Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008

Um breve tratado sobre queijos

Digam-me lá se não ficam com vontade de comer estas fatias de Manchego?

O queijo é (sempre foi) um dos meus amores de perdição.

Nunca liguei muito a doces. Nas festas de aniversário não faço feio e como uma fatia de bolo depois de cantar os «Parabéns a Você». E se estiver nos Pastéis de Belém o mais provável é que encomende um para acompanhar o café -  e o polvilhe com muita canela. Mas não me lembro de alguma vez ter comprado chocolates ou bombons para consumo próprio. Creio que isso nunca me aconteceu.

Esta saudável indiferença face aos doces tem como contrapartida uma paixão antiga e recorrente pelo queijo.

No Natal, as rabanadas e o bolo rei sabem-me pela vida.

Tenho uma belíssima impressão da tarte de maracujá da Padaria Ribeiro.

E não tenho dúvidas em considerar as invenções do «apfelstrudel» e do leite creme queimado como dois marcos importantes da história da Humanidade.

Mas não trocava todas estas iguarias juntas (mais o pudim Abade Priscos e as «profiteroles» que são a perdição sdo meu amigo Manuel Queiroz) por uma colher de queijo da Serra amanteigado em cima de um bocado de pão escuro e acompanhada por um valente copo de tinto de Douro.

A tábua básica com que eu atravesso o meu dia a dia é constituida por três queijos, de diferentes nacionalidades:

1.     Ilhas (S. Jorge)  picante, preferencialmente cura de quatro meses;

 

2.     Manchego (quanto mais curado melhor);

 

3.     Parmesão.

De vez em quando, para variar, introduzo ligeiras variantes, que quase sempre contemplam a substituição do Parmesão, já que o Ilhas e o Manchego são titularíssimos e indiscutiveis.

Posso trocar o Parmesão pelo seu conterrâneo Provolone, que comi uma vez, com bastante agrado, na Garota de Ipanema (foi neste bar, propriedade de um português, que Tom Jobim teve a suave visão da dita que estava em trânsito para a praia), no Rio de Janeiro, na versão panado e frito.  

O Provolone admite ser cozinhado, mas marcha muito bem cru, na minha opinião, que como já sabem não é modesta.

Acontece também com bastante frequência recorrer à imensa oferta francesa (De Gaulle tinha razão quando desabafou que era difícil governar uma Nação que produzia tamanha variedade de queijos).

Construi uma relação muito séria com o Camembert há cerca de 20 anos, quando a Longa Vida começou a produzir e comercializar uma muito aceitável variedade deste queijo, mas devo confessar que ao fim de muito consumo o meu palato se enfadou um pouco dos queijos tipos pasta.

O que não quer dizer que não recorra de quando em vez a um Camembert ou a um Brie para fazer companhia ao Ilhas e ao Manchego.

Tenho uma grande consideração pelos Chèvre gauleses, mas se me perguntarem quais são os meus queijos franceses preferidos, eu não hesito um segundo antes de responder Roquefort e Reblochon.

O Roquefort encerra os pequenos contras de não ser barato e de o seu paladar forte desaconselhar o seu consumo diário.

O Reblochon é magnifico mas não é facilmente encontrável no nosso país. Só me recordo de o ter visto (e nem sempre) na queijaria do supermercado do El Corte Inglès.

No panorama nacional, tenho elevado apreço por um Terrincho, um Serpa ou um Azeitão, queijos nobres que degustaria com muita mais frequência se tivesse mais um zero (à direita) na conta bancária e menos um zero (também à direita) na contagem de colesterol mau no sangue.

O Serra, que não hesito em entronizar como o Rei dos Queijos, não visita regularmente a minha mesa por várias ordens de razões, sendo que a saúde é uma das mais importantes.

Uma dose de Serra equivale a um chuto de colesterol administrado directamente na veia. E eu apesar de ser viciado em queijos  não estou agarrado a esse ponto. Por isso, defendo-me ao poupar para as festas natalícias a delícia e o subido prazer de o comer.

A paixão pelo Manchego chegou-me de uma forma inusitada – através da literatura.

Pepe Carvalho, o intrépido detective inventado por Manuel Vasquez Montalban, adorava petiscar fatias de Manchego enquanto bebia ums copos de Paternina.

Eu experimentei. Dei-lhe toda a razão no queijo, mas discordei no vinho. Assim como assim, um Prazo de Roriz vale dez Paterninas.

 

música: Variações Goldberg, Johann Sebastian Bach
publicado por Jorge Fiel às 13:47
link do post | comentar | favorito
11 comentários:
De Preclaro T a 19 de Fevereiro de 2008 às 15:30
Caro JF passemos de tratado a uma norma europeia senão francesa a candente e magna questão dos queijos.
Muitas vezes saio a experimentar novos sabores , os de cabra, os temperados, mas bem sei que a cor amarelada significa um bom pasto das vaquinhas, com um alto teor% de .... mas não quero deixar que um G. Padano é saboroso..Sei que não é nacionalista falar sobre, mas o seu tratado digamos é quase universal....
Camembert é di-vi-no! Adoravel cheiro, tamanho, formato, embalagem, sabor, textura, o que falta nada!
Alguns do seu tratado, com massas caem a matar.
Mas por motivos % descritos acima, passeio e divirto-me com os branquinhos cremosos, em torradinhas ou em colheradas gulosas.
A foto sugere um acompanhamento singelo.
A bem dos queijos com os votos de um bom dia, ou boa semana.
De Jorge Fiel a 28 de Fevereiro de 2008 às 13:47
Preclaro Preclaro T

Partilhamos a reverência pelo G. Padano.

