Terça-feira, 11 de Novembro de 2008

Quem dá aos pobres empresta a Deus

 

Por falar no bom do Schindler, sinto-me na obrigação de esclarecer que os meus encontros com a História em Cracóvia não se circunscreveram ao bairro judeu.

Fora do perímetro de Kazimierz tive dois outros encontros com a História que acho oportuno mencionar.

Na Straszewskiego (1), mirei demoradamente, a partir do outro lado da rua, o andar do número 7 outrora habitado pelo preclaro Oskar Schindler, um nativo de Svitavy, na Morávia (pelo que tanto pode ser considerado checo como alemão) que na sua juventude granjeou muito justamente a fama de playboy por levar uma vida dissoluta, entregue aos vícios do álcool e das mulheres. (2)  

Oskar desembarcou em Cracóvia em 1939, na peugada do invasor nazi, e cedo tratou de tirar proveito pessoal do facto de estar do lado do conquistador.

Tomou conta de uma fábrica de esmalte, expropriada a um judeu. E a razão pela qual empregava maioritariamente judeus não era humanitária -  os operários que usavam uma estrela amarela de David cozida na roupa ficavam muito mais baratos.

O espírito ganancioso evidenciado nesta preocupação extrema com a contenção dos custos de produção (característica que um judeu naturalmente apreciaria)  acabou  por dar lugar a um comportamento solidário e generoso.

O clique deu-se quando Oskar foi testemunha ocular do esvaziamento do gueto de Podgórze, acto que agiu na sua cabeça como a leitura da “Mãe” do Gorki na minha. Passou-se para a oposição e jurou a si mesmo fazer tudo quanto estivesse ao seu alcance para frustrar os planos dos nazis para exterminar os judeus de Cracóvia.

Espiolhar a vida de Schindler está ao alcance de todas preclaras e preclaros que achem justificado investir seis dólares na encomenda pela Amazon de uma cópia, usada e em “paperback “, do livro que serviu de base ao filme de Spielberg : “Schindlers Ark”, de Thomas Keneally.

Para o caso em análise -  o meu encontro com a história na Straszewskiego (3) - o que interessa é que nunca é tarde demais para uma pessoa se endireitar e que  o homem se redimiu dos pecadilhos da juventude e deu uma nova dimensão ao dito de quem dá aos pobres empresta a Deus.

Schindler gastou quatro milhões de marcos a evitar que os seus trabalhadores judeus fossem mandados para a morte em Auschwitz – e a sua patroa teve de vender as jóias para fazer face às despesas na farmácia e mercearia.

No final da guerra, o casal Schindler mudou-se para Argentina, onde viveram da terra, como agricultores, até que abriram falência  - mais ou menos pela altura em que foi tirada a minha fotografia em nu integral (mas não frontal) que é uma das imagens de marca desta lavandaria.

Oskar regressou então à Alemanha onde os seus compatriotas lhe reservaram uma recepção gélida, condenando-o a viver da caridade dos judeus que tinha salvo durante a guerra, até à conclusão dos seus dias, no ano do 25 de Abril, altura em que foi enterrado como um herói em Jerusalém.

 

(continua)

 

………………………………………………

(1)  Rua que fica a uma curta distância do Ibis Centrum Kraków que tão generosamente me acolheu no seu seio.

 

(2) Vícios perfeitamente compreensíveis. Assim como assim, há que assinalar que o jovem Oskar logrou escapar ao pleno, pois ao que consta não se meteu no jogo nem na droga, que à época não estava tão em voga como agora. Ou seja fez, como playboy fez a linha – não bingo.

 

(3)   Acima de tudo, e por favor, não tentem pronunciar alto e em público o nome desta rua, sem primeiro treinarem sozinhos e em frente ao espelho, no recato e intimidade do lar, durante um par de dias.

 

música: One more night, Phil Collins
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publicado por Jorge Fiel às 18:08
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15 comentários:
De Abobrinha a 12 de Novembro de 2008 às 00:10
Porra, homem! Ainda anda à volta da Polónia? Não quer arranjar um país mais desinteressante?

Volte aos temas que verdadeiramente interessam! Ou não, mas largue a Polónia!
De Jorge Fiel a 12 de Novembro de 2008 às 17:27
Preclara Abobrinha

A Chérie está tão coberta de razão que até corre o risco de apanhar uma hérnia. Mas o que é que quer? Deu-me para aqui.

