Domingo, 12 de Outubro de 2008

Um Empire State Building atarracado, talvez assim preparado para aguentar um qualquer King Kong

 

Varsóvia é como as pessoas, que vistas ao longe são sempre melhores do que ao perto. Tem um nome forte e romântico, que ganha o adequado dramatismo escrito (sobretudo dito) em polaco – Warszawa.

Ao baptizar a aliança militar anti-Nato (Pacto de Varsóvia), estabelecida entre a URSS e os países de Leste (ditas “democracias populares”) que giravam na sua órbita, o nome da capital polaca tornou-se uma das marcas de água do século XX.

Para ver Varsóvia ao longe, nada melhor do que investir 20 zlotys (cerca de seis euros) na subida ao 30º andar do Palac Kultury i Nauki (Palácio da Cultura e Ciência), um imenso e desajeitado ícone dos tempos da Guerra Fria que tatuou a paisagem de Varsóvia.

Oferecido pelo “povo soviético” (cinco mil operários russos trabalharam durante três anos na sua construção), o Palácio da Cultura está para Varsóvia como a Torre Eiffel para Paris, o Big Ben para Londres, e a Torre dos Clérigos para o Porto (1).

Na imponência dos seus 40 milhões de tijolos e 231 metros de altura, o palácio é omnipresente. Como se vê de todo o lado, assume o útil um papel de farol urbano, idêntico ao que era assegurado pelas Twins Towers, em Nova Iorque.

Uma pessoa saía do “subway” e o nosso olhar procurava instintivamente que as torres gémeas nos orientassem, dizendo-nos que a “downtown” era para ali - e a "uptown" no sentido contrário.

Na data da sua inauguração (1955, ou seja Stalin já pertencia ao mundo dos mortos), o Palácio da Cultura era o segundo edifício mais alto da Europa.

E ainda mantém o título de mais alto de toda a Polónia, apesar do acelerado regresso do capitalismo lhe estar a fornecer farta companhia na linha de horizonte de Varsóvia, que outrora dominou isoladamente.

Olha-se para ele e fica-se com a impressão de que é uma espécie de Empire State Building atarracado, muito menos elegante, mas mais musculoso, talvez preparado para melhor aguentar, sem ceder, a eventual presença de um qualquer King Kong (2).

A justeza desta minha primeira impressão confirmou-se quando soube que Stalin enviou secretamente para Nova Iorque espiões que tinham como missão reunir informações sobre o método norte-americano de construção de arranha céus, posteriormente usadas na edificação do palácio da Cultura.

   Ir ao 30º andar custa 20 zlotys

 

 

 

(continua)

......................................................

(1) Se bem que eu suspeite que não tarda muito a que a estranha forma da Casa da Música substitua neste papel o elegante ponto de exclamação barroco riscada por Nasoni.

(2) Entre muitas outras coisas o Palac Kuktury alberga um moderno multiplex de cinemas...

 .

 

música: You keep me hanging on, Supremes
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publicado por Jorge Fiel às 18:08
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16 comentários:
De Anónimo a 12 de Outubro de 2008 às 21:28
Muito feio o tal ..
De Tibetana a 13 de Outubro de 2008 às 14:52
Respondo aqui, porque o comentário anterior foi meu, em translados.
Por vezes me irritam os blogues, minto, os que lêem os blogues, com suas mentalidades formuladas em concretude, do que deve ser ou para que deve ser aquilo que é posto por quem escreve.
Apenas simples exigências demonstrativas de que a liberdade ainda passa longe como as nuvens.
Ou de quem não se dá ao luxo, de escrever apenas por escrever, deixando para momentos oportunos a seriedade daquilo a que se propõe ou a necessidade de agradar a alguém.
De Jorge Fiel a 15 de Outubro de 2008 às 12:33
Preclara Tibetana

Citando o presidente Mao:

"Menos tropas mas melhores, e uma administração mais simples. Intervenções, discursos, artigos e resoluções, tudo deve ser claro e conciso. As reuniões também não devem ser demasiado longas".

A bem da Nação!
De Jorge Fiel a 15 de Outubro de 2008 às 12:30
Preclro Anónimo

Ele há, na verdade, coisas no mundo com mais graça e elegância!

A bem da Nação!
De eppursimuove a 13 de Outubro de 2008 às 13:16
E então, um musicól polaco, conehceu alguma coisa?
De Jorge Fiel a 15 de Outubro de 2008 às 12:36
Preclaro Eppursimuove

Nicles. De musical nicles.

Eu não sou muito de musicais. Veja lá que só à sétima ou oitava ida a Nova Iorque é que entrei num teatro da Broadway - a instâncias (e generoso convite) do meu primo Fernando, o que está em Cracóvia.

Fomos ver o Fantasma na Ópera. Gostei. Mas não sou passageiro frequente de musicais.

Ainda estou para ver o Mamma Mia no cinema - e olhe que sou um fã incondiconal dos Abba...

A bem da Nação!
De eppursimuove a 15 de Outubro de 2008 às 19:16
Referia-me a música polaca e não musicais de que também não sou grande fã. Quanto ao Mamma Mia, também sou defensor daquela máxima que diz que um tipo que foi James Bond não pode cantar o Fernando...

