Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Posso afirmar ser falso que o Honoré de Balzac tenha dormido com a Eveline debaixo da Rosa

 

Os ricos devem ter um pó imenso ao Honoré de Balzac  por ele ter cunhado uma frase fácil de decorar (um verdadeiro soundbyte) – “Por detrás de cada fortuna há um crime” – que, no mínimo, não lhes é simpática.

A beleza disto é a impotência dos oligarcas que se sentem difamados com esta sentença, frequentemente citada para os ofender, pois não podem accionar judicialmente o seu autor, que já está a fazer tijolo no Pére Lachaise há 158 anos e 85 dias, se a memória não me falha.

Além de ter dado esta ajuda involuntária ao florescimento e expansão do marxismo, o preclaro Honoré legou à humanidade o adjectivo balzaquiana, que originalmente serviu para qualificar de maduras as mulheres de trinta anos.

Desde o tempo de Balzac, o mundo já deu muitas voltas, a esperança de vida duplicou e apesar de entrarem em actividade cada vez mais novas (e sem correrem o risco de engravidarem por obra e graça da fantástica invenção da pílula), as raparigas amadurecem cada vez mais tarde.

Nos dias de hoje, aos 30 anos as raparigas agem ainda como adolescentes com pedacinhos de placenta ainda agarrados à cara. Só por volta dos quarentas se transformam em mulheres, dignas de serem consideradas balzaquianas, com tudo quanto o termo encerra em experiência, sabedoria e maturidade.

Mas ao contrário de Chopin, o Balzac era francês e não polaco (1) , pelo que só foi aqui chamado por ter sido protagonista involuntário do meu quarto encontro com a História ocorrido durante a minha estadia em Cracóvia.

A ocorrência deu-se na Florianska, uma rua altamente recomendável e movimentada, que liga a Rynek Glówny à porta  de S. Floriano, um dos raros vestígios sobreviventes da muralha medieval em forma de lâmpada que protegia a cidade.

O número 14 da ulica Florianska pede uma paragem, já que se trata do mais antigo e prestigiado hotel de Cracóvia, o Pod Roza (2), onde ressonou gente tão ilustre como o czar Alexandre II e o Franz Liszt.

A passagem pelo Pod Roza deste pessoal é recordada por lápides onde são referenciados outros nomes, além do czar e do compositor, como, por exemplo, Mohamed Riza, um sujeito que nunca me tinha sido apresentado mas que fiquei a ser se notabilizou por ter sido o enviado persa do Napoleão.

Uma placa reclama o Honoré de Balzac como parte integrante da lista de hóspedes ilustres do Pod Roza, mas historiadores rigorosos já tiraram a fonte limpa ser falso que o romancista francês se tenha abandonado nos barcos de Morfeu (e da sua Eveline) no famoso hotel da Florianska.

Na origem deste lamentável equívoco está o facto da placa - gravada para lembrar às gerações vindouras a passagem do autor da Comédia Humana por este hotel – ter sido entregue por engano no Pod Roza e não no veraddeiro destino, o Pod Biala Roza.

Eu sei perfeitamente que enganos destes estão sempre a acontecer. Há coisa de cinco anos, esperei, debalde, três dias que a Ikea me entregasse a mobília no meu apartamento em S. João do Estoril. Quando protestei fiquei a saber que o sofá, cadeiras, mesa de jantar (e por aí adiante) tinham sido desembarcados por engano num apartamento em Massamá.

Mas isso é outra história, que não vem ao caso. O que interessa aqui é o registo do meu quarto encontro com a História em Cracóvia – e, revela “urbi et orbi” ao Mundo que é falso que o Balzac dormiu com a Eveline debaixo da Rosa.

Eveline e Honoré: os noivos vistos pelo pintor Boulanger

(continua)   

 …………………

(1)  Mas teve uma mulher polaca, com quem se casou aos 50 anos, cerca de um ano antes do seu passamento.  O objecto da paixão de Honoré era Eveline Hanska, uma rica dama polaca, com quem manteve activa correspondência sentimental durante 15 anos.

 

(2)  Traduzido literalmente, Pod Roza quer dizer debaixo da Rosa. Sobre esta posição, que reputo de interessante, já tive oportunidade de me pronunciar favoravelmente. Já quanto à Rosa não sei de que Rosa em concreto estão a falar pelo que acho preferível, neste particular, guardar de Conrado o prudente silêncio.

 

música: Killing me softly, Roberta Flack
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publicado por Jorge Fiel às 18:08
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4 comentários:
De Compadre a 12 de Novembro de 2008 às 20:36
Ó compadrii JF, explique-me lá por onde andavãã este JF dos últimos (dois, nã exageremoos) postis?

Porrã qui o texto tá muitoo giro e lêê-si muitoo bêêm!

Cumprimentoos compadrii
De Jorge Fiel a 13 de Novembro de 2008 às 12:37
Preclaro Compadre

Das três uma.

Ou o empedernido coração alentejano do meu preclaro amigo está amolecer;

Ou eu dei em esquizofrénico:

Ou ambas as anteriores são verdadeiras.

A bem da Nação!
De Tibetana a 12 de Novembro de 2008 às 21:50
Que pena!

será mesmo?
De Jorge Fiel a 13 de Novembro de 2008 às 12:39
Preclara Tibetana

Or lá está. Estamos de acordo. Recomendo a toda a gente uma visita ao Castelo da Pena, em Sintra, que acho formidável - absolutamente extraordinário.

A bem da Nação!

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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