Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

O atribulado início de uma odisseia em Varsóvia

 

Domingo, dia 7 de Setembro, acordei cedo e animado pela indómita vontade de reunir rapidamente as condições para que não se repetisse a sucessão de catástrofes ocorrida na véspera.

O que equivale a dizer que, primeiro que tudo (pequeno almoço incluído), teria de nos apetrechar com passe válidos para a rede de transportes públicos de Varsóvia, constituída por um número considerável (mas não apurado) de eléctricos, 1200 autocarros e uma linha de metro, com epicentro na estação apropriadamente baptizada Centrum, que serve o omnipresente Palac Kultury e a estação central de comboios.

Como confirmáramos na véspera, a capital polaca (1,7 milhões de habitantes) é demasiado extensa para ser abordada usando as nossas próprias pernas como meio exclusivo de locomoção.

Enquanto o resto do pessoal (Isabel, Pedro e João) despertavam mais lentamente para o Mundo, eu resolvi stressar logo pela manhã e dar o passo fundador da nossa política de transportes para os dois dias que nos restavam em Varsóvia, já que na 2º feira, às 17 horas, embarcaríamos no comboio para Cracóvia, onde os meus primos Luísa e Fernando estão emigrados (1).

Os acontecimentos que se seguem, e que vos relatarei com detalhe excessivo durante três dias, ocorreram entre as oito e as dez da manhã do domingo dia 7 de Setembro de 2008, durante os quais calcorreei sete quilómetros nas ruas do centro de Varsóvia.

Não parti descalço para esta operação. O inestimável guia Warsaw In Your Pocket, distribuído gratuitamente em hotéis e oficinas de Turismo, já me informara da existência de passes de um e três dias, válidos para a toda rede de transportes públicos.

O completo guia elucidara-me sobre os locais onde me deveria dirigir para adquirir os passes: os quiosques verde e amarelos (nada a ver com o Brasil!), como o logótipo Rush, que pululam em Varsóvia como cogumelos depois de chuva, emprestando assim um colorido singular à paisagem urbana.

O precioso Warsaw In Your Pocket (e juro-vos que não estou a exagerar da adjectivação) ensinara-me ainda que o passe de 24 horas custa nove zlotys (um euro compra 3,4 zlotys) por cabeça grande (as pequenas pagam metade) e o de três dias e vendido a 16 zlotys (oito euros para menores como o João).

Faltava-me, porém, apurar qual o quiosque verde e amarelo mais próximo do Ibis Centrum. onde estavamos hospedados, e se o inglês seria um instrumento de comunicação adequado para esta delicada operação ser levada a bom porto.

Procurei, com um sucesso relativo, preencher estas lacunas dirigindo-me à recepcionista bilingue de serviço no hotel.

A rapariga era razoavelmente bem apessoada, mas, claro!, nem chegava aos calcanhares da sua compatriota que protagonizou o papel de miúda da bilha na memorável campanha publicitária da Pluma da Galp.

Mas para o caso o que interessa é que me explicou, num inglês desenferrujado, que havia um quiosque Ruch a uns 200 ou 300 metros, na esquina da Okopowa com a Leszno, e que duvidava que o/a empregado/a me percebesse, a não ser que eu me expressasse em polaco, habilidade que está muito para além das minhas curtas capacidades.

Dito isto, correspondeu de forma positiva e desempoeirada ao meu pedido para que escrevesse na língua natal do Mlynarczic (valoroso guarda redes polaco, campeão europeu pelo FC Porto, na gloriosa final do Prater, em Viena, Maio de 1987!), num papel (no caso vertente um “post it” quadrado e cor-de-rosa) que eu pretendia adquirir três passes de três dia para adulto e um para criança.  

A operação de aquisição dos referidos títulos de transporte não iria ser tão simples quanto aparentava à primeira vista. Bastou-me atravessar a Okopowa e deparar com o quiosque fechado para sentir que a minha vida começava a andar para trás.

(continua)

………………..

(1)  Bem, atendendo ao facto de apesar de estarem de alguma maneira ligados ao negócio da construção civil, ambos são quadros (ou seja, nenhum deles é trolha) talvez o vocábulo mais apropriado seja “expatriados” e não “emigrados”.

 

música: Angel in the morning, Juice Newton
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publicado por Jorge Fiel às 18:08
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12 comentários:
De clarinha a 9 de Outubro de 2008 às 18:32
Há 10 posts que não nos fala de outra coisa que não seja de polacos. No fim deste post ameaça-nos com a 11ª intervenção sobre o mesmo tema. Não é que eu me importe muito. Gosto de crónicas de viagens, embora fique sempre dividida entre o interesse e um vago sentimento de inveja. É um bocadinho como conhecer as aventuras eróticas de alguém. Não há muito mais a dizer que "fixe pra ti"! Pois fixe para si Jorge Fiel. Mas olhe que esta história de uma crónica polaca por dia está a ficar indigesta. Não tem crónicas de outros países para intercalar?
De Jorge Fiel a 10 de Outubro de 2008 às 07:26
Preclara Clarinha

Pois ao ler o comentário da minha preclara amiga fiquei sem saber onde meter as mãos.

