Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

O Tratado de Tordesilhas na noite de Cracóvia

Atendendo ao desenho peculiar do meu nariz e ao facto de Oliveira constar do meu nome, não é impossível que haja sangue judeu (1) a correr-me nas veias.

É possível. Apesar de estar habituado a trabalhar ao sábado, gosto muito do Larry (Calma, Larry! Take it easy!) e sou fábrica descoberta (2).

Apesar de não ser um mitra (3), acho que ninguém me pode acusar de ser um estroina, um “big spender”. Quando faço compras no supermercado dou-me ao trabalho de pôr os óculos de leitura para decifrar o preço por quilo dos produtos. E na hora de atirar o produto para o carrinho, podem crer que vai a marca de mostarda de Dijon mais barata ao quilo.

A possibilidade de eu ter uma costela judaica é aqui invocada a título preventivo.

Espero que os filhos de David não levem a mal qualquer coisinha mais melindrosa que eu possa escrever neste “post” que evoca um momento quase perfeito vivido por mim no bairro judeu de Cracóvia e que finaliza o capítulo das minhas aventuras em Kazimierz. Shalom!

Há mais de 500 anos,  que Kazimierz é habitado por judeus e, por isso, teve períodos melhores e outros piores. Dos cerca de 60 mil judeus que residiam em Cracóvia à data da invasão nazi, apenas três mil sobreviveram à II Guerra Mundial,  mais pela graça de Schindler do que de Deus propriamente dito, se me perdoam o ateísmo deste aparte.

O anti-semitismo endémico do regime pró-soviético instalado no pós guerra em Varsóvia não favoreceu a regeneração da comunidade judaica, cujo Outono demográfico foi compreensivelmente acentuado por um fluxo migratório para a Terra Prometida.

Kazimierz acompanhou o declínio da comunidade judaica de Cracóvia e em 1989, quando o comunismo se desintegrou, era um bairro perigoso, onde, conta quem sabe, apenas um turista desmiolado ousaria entrar.

Menos de 20 anos chegaram para mudar a face e alma de Kazimierz, que se transformou no bairro da moda, uma espécie de Marais (o antigo bairro judeu de Paris) à moda de Cracóvia, possuído por uma vibrante vida nocturna.

Há uma espécie de Tratado de Tordesilhas, não escrito, subjacente à noite de Cracóvia: os turistas de excursão vão para a Stare Miasto  (a cidade  velha, que tem como coração a belíssima Rynk Glówny) ; os indígenas e turistas iniciados passam-na em Kazimierz.

Além da pedra, dos cemitérios e das velhas sinagogas, o bairro judeu está cheio de lojas, bares e restaurantes frequentados por gente de aspecto plural que lhe conferem um ar cosmopolita e alternativo.

Foi na Plac Nowy, o centro de gravidade do bairro, que vivi um momento quase perfeito, instalado numa esplanada a deitar abaixo uma caneca de Zywiec (uma das marcas locais de cerveja), enquanto pastava o desmontar das bancas verdes que ocupam  a zona central da praça, que durante o dia vendem coisas tão variadas como sapatos de plástico, carne de cavalo, after shave (de marcas conhecidas mas origem duvidosa), e graves relógios de parede com a corda partida.

Enquanto testemunhava o cair da noite, veio-me à cabeça a ideia de que vir a Cracóvia e não ir a Kazimierz é a mesma coisa que ir a Roma e não descer a escadaria da Piazza di Spagna, desde a igreja de Trinitá dei Monti até à barroca Fontana della Barcacia, projectada pelo nosso preclaro amigo Gian Lorenzo Bernini (4)

Ora aqui temos a tabuleta do mais popular dos bares de Kazimierz

(continua)

………………………………..

(1) Esperemos que com níveis aceitáveis de colesterol e triglicéridos.

 

(2)  Para os que não são familiares com esta terminologia popular, aqui fica o sinónimo: circuncidado.

 

(3) Estas notas de pé de “post” arriscam-se a tornar-se um dicionário de sinónimos. Mitra = pessoa extremamente poupada, mão fechada, agarrado, fonas, forreta.

 

(4) Não sei se já vos disse, mas essa de ir a Roma e não ver o papa está tão gasta que até já não aguenta mais remendos. Ainda se fosse no tempo do Totus Tuus, que era polaco e estudou em Cracóvia – agora  este é ainda mais reaccionário que o Wojtyla e ainda por cima é alemão.

 

música: Never tear us appart, Inxs
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publicado por Jorge Fiel às 18:08
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6 comentários:
De Tibetana a 13 de Novembro de 2008 às 22:18
Salve JF,
aí está uma façanha aprovada: ir às compras com ou sem, óculos de leitura.
A do tratado de Tordesilhas cai bem, segundo o exemplo, mas o dito"gente plural"é muito cómico!
Engraçado!!!!!! a foto do nome do bar, mas é um belo nome!
E agora? o que resta a ver?
De Observador a 14 de Novembro de 2008 às 08:10
Bom dia cortesão!

Estava a ver que não...!
De Tibetana a 14 de Novembro de 2008 às 10:53
Que???...
LOL!!!
De Jorge Fiel a 22 de Novembro de 2008 às 09:25
Preclara Tibetana

Isso mesmo. Boa disposição. Tristezas não pagam dividas.

A bem da Nação!
De Jorge Fiel a 22 de Novembro de 2008 às 09:25
Preclaro Observador

Permita-me uma pergunta. O meu preclaro amigo é observador ou espreita?

A bem da Nação!
De Jorge Fiel a 22 de Novembro de 2008 às 09:24
Preclara Tibetana

A vida tem destas coisas. Cheguei a uma idade em que ós óculos de leitura são tão imprescindiveis como o telemóvel e o cartão multibanco. Não posso sair de casa sem eles.

O Alchemia é o bar mais in em Kazimierz. Se for a Cracovia tem de ir lá.

A bem da Nação!

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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