Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

Os Moody Blues e a minha hepatite juvenil

 

As canções ganham vida própria. Escapam aos autores e intérpretes. Nós apoderamo-nos delas e incorporámo-las num código pessoal e intransmissível de memórias e sensações, de que elas são a chave – o Abre-te Sésamo.

 

Sempre que ouço o Lola, dos Kinks, vejo os caracóis da Lola, uma namorada de Verão que tive em Gondomar – e que era 100% mulher, ao invés da dos Kinks, que «walked like a woman and talked like a man». O Ser Poeta (Perdidamente), dos Trovante, é uma ligação directa aos tempos de paixão pela Isabel. E os Moody Blues recordam-me os dois meses da Primavera de 1970 em que estive preso à cama, combatendo uma hepatite A com doses industriais de repouso.

 

Tinha 13 anos. Os sintomas não enganavam. As minhas feições orientais, que me valeram alcunha de «Chinês» na escola primária do Campo 24 de Agosto, estavam acentuadas pelo amarelo da icterícia. E o chichi trocara a palidez habitual por uma tonalidade carregada lembrava o vinho do Porto.

 

O diagnóstico foi rápido. O médico disse que eu padecia de uma desorganização da circulação biliar intra-hepática, e traduziu logo: eu tinha hepatite! Recomendou repouso e dieta rigorosa, atirando para o Índex todos os fritos, incluindo ovos e batatas.

 

Não podia sair da cama e devia mexer-me o menos possível. A música ajudou-me a atravessar esses dois meses de reclusão. Ao fim do dia ouvia na rádio o Página Um (que abria com o instrumental Page One dos Pop Five): e no resto do tempo estava confinado a um único LP que tocou vezes sem parar num pequeno gira-discos portátil, de baquelite verde, arrumado no chão do quarto. Era o «On the Thereshold of a Dream», dos Moody Blues. Ouvi-o tantas vezes, entre os meus lençóis brancos (mas que não eram de seda), que fiquei no limiar da loucura, contaminado por aquele rock sinfónico psicadélico. Ainda hoje, fico amarelo sempre que ouço «Lazy Day» ou «Send Me No Wine».

 

 

música: Send me no wine, Moody Blues
publicado por Jorge Fiel às 19:42
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4 comentários:
De Tibetana a 23 de Setembro de 2008 às 23:45
Mas por pouco, não és um hipocondríaco! :)
Leio o preclaro desde antes da afamada vesícula, e sempre encontro novidades.!
Males e maleitas!
Mas o primeiro parágrafo está mais do que certo, agrada-me muito, já que aprecio músicas, por vezes, inclino-me mais para as orquestradas, mas sei bem que algumas caem como luvas em certas situações!
uma faceta a mais , quem diria!
De Jorge Fiel a 24 de Setembro de 2008 às 17:38
Preclara Tibetana

Eu não sou hipocondríaco.

Eu sei quem é mesmo hipocondríaco, mas nem que me torturem direi qué é meu antigo colega Henrique Monteiro, director do Expresso.

A Bem da Nação!
De clarinha a 25 de Setembro de 2008 às 16:53
As músicas são muito como os perfumes no que diz respeito às suas qualidades de nos transportarem no tempo. Ainda hoje não consigo sentir o perfume de uma certa flor sem me lembrar das acrobacias que praticavamos no varão da enorme porteira da velha quinta. Também tive uma doença das compridas que não dava para ler. No meu caso está ligada ao "Em Órbita' muito baixinho debaixo do lençol e aos Moody Blues "You make me feel so very happy, I'm so glad you came into my life" e eu a futurar como iria ser o personagem por quem iria sentir aquilo...
Às vezes faz tão bem ficar doente.
De clarinha a 25 de Setembro de 2008 às 16:56
Retire Moody Blues, ponha 'Blood, Swet and Tears'. Estava a divagar.

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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