Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

O “coitus interruptus” do toque de clarim do infeliz corneteiro que salvou Cracóvia dos tártaros

 

Ter nascido estrábico só pode ter influenciado a minha paixão pela assimetria.

Nunca compreendi a ditadura estética que nos impõe o uso simultâneo de peúgas da mesma cor.

Acolhi bem a ousadia rebelde das mulheres usarem um brinco de cada nação (ou até mesmo a prática do brinco solitário!) de que Margarida Pinto Correia foi um dos arautos á época em que apresentava telejornais na RTP.

Não escondo que acho bastante erótica a visão de um par de mamas em que uma é maior e/ou mais descaída do que a outra.

Por isso, agradou-me logo ao primeiro olhar a Basílica de Santa Maria, em Cracóvia, com as suas torres completamente assimétricas, uma mais alta (81 metros) do que a outra (69 metros) -  e com soluções decorativas distintas para o seu remate.

Símbolo maior da arquitectura polaca, a imponente Bazylika Mariacka (Basílica de Santa Maria)  pontifica a um dos cantos da deslumbrante Rinek Glowny (praça central), sendo que a sua influência ultrapassa o limitado alcance do sentido vista, prolongando-se no sentido audição – que diariamente, ao meio dia em ponto, é amplificado pela Rádio Nacional para todo o território polaco.

Passo a explicar. Tudo leva a crer que no já longínquo ano de 1241 Cracóvia foi poupada a uma invasão dos tártaros (praga que chegou aos nossos dias mas com os seus efeitos perniciosos circunscritos à dentição) pelos sentidos bem despertos de um bombeiro, providencialmente  apetrechado com um clarim.

O bombeiro, medieval e patriota, entrou para a História da Polónia e no quotidiano dos polacos por estar acordado, ver bem ao longe e ser senhor de um apreciável fôlego.

Mal descortinou as hordas tártaras, na linha do horizonte, o bombeiro desatou a soprar no clarim, acordando a cidade a tempo de ela se defender do invasor.

Este episódio acabou em bem para Cracóvia, que rechaçou o invasor, mas mal, mesmo muito mal, para o corneteiro, cujo toque e vida foram tragicamente interrompidos quando uma certeira flecha tártara lhe trespassou o pescoço.

Em homenagem a está espécie de “coitus interruptus” do heróico corneteiro, a passagem das 24 horas do dia é assinalada por um toque de clarim (interrompido, como é bom de ver) executado na janela da mais alta das torres da Basílica de Santa Maria.

Sendo que ao meio dia, o toque interrompido de corneta é transmitido pelas ondas do éter para toda a Polónia, via Rádio Nacional.

(continua)

 

música: Tonight she comes, The Cars
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publicado por Jorge Fiel às 18:08
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8 comentários:
De Observador a 4 de Novembro de 2008 às 11:21
A cortesã ainda não apareceu... estranho hum...hum...

Pelo sim pelo não, deixo-lhe já os votos de um bom dia.

Já até ao Bússola porque tem lá um texto do seu mentor bem melhor do que este.
De Jorge Fiel a 4 de Novembro de 2008 às 15:47
Preclaro Observador

Satisfaça-me pf a curiosidade.

Quem é o meu mentor?

Um bom dia também para o meu preclaro amigo.

A bem da Nação!
De Dúvida a 4 de Novembro de 2008 às 13:02
Nasceu estrábico?

Certamente não foi dos olhos, foi da mente!
De Jorge Fiel a 4 de Novembro de 2008 às 15:49
Preclaro Dúvida

Muito obrigado pela maneira desassombrada como manifestou a sua opinião, assinando com o nome em cima.

Apelido curioso o seu. Sem dúvida.

A bem da Nação!
De eppursimuove a 4 de Novembro de 2008 às 13:11
Estes títulos é que me partem todo...
De Jorge Fiel a 4 de Novembro de 2008 às 15:51
Preclaro Eppusimuove

O meu preclaro amigo vai desculpar-me mas o objectivo de um título é esse mesmo: tentar levar o incauto leitor a perder o seu tempinho passando so olhos pelo texto.

É um truque! Mas não é ilegal.

A bem da Nação!
De Tibetana a 4 de Novembro de 2008 às 22:09
Lindas torres JF,
sem dúvida construídas em diferentes etapas e por pessoas de diferentes ideias arquitetónicas.
De Jorge Fiel a 11 de Novembro de 2008 às 08:19
Preclara Tibetana

Eu olho para elas e oiço um hino à diversidade!

A bem da Nação!

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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