos caixotes de madeira onde ficavam os penicos masculinos, utilizavam penicos altos, alguns deles com tubos superiores a 50 centímetros. Esses eram geralmente despejados em estrumeiras em vez de serem atirados pela janela (uma versão popular, quase exclusivamente urbana, de zonas densamente povoadas).


Serve isto para lhe dizer que achei interessante esta sua "água vai".

Muito haveria também para versar sobre essa peça de cerâmica vidrada ou de faiança -- o azulejo -- que foi utilizada para forrar paredes e, assim, ter maior asseio (não impregnava nem mijos, nem bostas) e que hoje quase se confina a retretes e cozinhas.



Ao todo, Bem Haja.

Saúde!!
De Jorge Fiel a 16 de Dezembro de 2008 às 10:06
Preclaro Anónimo

Esmagado pela sapiência que o preclaro Anónimo evidenciou nesta generosa e fantástica lição sobre faiança, peço-lhe licença para sublinhar três frases, com o único objectivo de puxar para cima o nosso moral de portugueses abatidos pela crise:

Cagar em faiança é muito português

Os penicos nacionais sempre gozaram de elevada técnica de produção

Mais de meia Europa cagava "made in Portugal"

Muito obrigado por ter partilhado connosco os seus conhecimentos.

A bem da Nação!

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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