Grato pela atenção
eppursimuove
De André Lameals a 13 de Outubro de 2008 às 14:56
Jorge, deixe-me que lhe diga que ando deliciado a ler as suas crónicas por terras de Polska.
Assim comentado os seus últimos posts, mais ou menos por pontos:
- As meninas sem bigode na Polónia são uma maravilha (palavra que rima com bilha)
- É extremamente irritante e dá vontade de chamar os exercitos alemães e russos quando as pessoas nem fazem um esforço para perceber o que lhes tentamos dizer. Lembro-me de ter de decorar a frase "dziesięć bilety ulgowy dziesięć minuty" para pedir bilhetes de 10 minutos de preço reduzido, mas claro que ao fim de uns tempos já se percebe o que se está a dizer... Claro que eventualmente comecei a tirar o fantástico passe para toda a rede de trams e autocarros de Lodz que, mensalmente custava a avassaladora quantia de 40 zlotys! (10 euros...)
- Os tais quiosques que vendem tudo são uma verdadeira instituição É fabuloso podermos comprar o Rzeczpospolita ao lado de lampadas de marca Pila e café instantâneo (o que eu não sofri com o café de merda que se serve na Polónia...)
- O grande Młynarczyk é hoje treinador de guarda-redes no Widzew Lodz. Eu e mais uma rapaziada portuguesa de Erasmus estivemos no Estádio para o ir conhecer mas ele faltou. Hábitos que aprendeu em Portugal certamente.

Aguardo pela continuação das suas aventuras! Principalmente em Cracóvia, essa cidade lindissima.

Do zobacenia!
De André Lamelas a 13 de Outubro de 2008 às 14:59
Só uma achega sobre a "bichanização" dos nomes: um homem másculo e bastante rijo como Franklin Delano Roosevelt quando dá nome a uma rua é corrido a Franklina Delano Roosevelta. Triste.
De Jorge Fiel a 15 de Outubro de 2008 às 12:50
Preclaro André lamelas

Não têm respeito por ninguém. Até ao grande Copérnico chamam Mikolaja Kopernika. Uma vergonha :-)

A bem da Nação!
De Jorge Fiel a 15 de Outubro de 2008 às 12:40
Preclaro André Lamelas

Fiquei com muito boa impressão (exterior) das polacas que em opiniões avalisadas partilham o primeiro lugar em beleza no Leste, a par das eslovacas, sendo que as checas completa o pódio.

Está de acordo com este rating?

Do widzenia

A bem da Nação!
De André Lamelas a 15 de Outubro de 2008 às 13:37
Preclaro (palavra deliciosa) Jorge infelizmente não tive oportunidade de confirmar as suas afirmações sobre as eslovacas (e confesso, tenho pena). As checas eram interessantes mas Praga é uma cidade tão cheia de turistas que chego a duvidar sobre quem serão os nativos de lá...
De eppursimuove a 20 de Outubro de 2008 às 16:47
Peço desculpa pela indelicadeza de me intrometer no seio - palavra tão a propósito - da conversa, mas no que diz respeito ao ranking das mulheres do leste, devo dizer que as romenas têm que estar no pódio.

Cumps
De Jorge Fiel a 20 de Outubro de 2008 às 18:24
Preclaro Eppursimuove

Pois devo confessar-lhe, meu preclaro amigo, que as romenas não gozam assim de tanto prestígio (do ponto de vista gráfico) no meu circulo de amigos que se declaram conhecedores da realidade feminina no Leste europeu.

Eu nunca fui à Roménia, pro isso abstenho-me de emitir opinião.

Mas confesso que as checas me impresionaram muito positivamente e no geral não tenho queixas a apresentar do aspecto geral das polacas e hungaras,

A bem da Nação!
De Zé Piscas a 13 de Outubro de 2008 às 17:09
Ai Jorge!
Isto vai andando pior que uma cólica renal!!!
Antes um ataque de hemorróidas ou até mesmo um da próstata!
Desculpe, mas quero lá saber de quantos tijolos foram precisos !!!
A única coisa que ultimamente veio alegrar isto foi a bilha da miúda! Ah! Ah! Ah!
Ao menos conte lá acerca das "Gajas da Polónia". Mesmo que seja tudo inventado. Que não acredito que o meu caro Amigo tenha ido com nenhuma. Ah! Ah! Ah!
De Jorge Fiel a 15 de Outubro de 2008 às 12:49
Preclaro Zé Piscas

As melhoras para o meu preclaro amigo.

Hemorroidal sei perfeitamente do que está a falar - sempre que abuso da mostarda lá estão elas a protestar.

Cálculos nos rins nunca tive. A verdade é que bebo litradas de chá todos os dias. Se calhar isso impede o cálculos de se formarem. Limitei-me às pedras na vesícula.

No geral as moças polacas são muito bem apessoadas e ostentam um ar muito saudável. Ainda por cima estava mito calor e como o meu preclaro amigo bem sabe as saias e o mercúrio nos termómetros sobem em directa proporção.

Não partilho nada da opinião do meu filho Pedro que achou as polacas azeiteiras.

Esse comentário fez-me logo lembrar a fábula da raposa e das uvas do La Fontaine ("estão verdes, não prestam...").

De resto, tudo exclusivamente oftálmico, meu preclaro amigo.

A bem da Nação!

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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