Os Estados Unidos provavelmente são um país bem mais interessante que a Polónia, mas fui a Cracócia e Varsóvia- não a Nova Iorque e Los Angeles. Pense que teria sido pior se eu tivesse ido ao Burundi.

E sossegue, por favor. Pelos meus cálculos, a saga polaca não passa deste mês

A bem da Nação!
De Tibetana a 12 de Novembro de 2008 às 00:37
JF, não oiça a "mameluca", sigamos em frente!
:D

De Jorge Fiel a 12 de Novembro de 2008 às 17:28
Preclara Tibetana

O que é uma mameluca?

Free Tibet!

Sigamos o cherne!

A bem da Nação!
De Tibetana a 12 de Novembro de 2008 às 21:13
Preclaro JF, caso a explicação seja bem-vinda por estas paragens, poderemos estar em uma falha grotesca sob a temática imbecil do arianismo, que nunca interessa, ou por uma via que a Maria Encaixe, possa compreender, já que não é analfabeta! aliás é inteligente e por vezes simpática, mas na verdade o meu intuito foi digitar maluca, mas rimou e dei imensas gargalhadas saudáveis.
Dizem antropólogos ultrapassados ou sociólogos , que a mistura das 3 raças (branco, índio e negro) poderiam criar novos tipos resultantes da miscigenação.
mas o que valeu a pena, foi a escrita, e the end!
as pessoas para mim são iguais, sensacionais, e o que não convém são as pessoas ferinas!
De Abobrinha a 14 de Novembro de 2008 às 10:16
"Nonha-se", que a gaja ficou mesmo chateada com a rabecada que lhe dei no meu blogue por ter sido racista com os meus comentadores portugueses! Ele há com cada uma!

Além de se desdobrar em 50 nicks!

RDS/Tibetana: cresça e não se detenha em merdices destas!

NOTA: PElo menos foi o que eu entendi da embrulhada de português que ali enfiou!
De Tibetana a 14 de Novembro de 2008 às 11:03
Olá, tudo bem?
não, não são 50, unicamente 2 como Magri/ abobrinha.
beijinho, e não fiquei chateada, e nem imagino o que é rebecada, deves estar acostumada a leva-las, mas como não sei passou-me.
De Jorge Fiel a 13 de Novembro de 2008 às 12:42
Preclara Tibetana

Pois bem me queria parecer que a minha preclara amiga não estava a insinuar que a chérie Abobrinha era uma escrava não muçulmana de um qualquer califa sobrevivente do Império otomano.

A bem da Nação!
De Tibetana a 13 de Novembro de 2008 às 13:27
Não, quem sou eu para uma imaginação tão rica!
De Observador a 12 de Novembro de 2008 às 03:15
Assim está melhor...!
De Jorge Fiel a 12 de Novembro de 2008 às 17:29
Preclaro Observador

Sabe o que se me oferece dizer-lhe? Pois aí vai:

Para melhor está bem, está bem. Para pior já basta assim.

A bem da Nação!
De Peça, com i a 12 de Novembro de 2008 às 11:37
P preclaro JF já pensou em fundar uma igreja?
Tem três leitores, um acólico (o Compadre), um sacrispanta (o Observador) .
E como a beleza não favoreceu o preclaro amigo (como resultou claro da posta em que fez o favor de nos mostrar a sua carantonha), facilmente e por direito próprio tomava o lugar de Arcebicho.
Para o peditório sempre tem este amigo ao dispor.
Teria em nós os seus Fiéis.
Falta um nome com grande contransmagnificanjudeibumbatancialidade, mas não he faltarão (brilhantes) ideias.
Lanço o repto.

Deste agent provocateur, com amizade.
De Jorge Fiel a 12 de Novembro de 2008 às 17:32
Preclaro Peça, com i

Tem a certeza que é rentável?

Eu sou ateu, mas se o preclaro amigo jura que isso de fundar uma religião dá uns dinheiros, eu vou estudar o assunto pois bem estou precisado de aumentar os meus rendimentos.

A bem da Nação!
De Peça, com i a 13 de Novembro de 2008 às 10:13
Preclaro Jorge
Isso dá pasta, e muita.
Cumprimentos do Irmão Peça (ou Helder Peça, eventually)
De Jorge Fiel a 13 de Novembro de 2008 às 12:43
Preclaro Peça, com i

Pasta, Nota. Pilim. Dinheiro. Massa. Cobres. Carcanhóis. Money. BOM!

A bem da Nação!

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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