Segunda-feira, 20 de Outubro de 2008

Como a Dworzec Warszawa Centralna me fez logo lembrar as pernas da minha ex-namorada Ana M.

A Dworzec Warszawa Centralna  (dito por outras palavras, a  Estação Central de Caminho de Ferro de Varsóvia )  fez-me logo lembrar uma das minhas primeiras namoradas, a Ana M. (1)

Foi muito fácil levá-la para a cama. Os problemas só começaram aí mesmo, onde era suposto tudo fluir como o trânsito na A17.

Eu só a conhecia de vista, do recreio do liceu António Nobre. Nunca tínhamos trocado sequer uma palavra, ou até um olhar mais demorado  – pelo menos que eu tivesse reparado.

Mas tenho de reconhecer que nestas coisas de apanhar no ar e interpretar sinais femininos eu sou um palerma acabado, com credenciais sólidas.

Um dia ao fim da tarde, estava no Piolho com o meu amigo João G., quando  ele, numa voz  baixinha, como se estivesse a falar numa igreja com a missa a decorrer, me pediu para irmos conversar lá para fora.

Presumi que o assunto era política. Como havia a fama de que alguns dos empregados do café arredondarem o ordenado como informadores da PIDE, não só não estranhei o pedido como até aprovei mentalmente a precaução.

“Conheces a Ana M. !? É tua colega no Nobre e minha vizinha. ..”

Sim eu conhecia-a. Ela era alta, magrinha, tinha um ar muito saudável, olhos grandes e bonitos, mas o uso intensivo de base e maquilhagem, as madeixas no cabelo e a forma queque de vestir não a indiciavam como potencial recruta para o combate à guerra colonial, à moral sexual burguesa e à reforma tecnocrática militar do ensino de Veiga Simão (a ordem é arbitrária).  

Resumi estas dúvidas ao João G.

“Não, não é nada disso. Não tem nada a ver com política. Ela sabe que eu me dou contigo, que sou teu amigo, e pediu-me para te dizer que gostava de muito de andar contigo…”.

O caso resolveu-se. Na manhã seguinte, calhou termos um furo ao mesmo tempo e eu fui ter com ela. Demos a mão, para selar a coisa, e fomos para sentar-nos num canto do recreio para lançar as bases da nossa relação.

A Ana M. aceitou na boa que fossemos passar a tarde a casa do meu amigo e camarada Pedro M. que ficava ali perto e estava sempre livre de pais até à noite.

Mas chegados ao sofá, quando eu me preparava para passarmos a formas superiores de luta, ela surpreendeu-me com uma exposição metódica e detalhada da sua visão gradualista da evolução dos acontecimentos.

Nesse primeiro dia, estava disposta a deixar-me apalpar-lhe as pernas, contanto que no sentido descendente. Era um bilhete só de ida.

Mas a Ana M. teve a bondade de me explicar o porquê desta restrição aparentemente bizarra.

Estava-me vedado apalpar-lhe as pernas no sentido ascendente porque ela não tinha depilado previamente as pernas e pretendia poupar-me à desagradável sensação de lhe sentir os pêlos.

E as mamas? Bem, as mamas ficavam para a semana...

Sei,  desde adolescente, que a persistência é uma virtude, pelo que não desisti à primeira. Apostei que no calor das hostilidades, a Ana M. iria revelar-se mais condescendente e aceitaria queimar algumas etapas.

(continua)

………………………

 

(1)  Obviamente trata-se de um nome falso, pois não me passaria sequer pela cabeça arejar aqui o seu nome verdadeiro. Aproveito para informar que os factos narrados são verdadeiros, mas ocorreram em 1972 e que eu não faço a mínima ideia do que é feito dela.

 

música: Saudade, Trovante
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publicado por Jorge Fiel às 18:08
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6 comentários:
De Tibetana a 20 de Outubro de 2008 às 18:44
Altas e sonoras .......................:D
De Jorge Fiel a 4 de Novembro de 2008 às 16:56
Preclara Tibetana

As pernas da Ana M. ? Bem boas, devo dizer.

Acho que com salto alto pediriam meças às da menina da fotografia.

A bem da Nação!
De ccor a 20 de Outubro de 2008 às 22:30
caro JF,


Quem o avisa seu amigo é....

Olhe que eu sempre ouvi dizer que:


Não se deve cuspir no prato onde se comeu....


Um abraço.

PS-Depois não diga que levou algum calduço quando o apanharam desprevenido.....
De Jorge Fiel a 4 de Novembro de 2008 às 16:58
Preclaro CcoR

Ou eu expliquei-me mal (o que é gravíssimo para um tipo como eu que sabe fazer outra coisa senão amassar palavras) ou o meu amigo não percebeu.

Não estou a cuspir no prato onde (lamentavelmente!) não comi!

A bem da Nação!
De André Lamelas a 21 de Outubro de 2008 às 11:05
Preclaro Jorge, diga lá se para "Estação Central da Capital de um País com 40 Milhões de Habitantes" a Estação Central de Varsóvia não é uma caca valente? Suja, feia, abafada e com uns "time tables" manuais bem scary...
Venham daí o resto das aventuras com a Ana M. e a ligação dela à referida estação!

E com mil diabos, andei na mesma escola secundária que o preclaro Jorge! António Nobre, a melhor escola secundária do Porto. A bem da naçoum!
De Jorge Fiel a 4 de Novembro de 2008 às 17:00
Preclaro André Lamelas

Presumo que em alturas bem diferentes. Eu estive lá no ano lectivo em que o liceu foi inaugurado: 1972/73. O Rui Reininho também.

A bem da Nação!

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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