Domingo, 21 de Setembro de 2008

Estive na iminência de ser um repórter estrábico

 

 

 

Nasci perfeitinho, com cinco dedos em cada mão e pé, como é desejável. O único senão eram os olhos, de origem tortos, desafiando a simetria. Enquanto o olho direito olhava para Oriente, o esquerdo divergia e, teimoso, virava-se para Ocidente.

 

Aprendi a andar e larguei as fraldas acompanhado por este meu defeito de nascença. Carinhosos e previdentes, os meus pais cedo consultaram uma oftalmologista, que os aconselharam a esperar que eu tivesse uns três a quatro anos para proceder à intervenção cirúrgica correctiva.

 

O problema de ser vesgo era essencialmente estético, mas também afectava a qualidade da minha visão. Tudo bem se olhasse em frente. Mas se tentasse olhar para a direita ou para a esquerda sem acompanhar o movimento dos olhos com a correspondente rotação do pescoço, via duas imagens sobrepostas, apesar de à época entrarem apenas dois líquidos na minha dieta – água da torneira e o leite que a leiteira deixava pela manhã numa bilha, à porta de nossa casa.

 

De miúdo, fiquei com o hábito de virar a cabeça para onde estou a olhar, o que me retira privacidade. Não consigo disfarçar o que me chama a atenção, ao contrário do que sucede com o normal dos estrábicos. Se já falou com um vesgo conhece perfeitamente a estranha sensação de conversar com alguém que não sabemos se está a olhar para nós ou para o lado.

 

Aos quatro anos fui à faca. A coisa correu bastante bem, tirando o facto de que não via rigorosamente nada quando acordei da anestesia. Berrei desalmadamente e não acreditei na explicação das irmãzinhas, que juravam que eu não via porque tinha os olhos tapados com umas palas. Só me calei quando elas, fartas de me ouvir, tiraram por momentos uma pala e eu confirmei que não tinha ficado cego.

 

O estrabismo foi corrigido, digamos que a 95%, pelo cirurgião, o dr. Castro Silva, que, do meu ponto de vista, deixa pelo menos dois grandes legados na sua passagem pela Terra. Deu-nos o seu filho Miguel, o «chef» do Bull & Bear, e impediu que eu viesse a ser conhecido como o repórter estrábico.

 

 

 

música: Jellous guy, Brian Ferry
publicado por Jorge Fiel às 21:18
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6 comentários:
De Tibetana a 21 de Setembro de 2008 às 21:29
AHAHAHAHAHAHAHAH!!!
Ahahahahahahahah!
As irmãs... um bom tema!!!!
:)
:D

De Tibetana a 21 de Setembro de 2008 às 21:45
Preclaro JF, está a ficar mais divertido!
Mas caso possivel , quem é esta "Sophia Loren"..? (quase , quase)

E quem são os tres arqueólogos no Cannyon??

Resumindo e baralhando: estrabico, quase desdentado, careca e pelo visto magricela !! ahahahahaha adjetivos pessoais.
De Jorge Fiel a 22 de Setembro de 2008 às 12:05
Preclara Tibetana

Só falhou no magricelas. Estou badocha, mas isso já é outra história.

A Sophia Loren da foto é a Barbara Streisand quando era nova (ela é estrábica).

Os arqueólogos são anónimos.

A bem da Nação!
De Jorge Fiel a 22 de Setembro de 2008 às 12:06
Preclara Tibetana

Se me está a desafiar para escrever badalhoquices tendo com protagonistas as irmãzinhas, bem pode tirar o cavalinho da chuva :-)

A Bem da Nação!
De Tibetana a 22 de Setembro de 2008 às 16:48
Preclaro JF, realmente a temática não deveria/ deverá enfocar nunca badalhoquices com familiares, chega ao mau gosto, e principalmente porque poderia voltar a ficar cego, pois caso o preclaro fosse meu irmãozinho, levaria algo bem brutal nas vistas ... e voltaria às talas!!

Onde já se viu isso? ora essa !
De Jorge Fiel a 1 de Outubro de 2008 às 09:37
Preclara Tibetana

Paz e amor!

Give peace a chance!

Make love not war!

A bem da Nação!

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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