Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

As cidades e as pessoas devem saber envelhecer

 

No alegre entusiasmo que se seguiu à derrocada do comunismo, gerou-se um forte movimento a favor da demolição do Palácio da Cultura e Ciência de Varsóvia.

Fico muito satisfeito por este movimento não ter levado a sua avante – e pela preservação desta memória do realismo socialista e de quatro décadas de férreo domínio comunista, dinamitado por uma coligação entre o papa polaco e a agitação do sindicato Solidarinosci, nascido nos estaleiros navais de Gdansk (1) e liderado por bigodudo Lech Walesa (2), que haveria de chegar a presidente da República e a Nobel da Paz (sorte a dele!).

Sou contra todas as tentativas de “liftings” ou “peelings” à cara das cidades, que devem preservar as marcas da sua vida. Neste sentido acho que Berlim esteve bem, ao manter vestígios dos tempos em que foi uma cidade dividida por um muro.

Tal como as pessoas, as cidades devem ser saber envelhecer -  e ter orgulho nas suas rugas.

A extraordinária explosão de arquitectura moderna e arrojada levada a cabo no coração de Berlim, aproveitando os terrenos deixados livres pela derrube do muro, não é incompatível com a preservação de vestígios como a Karl Marx Allee, um pano do Muro e até o Check Point Charlie – só para citar três exemplos.

Voltando à vaca fria. O 30º e último andar do Palácio da Cultura é um belo sítio para passar um par de horas a ler, conversar ou até jogar cartas (a opção tomada pelo Pedro e João) enquanto se beberrica um café e se dá uma vista de olhos aérea à extensa e plana cidade de Varsóvia.

Das 3.288 salas do Palácio, apenas espreitamos uma, cuja majestosidade estalinista logo me lembrou a decoração das estações de metro de Moscovo.

Tive muita pena de não ter tido tempo para visitar a famosa Sala Kongresowa, inspirada no Scala de Milão, que foi uma espécie de “avant la lettre” dos “espaços multiusos” que estão hoje o mais possível na moda, pois já recebeu eventos tão diversos como congressos do POUP, concertos dos Rolling Stones (em 1967!) e exibições dos Chippendales – a célebre companhia de “strip tease” masculino.

Rodeado por jardins e esplanadas, relativamente agradáveis, o palácio tem na sua vizinhança a Estação Central de Caminho de Ferro e um moderno centro comercial.

É neste imenso quarteirão que bate o sistema de transportes públicos de Varsóvia, que se revelou à altura do esforço que eu fiz para adquirir os passes, a que demos um uso intenso durante as 32 horas que nos demoramos na cidade, após a sua compra.

As viagens de eléctrico, autocarro e metro feitas em Varsóvia, confirmaram integralmente a opinião que eu tinha formado em Praga e Budapeste.

As eficientes redes urbanas de transportes públicos, muito assentes no eléctrico, são dos pontos mais positivos da herança que as capitais de Leste receberam dos anos do comunismo.    

 Parece o Metro de Moscovo

 

(continua)

…………………………….

(1)  A antiga Danzig, cuja invasão pela Wehrmacht, a 1 de Setembro de 1939, foi o primeiro acto da II Guerra Mundial.

 

(2)  A este propósito, interrogo-me sobre se não seria este (ser uma Walesista ferrenha) o motivo porque a miúda da loja da aleja Solidarinosci usava bigode…

 

(3)  Partido Operário Unificado Polaco, o pseudónimo do partido comunista.

 

 

música: The Joker, Steve Miller Band
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publicado por Jorge Fiel às 18:08
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4 comentários:
De Tibetana a 13 de Outubro de 2008 às 20:21
olá,
reflito o título, sempre o preclaro deixa a impressão de saber muito sobre este pequeno resumo que leva à leitura.
Ao crescer toda cidade deixa algo estagnado.
Buenos Aires reformulou bastante neste sentido.
De Jorge Fiel a 15 de Outubro de 2008 às 12:52
Preclara Tibetana

Pois falta-me isso.

Muito gostaria de visitar o triângulo Buenos Aires, Montevideu e Santiago do Chile.

Talvez um dia...

A bem da Nação!
De clarinha a 14 de Outubro de 2008 às 18:15
Enfim Jorge Fiel, um post polaco com algum sumo. A sério, num país com tanta história e com gente tão romântica - Chopin, Maria Walewska, Rosa Luxemburgo, Marie Curie, Rubinstein, Roman Polansky, não me estou a lembrar de mais - já tava farta de ouvir falar só de transportes, hoteis e aventuras familiares (sem ofensa). Conte lá mais coisas. Como é que eles são - trágicos? assoberbados pelo destino? pela saudade? pela imigração? São apaixonados e melancólicos ou tudo fogo envolvido em gelo? Quero saber mais.
De Jorge Fiel a 15 de Outubro de 2008 às 12:56
Preclara Clarinha

Como é bom de ver eu não sou dado a coisas muito profundas e sérias. Não sou um intelectual. Raramente consigo ir além das coisas ligeiras e frívolas. Fico-me pela espuma.

Mas vou fazer um esforço para corresponder à solicitação da minha preclara amiga e conferir mais alguma espessura a estes escritos leves.

A bem da Nação!

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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