Domingo, 19 de Outubro de 2008

A batalha por Varsóvia da Armia Krajova

Ao longo da II Guerra Mundial, os polacos souberam redimir-se da fraca oposição militar à invasão do seu pais pelos exércitos nazi e soviético. A Polónia capitulou seis semanas após ter sido disparado o primeiro tiro.

Durante a Batalha de Inglaterra, um em cada oito pilotos da aviação aliada era polaco. Era também polaco o esquadrão 303, famoso por ser o que mais baixas infligiu à Luftwaffe.

As forças polacas distinguiram-se em momentos decisivos do conflito, como o cerco de Monte Cassino e o raide sobre Dieppe.

Eram polacos os matemáticos, que em Bletchely Park, tiveram um papel fundamental no desfecho da guerra ao decifrarem o código Enigma usado pelos alemães nas suas transmissões militares alemãs.

Mas a página mais gloriosa - e talvez a menos conhecida – foi escrita em 1944 pelo exército polaco do interior, durante os dois meses que durou o levantamento armado de Varsóvia.

A guerra encaminhava-se para o seu final, a derrota nazi era previsível. A linha avançada do Exército Vermelho acercava-se a Leste das portas de Varsóvia, quando a 1 de Agosto o exército polaco do interior (Armia Krajowa) saiu à rua.

Em “Rising’44/The Batlle for Warsaw”, Norman Davies descreve magistralmente os dois meses que durou a heróica sublevação armada dos patriotas polacos, detalhando pormenores tão saborosos como o do envolvimento nos combates do batalhão do exército polaco do interior exclusivamente constituído por surdos mudos.

Stalin apunhalou pelas costas a revolta ao ordenar que o Exército Vermelho detivesse o seu avanço sobre Varsóvia, enquanto do outro lado do rio, os voos picados dos Stuka e o rolo compressor da Wehrmacht esmagava os patriotas polacos e destruía Varsóvia.

Quando finalmente a 17 de Janeiro de 1945, o Exército Vermelho atravessou o Wisla e entrou em Varsóvia, 84% por cento da cidade estava reduzida a cinzas e tinham perdido a vida 700 mil civis. 

O cinismo assassino do Kremlin revela-se neste episódio em todo o seu esplendor. E a sua natureza paranóica do regime soviético é demonstrada por uma pequena história narrada por Davies.

Os fantoches que a URSS pôs no poder em Varsóvia, no final da guerra, mantiveram sob apertada vigilância, durante 25 anos a fio, um dos poucos comandantes sobreviventes do levantamento de 1944. O último relatório recebido pela polícia foi o  relativo ao seu funeral.  Sabem quem era o informador? A própria a mulher do patriota.

A má consciência dos comunistas polacos levou-os a sempre se recusarem reconhecer o significado do levantamento de 1944.

O que explica o facto de só depois da queda da ditadura comunista ter sido possível construír o monumento que lembra e homenageia os quatro mil patriotas que de armas na mão deram a vida lutando pela libertação do seu país.

Foi aqui, em frente ao antigo Teatro Nacional, que, nas comemorações do 50º aniversário de levantamento de 1944, o presidente alemão Roman Herzog pediu desculpa pelas atrocidades cometidas pelos nazis na Polónia.

 

(continua)

 

música: Requiem, Berlioz
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publicado por Jorge Fiel às 18:08
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6 comentários:
De Tibetana a 20 de Outubro de 2008 às 00:29
Ixi, só falta escrever sobre economia de guerra.
De Jorge Fiel a 20 de Outubro de 2008 às 18:41
Preclara Tibetana

Lá chegaremos, minha preclara amiga. Isto aqui na Lavandaria é como na Farmácia - há de tudo! :-)

A bem da Nação
De Peça, com i a 20 de Outubro de 2008 às 11:21
Vale mesmo a pena.
Live at Budokan, Frampton play's alive, and so on...
http://www.radio3net.ro/1001/
De Jorge Fiel a 20 de Outubro de 2008 às 18:42
Preclaro Peça, com i

Pois logo que acabar de responder aos comentários vou ouvir o Pete Frampton. Obrigado pela dica.

A bem da Nação!
De clarinha a 20 de Outubro de 2008 às 13:04
Li os últimos posts de rajada e estou com um leve aperto no peito. O nazismo e o genocídio dos judeus é muito perturbante, no que diz respeito à natureza humana. A cumplicidade de Estaline e da URSSS, não o é menos. Já percebi como são os polacos: apertados entre tenazes entregam-se ao destino, lutando até à morte. (Ou amando até à morte, como a Walewska). È um personagem curioso, ela foi "aconselhada" pelo marido e outros importantes dignitários políticos a não recusar os avanços de Napoleão. O resultado foi uma grande paixão e um filho, a mudança para Paris e as visitas a Elba. Ela lembra-me a história que se contava de um conde cujo grande vício era o jogo. Uma ocasião, depois de ter perdido tudo, jogou uma noite com a mulher. No dia seguinte ela apresentou-se ao adversário para pagar a dívida. E tão bem o fez, que não voltou para o marido.
De Jorge Fiel a 20 de Outubro de 2008 às 18:45
Preclara Clarinha

A história da Walewska só a conheço por alto.

A natureza humana é como a água, que normalmente é liquida, mas em situações extremas pode virar gelo ou vapor.

A bem da Nação

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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