Terça-feira, 18 de Novembro de 2008

Posição do missionário era a única autorizada

Rudolf Hoess no cativeiro. O comandante de Auschwitz, responsável pela orquestra, o bordel - e a morte de um milhão e meio de pessoas-, sustentou até à morte que os nazis fizeram bem em exterminar os judeus

 

Não foi novidade para mim a existência de uma orquestra de presos que todos os dias actuava junto à cozinha, à passagem para o trabalho dos outros prisioneiros.

Esta tentativa macabra de Rudolf Hoess, o comandante de Auschwitz,  de imprimir alegria ao início de uma dura jornada de trabalho escravo  (1), rima com a máxima “Arbeit Macht Frei”, que encima o portão de entrada.

No Verão de 1943, os nazis sofisticaram a oferta de diversão no campo ao instalarem no campo de morte um improvável bordel, destinado a recompensar os presos que usavam como capatazes (kapos) ou para a execução das  tarefas mais sujas (sonderkommandos).

Soube da existência do bordel através da leitura de “Auschwitz: The Nazis & The Final Solution”, do jornalista britânico Laurence Rees (2), que recomendo vivamente a todos os interessados em tentar perceber como é que a Humanidade conseguiu descer tão baixo.

O funcionamento do bordel obedecia a regras muito rígidas.

À chegada, o cliente exibia o “voucher” e era examinado por um médico SS. Se fosse aprovado na inspecção, recebia um carimbo na mão e seguia para uma sala onde era sorteado o quarto e a vez.

Posto isto, ficava na sala de espera, aguardando pacientemente a sua vez de ser atendido. De 15 em 15 minutos, tocava uma campainha, sinalizando o fim de uma visita e início da seguinte.

Era estritamente proibido o cliente e prostituta trocarem palavras – apenas carícias e fluidos. Era proibido recorrer a outra posição que não a tradicional, do missionário.

A fiscalização da observação destas regras estava a cargo de soldados SS, que usufruíam de “peep shows” gratuitos e davam livre curso às suas pulsões voyeuristas ao vigiarem o que se passava no interior do quarto, através de um óculo aberto na porta.

(continua)

 

…………………………………….

(1) O conceito foi adoptado pelo Estado Novo, com a criação da FNAT-Federação Nacional para a Alegria no Trabalho.

 

(2) Há um mês, naquelas bancas de jornais junto aos Cais do Sodré que também vende livros usados, reparei que há uma tradução portuguesa deste livro (que em 2006 ganhou o prémio History Book of the Year), com exactamente a mesma capa e apêndice fotográfico.

 

música: Something, Beatles
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publicado por Jorge Fiel às 18:08
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12 comentários:
De eppursimuove a 18 de Novembro de 2008 às 18:44
Um bom livro, parece-me. Talvez um pouco pesado, mas ainda assim uma preparação a uma visita a Auschwitz. Vou tentar adquiri-lo. Boa sugestão.
De Jorge Fiel a 22 de Novembro de 2008 às 09:02
Preclaro Eppursimuove

Uma decisão sábia, deixe-me que lhe diga.

Não é só Auschwitz que se apanha no livro de Rees, mas também as raízes, essência e evolução do nazismo.

Sabia que um dos primeiros planos dos nazis para os judeus consistia em deportarem-nos a todos para o Madagascar?

A bem da Nação!
De Tibetana a 18 de Novembro de 2008 às 20:40
Que tal iniciar a temática da economia PÓS-guerra na Europa?
De Jorge Fiel a 22 de Novembro de 2008 às 09:04
Preclara Tibetana

Assim que acabar esta interminável série polaca pode crer que vou abordar temáticas mais leves, como, por exemplo, as casas de banho.

Não quero o risco de ficar sem freguesia :-)

A bem da Nação!
De Abobrinha a 19 de Novembro de 2008 às 15:02
Porra, homem! Isto está cada vez mais deprimente! E ainda por cima, o título é enganador: pensava eu que a coisa estava a animar e você sai-se com esta!

Fica a saber que eu podia ter ido a Auschwitz, mas optei por não ir: não aguentei!
De Jorge Fiel a 22 de Novembro de 2008 às 09:05
Preclara Abobrinha

Sossegue chérie. Isto está quase a acabar.

Pelas minhas contas, em Dezembro a javardice estará de volta à Lavandaria.

A bem da Nação!
De Fernando Pires a 19 de Novembro de 2008 às 16:05
Viva.

É a primeira vez que comento o seu blog apesar de o acompanhar há algum tempo.

Estou deliciado com estes posts sobre um país que me é tão querido.

A forma como escreve sobre Auschwitz consegue aproximar-se incrivelmente da imagem colada na penumbra que nos assalta quando passámos por lá. É um vazio silencioso muito difícil de explicar.

Muitos parabéns pelo blog.

Cumprimentos,
Fernando
De Jorge Fiel a 22 de Novembro de 2008 às 09:09
Preclaro Fernando Pires

Obrigado meu preclaro amigo. Isto anda de uma maneira tal que uma pequena engraxadela no ego não faz mal nenhum - antes pelo contrário, é sempre bem vinda. Não pode ser só pontapés nas costas :-)

"Vazio silencioso muito difícil de explicar" é uma magnífica expressão. Fico feliz por saber que não fui o único a sentir isso.

A bem da Nação!
De Tibetana a 19 de Novembro de 2008 às 21:32
li e reli, JF, não que não saiba da História, mas aqui o relato é pessoal e detalhista baseado no real...embora não aprecie realmente filmes ou livros sobre a II guerra, especialmente campos de concentração.
Mas sobre os ditos traidores, acredito que em circunstâncias extremas, como a humilhação e fome e maus-tratos, o medo da morte provoque reacções inacreditáveis em qualquer ser humano.
Nestes momentos, como em relatos de tortura extrema, onde anula-se o ser humano, tudo pode acontecer, o motivo irracional para alguns deve ser a sobrevivência. Deve ter visto o filme sob o título de Malena (creio eu), o que a sentença, emitida pelos olhos que alheiam-se ao que de fato existe, provoca!
De Jorge Fiel a 22 de Novembro de 2008 às 09:12
Preclara Tibetana

Acho a palavra "traidores" desadequada para qualificar os sonderkommando e kapos.

Penso que Rees explica bem as circunstâncias e eu tentei resumi-las no "post" sobre a fragilidade da condição humana.

A bem da Nação!
De Tibetana a 22 de Novembro de 2008 às 15:37
Mas para alguns poderia beirar a este sentido, porém concordo.
De Jorge Fiel a 26 de Novembro de 2008 às 18:33
Preclara Tibetana

Ainda bem que estamos no mesmo comprimento de onda!

A bem da Nação!

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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