Já sobre o camenbert, já fui mais fã. Os franceses têm o hábito de o acompanhar com pão barrado com manteiga - o que me parece um tudo nada excessivo.

A bem da Nação (e dos queijos)!
De Tamborim a 20 de Fevereiro de 2008 às 00:33
Pensar que a Mana pediu a um colega para me trazer um redondíssimo queijo do Fundão...ainda intacto.
Como sabem que sou absolutamente LOUCA por chocolates, trouxeram-me o redondíssimo embrulhado num papel de chocolate, dizendo-me ter sido encontrado um queijo de chocolate...Acreditei, mas assim não era.
No entanto, informo que já comi um simpático queijinho de chocolate, da não menos agradável marca Polenguinho, queijinho simples brasileiro muito catita.
Enfim...o queijo está ali disponível, e acho que o casarei, sim, com uma deliciosa tintada.
Viva o queijo.
Viva o tinto.
Viva o FCP e a querida cidade do Porto desta Tamborim lisboeta!
Ah...e viva o blog do Jorge, que também vai bem com um Serra...apesar do colesterol:))
Tamborim
De Jorge Fiel a 28 de Fevereiro de 2008 às 13:49
Preclara Tamborim

Folgo em sabe-la louca por chocolate.

Pelo que leio, o chocolate contribui masi para a felcidade dos seus consumidores do que o Prozac.

Longa vida ao queijo, ao tinto, ao Porto, ao FCP, à preclara Tamborim e ao humor do Groucho Marx!

A Bem da Nação!
De Paulo Sistelo a 20 de Fevereiro de 2008 às 10:13
Caro Jorge Fiel,

Costumo consultar o teu blog com enorme prazer.
Tendo acabado de ler as tuas opiniões sobre os queijos, permito-me sugerir que proves o CABRALES .
Tenho comprado bons no Corte Inglês mas por vezes estão secos. Num passeio que efectues aos Picos da Europa, não falhes este "azul".
Noutro registo, experimentei recentemente a conselho do Francisco Meireles, do 60/70, gorgonzola com vinagre balsâmico e achei fantástico .
Um abraço ;Paulo Sistelo
De Jorge Fiel a 28 de Fevereiro de 2008 às 14:00
Preclaro Paulo Sistelo

Fiquei muito feliz ao saber-te freguês da lavandaria.

Ainda noutro dia, a propósito do regresso do FC Porto a Gelsenkirchen, recordei aquele nosso fabuloso almoço ajantarado que fizemos antes da final da Champions no restaurante espanhol, principescamente regado em qualidade e quantidade com botelhas que vocês levaram do Porto. Foi divinal! Uma grande categoria.

Usei com frequência gorgonzola quando sabia e tinha paciência para fazer risotto. Agora vou experimentá-lo com o vinagre balsâmico. E vou também provar o Cabrales, que nunca me foi apresenatdo.

Obrigado pelas sugestões um grande abraço

A bem da Nação!

PS. O Bessa começou mal mas já está a arrebitar...
De clarinha a 21 de Fevereiro de 2008 às 10:43
Então e o 'Limiano'! Apesar dos maus tratos sofridos ao nível da má fama política não vejo qualquer outra solução credível para comer com a marmelada feita em casa (pode não ser na nossa). Também funciona bem em fatias fininhas com maçã 'bravo de esmolfe' e goiabada. Dir-me-á que isto já não é bem gostar de queijo. Bom, não são opções puristas. Mas a verdade é que a marmelada tem que se comer e sem queijo amarelo não é a mesma coisa. Bom apetite.
De Jorge Fiel a 21 de Fevereiro de 2008 às 17:43
Preclara Clarinha

Também gosto de queijo flamengo de bola e dou-lhe razão. Ele caa muito bem com marmelada (ou, ainda melhor, com goiabada!) e com maçã golden.

Estamos de acordo!

A Bem da Nação!
De Mariana a 25 de Fevereiro de 2008 às 01:27
somos os desgracados do queijo.
De Jorge Fiel a 28 de Fevereiro de 2008 às 14:01
Olá menina Mariana

Eu preferia um expresão difernete: Somos os fanáticos do queijo!

beijos

A Bem da Nação!
De reticência a 5 de Abril de 2008 às 12:05
Cheguei aqui não me lembro como, mas tenho lido e gostado. Mas sinceramente este post fez-me perder a compustura. Primeiro porque é meio dia, hora de começar a pensar em comer, em segundo porque tenho um delicioso queijo da ilha a olhar para mim, e uma fresquissima broa de milho caseira. Só me falta realmente o vinho maduro, vejo-me rodeada de verde. É o culpado por eu ter corrompido a dieta, e por já não me apetecer fazer almoço. Ficava o resto do dia pelos queijos e pão.
Obrigada, ou não ;)

Comentar post

Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
Ler mais

Pesquisar este blog

Entradas recentes

Lavandaria está agora a c...

Moscas anunciam chegada d...

Apaixonei-me pela Bona, a...

Uma folha A4 dobrada em 4...

O café do Europeijska não...

mais comentados

últ. comentários

Tive conhecimento deste vinho," monte ermes", tint...
Num passeio à Ribeira lembrei-me de recordar algum...
prática do sexo anal estaria aumentando?Embora no ...
O autor deste artigo de peixe não sabe nada, por i...
Carissimo, em Espanha o pez espada é o que nós cha...

Arquivos

Abril 2012

Março 2012

Outubro 2011

Agosto 2011

Abril 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Maio 2006

Ligações

Tags

todas as tags

blogs SAPO

Subscrever feeds