Sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

O dia em que fiz de Kumba Ialá e os meus tomatinhos enregelaram aos 15 graus negativos

Assinalado a vermelho no mapa o trajecto da minha expedição polar

Um frio de morte foi o denominador comum às minhas segunda e terceira visitas a Varsóvia, que decorreram sob o alto patrocínio do BCP e tiveram como pretexto a apresentação de contas do Millennium polaco – que  posteriormente haveria de rebaptizar com o seu nome o seu pai português.

Eu não sou friorento. Muito antes pelo contrário. Para efeitos estritos de consolidação térmica, gozo até da reputação de ser uma excelente companhia de cama nas noites de Inverno – e, não há bela sem senão, uma presença pegajosa e excessivamente tórrida (repito que me estou a referir apenas à temperatura corporal)  nas noites abafadas de Verão.

Nunca rapei tanto frio na minha vida como naquele Janeiro de 2005, em Varsóvia. No fim da tarde do primeiro dia, desafiei os 15º graus negativos, acusados pelos termómetros, trajando um sobretudo em cima de um fato meia estação –  sempre os preferi aos só de Verão ou Inverno, devido à sua flexibilidade são uma espécie de fatos todo o terreno com tracção às quatro estações.

Cinco minutos após ter abandonado o elegante e morno ambiente do Hotel Regina, em Nowe Miasto já eu tinha compreendido na perfeição porque é que o resto das pessoas com que e me cruzava na rua usavam gorro enterrado até às orelhas, cachecol colado ao pescoço e luvas.

Entrei na primeira loja da Ulica Freta para comprar um gorro. Como o único modelo disponível era um vermelho com as letras Polska debruadas a branco, no regresso à rua sentia-me uma espécie de Kumba Ialá. Mas isso não me atrapalhou e prossegui a minha excursão, com a gola do sobretudo virada para cima (colmatando assim a falta do cachecol) e as mãos bem enfiadas no fundo dos bolsos.

À chegada à Plac Zamkowy, já o frio glacial se tinha infiltrado pelas pernas das calças, enregelando-me os tomatinhos (o diminutivo é carinhoso, na verdade eles não são assim tão pequenos, são quase do tamanho de bolas de golfe!) sem qualquer espécie de cerimónia ou pudor.

Foi a partir deste preciso momento, ali junto ao Castelo Real mandado construir pelo Segismundo III em 1596 (no entretanto destruído e reconstruído, como tudo na Polónia)  que eu passei a dar valor uma peça de roupa que considerava ridícula e obsoleta (as ceroulas) e deixei de classificar o uso masculino de “collants” como sinal de um óbvio comportamento sexual desviante.

Quando, uns 200 metros adiante, passei em frente do Meridien Bristol, já tinha ideias bem assentes sobre o sentido da movimentação dos peões polacos. Naquele gélido fim de tarde em Varsóvia, eu era muito provavelmente o único transeunte errante. Todas as outras pessoas com que em cruzavam estavam diligentemente a vencer o mais curto (e por isso menos doloroso) percurso entre o carro (ou autocarro) e um alvo (um destino bem concreto e definido).

Com base nesta análise, defini imediatamente um plano de contingência para prosseguir o passeio programado, que contemplava percorrer a Krakowskie Przedmiesci e a Nowy Swiat até Rondo de Gaulle’a.

O plano de emergência consistia em, de cem em cem metros, entrar numa loja aquecida (qualquer tipo de loja, mesmo as que vendem sapatos ortopédicas dr. Scholl ou palmilhas adelgaçantes dr. Metz), para evitar transformar-me num pinguim.

A Empik (uma espécie de Fnac à moda da Polónia) do final da Nowy Swita foi a última escala do passeio, após o que meia volta e empreendi o regresso ao hotel.

Não vos escondo que à chegada ao meu quarto no Hotel Regina o meu estado era miserável. Tirei o sobretudo e deitei-me na cama onde permaneci durante a meia hora que durou o meu processo de descongelação. Só me levantei para ir jantar, após me ter certificado que océrebro tinha retomado a comunicação com o resto do corpo.

Extraí deste episódio uma grande lição. Se voltar à Polónia em Janeiro não deixarei de acondicionar na mala ceroulas (ou “collants”), luvas, gorro, cachecol, bem como camisolas e meias de lã poveira.

(continua)

 

música: Àfrica, Toto
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publicado por Jorge Fiel às 18:08
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4 comentários:
De Tibetana a 3 de Outubro de 2008 às 22:26
JF, estás óptimo, com o humor de antes, adorável, por que não ?! (caso existas)
Hilárico, hiper-mega-fixe!
De Jorge Fiel a 7 de Outubro de 2008 às 11:14
Preclara Tibetana

Essas palavrinhas deram-me cá um calorzinho por dentro...

Começo a convencer-me que qualquer dia arranjo um emprego :-)

Free Tibet!

A bem da Nação!
De Nívea Samovar a 5 de Outubro de 2008 às 11:25
Fantástico :-)
Reconheci todos os teus sofrimentos progressivos bem como as tácticas de obviamento à situação e só por experiência de menos 5 a 7 graus, aqui na minha terra.
Não entendo o teu preconceito em relação aos collants ... Que eu saiba pelo menos desde a idade média que vejo imagenzinhas bonitas de machos com collants ...
Podias ter ilustrado este post com uma piquena foto tua com o tal gorro flash! ;-)
Não percebo como incorreste no erro de não teres comprado ao mesmo tempo cachecol e luvas. Graças a dEUS que dessa vez te safaste da hipotermia...
Obrigada pela partilha de tantas dicas culturais e turísticas das tuas viagens.
Obrigada também por teres simpaticamente obviado ao pedido de contacto que te fiz.
Lamento que te tenham pedido, a nível profissional, para escreveres sobre doenças... Espero que essa necessidade não se repita porque é muito mais agradável ler-te nos outros registos.

Um bom verão indiano, no Porto, se for caso disso.

De Jorge Fiel a 7 de Outubro de 2008 às 11:20
Preclara Nivea

Não tens nada que agradecer.

O prazer é todo meu em manter estas conversetas contigo e demonstrar alguma utilidade, em duas vertentes, a do entretenimento mole (a leitura destes posts) e a de por em contacto gente que não se fala há séculos (houve um prograna de muito sucesso a propósto na Sic, creio cque animado pelo Henrique Mendes, mas já não me lembro como se chamava - é o Alzheimer a manifestar-se)

beijos

A Bem da Nação!

PS. Pois a ideia da fotografia minha com o barrete vermelho não é nada má. Dei o gorro Polska ao meu filho mais pequeno. Tenho de o procurar.

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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