Este lamentável episódio da compra do título de transportes vai demorar três dias! (e não dois como temia a Clarinha!). Valha-nos Deus!

O drama é que eu não tenho emenda. Não consigo parar e vou estar encravado na Polónia mais uns dez a quinze dias.

É pior do que indigesto. É uma autêntica e preocupante paragem de digestão. Arrisco-me a ficar aqui a falar sozinho, eu sei!

Se calhar o melhor é ir entremeando com outros temas, como se faz às crianças, embrulhando em mel os comprimidos para elas os engolirem sem refilar.

Não sei. Deixe-me pensar como saio deste buraco em que me meti!

A bem da Nação!
De clarinha a 10 de Outubro de 2008 às 10:08
Isso, isso, entremeie que toda a gente gosta de rebuçados. Além disso, se insiste em contar-nos as aventuras da família, tipo romance policial, também convinha ter capas à altura - quero dizer com os protagonistas em situações difíceis.
De Jorge Fiel a 15 de Outubro de 2008 às 12:24
Preclara Clarinha

A entremeada é uma carne que fica sempre bem num churrasco.

A bem da Nação!
De Tibetana a 9 de Outubro de 2008 às 19:55
Espero que continue a escrever o que desejar, pois quando o preclaro escreve o que quer que estipule a sua mente, eu nunca dou bitaites contra!
Assim sendo, e" inimaginando" o que irá acontecer , fico a deduzir;
1- com o quiosque fechado, atreveu-se a perambular nas ruas e perdeu-se , ou encontrou a tal miúda da bilha e .. caput!
2- alguém indicou outro local, e lá se foi o Jf a perambular e foi assaltado..
3- retornou ao hotel e desmemoriou-se e partiu para o quarto errado e ... toinnn!
4- em seu retorno, a família já lá não encontrava-se e pronto... ficou sozinho a lamuriar-se..
5-em plena avenida, encontrou um taxi igual, e como pretendia salvar o Nitendo para o madaleno arrependido, esperneou em altos brados e a guarda nacional, entendeu como um protesto comunista, e trancafiou o preclaro, afinal os protestos eram em língua inglesa!!!!!
6- o vento levou o papel rosa e após perambular mais 6 Km, sentou-se ao chão e chorou e levaram a um asilo!!!
:D
De Jorge Fiel a 10 de Outubro de 2008 às 07:34
Preclara Tibetana

Pois é tal e qual como no Inimigo Publico. As seis hipóteses aventadas pela minha preclara amiga podiam ter acontecido - mas não aconteceram.

Hoje às 18h08 será postado o segundo andamento desta história, que conclui amanhã, também às 18h08.

Devo confessar-lhe a propósito que as 18h08 passram a ser a Hora da Lavandaria. Havia a hora Coca Cola Light e eu copiiei o conceito.

Free Tibet!

A bem da Nação!

PS. Ando a ver se alguém me paga para escrever um romance nesse regime. Eu pela manhã posto um capitulo que tem três hipóteses de desenvolvimento. À tarde os leitores escolhem maioritariamente como a intriga deve seguir e eu à noite escrevo o segundo capítulo. E assim por diante.
De clarinha a 10 de Outubro de 2008 às 10:12
Muito simpática tibetana
Não seja ciumenta. Todos nós 'lavandeiros' sabemos que você é a numero uno. Sem si isto não era igual. Deixe-me lá mandar os meus bitaites à vontade que é da minha natureza. Se desta vez eu cheguei primeiro aos comentários foi por puro acaso.
Beijinhos, se me permite
De Tibetana a 10 de Outubro de 2008 às 20:47
Oie !!Clarinha, não leve a mal, o JF é para todos(as) leitoras(es), é que pareceu-me que a menina estava a roubar a minha banda de desenho..e fiquei brava :)
sorry
A bem da lavandaria!!
Post- scriptum: não sou ciumenta, tenho uma alta estima bem valorizada.
Sua pessoa também o é!
:D
De Miguel a 10 de Outubro de 2008 às 00:46
bem vista essa distinção de condição económica entre emigrante e expatriado.
De Jorge Fiel a 10 de Outubro de 2008 às 07:35
Preclaro Miguel

Nalguma coisa eu haveria de ser útil, meu preclaro amigo :-)

Obrigado.

A bem da Nação!

De Mariana a 10 de Outubro de 2008 às 05:57
Por falar em miúda da bilha, encontrei uma foto muito ranhosa que lhe tirei:

http:/ img.photobucket.com albums v353 Desertgardenia /DSC_0033-1.jpg

uma desilusão . no anuncio parece ser uma coisa e vai-se a ver e e Olívia Palito...

P.S. : o verificador ortográfico falha nos acentos do "e".
De Jorge Fiel a 10 de Outubro de 2008 às 07:38
Menina Mariana

Manda-me pf por mail ou a foto ou o endereço. Eu assim não vou lá.

beijocas

A bem da Nação!

PS. Claro que ela é um Olívia Palito com pernas até ao pescoço mais finas que os meus braços. Mas passou a ser um ícone sexual em Portugal - pelo menos enquanto a campanha passou na televisão.

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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