Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010

Como Hendrickje Stoffels, a amante de Rembrandt, me ajudou a atravessar acordado o meridiano da meia noite

Em 1649, com 43 anos e viúvo há sete de Saskia, Rembrandt contratou Hendrickje Stoffels para sua governanta. Tratar de Titus, oito anos, o mais novo dos seus quatro filhos, era o primeiro dos encargos da jovem e desembaraçada Hendrickje que cedo arranjou tempo e disponibilidade para cuidar também do pai, de que se tornou amante e mãe de Cornelia, a filha do pecado do velho mestre, nascida a 1654.

Rembrandt usou a amante como modelo em várias telas, sendo que uma delas (na foto) é o fio condutor da intriga de The Rembrandt Affair, o mais recente thriller de Daniel Silva, que miraculosamente me manteve acordado até às três da manhã.

Há muitos muitos anos que sou uma pessoa matinal. Nos dias de semana, tenho o despertador definido para as 6h30. Trabalhar à noite é para mim uma tortura. Se tenho de entregar um trabalho ao nascer do dia seguinte, prefiro pôr o despertador para as quatro da manhã e sentar-me à mesa de trabalho após algumas horas de sono, do que prolongar a jornada para lá das 22 horas.

Como é raríssimo atravessar acordado o meridiano da meia noite, ter estado a ler The Rembrandt Affair até às três da manhã é o melhor elogio que posso dispensar à extraordinária capacidade de Daniel Silva sustentar e desenvolver uma intriga.

música: That's how I knew this story would break my heart Aimee Mann
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publicado por Jorge Fiel às 09:40
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Domingo, 26 de Dezembro de 2010

Breve relato de uma despreocupada manhã de domingo

 

É bastante adequado que a véspera de Natal calhe numa 6ª feira, pois cria um dia almofada (o domingo) entre as obrigações familiares e gastronómicas, decorrentes das festas, e o regresso ao trabalho, numa das semanas mais improdutivas do ano – a que separa o Natal do Ano Novo.

Melhor mesmo só o 24 de Dezembro calhar a uma 5ª, o que, desde já aviso, não vai acontecer em 2011, ano em que será a um sábado, o que quer dizer que o feriado do Dia de Natal será no domingo, para grande pena da imensa maioria de preguiçosos que vegeta neste jardim à beira mar plantado.

Aproveitei este sortilégio do calendário para me regalar com uma despreocupada manhã de domingo, como já não vivia há uma data de meses.

Deixei-me ficar pelo quente da cama até perto das onze horas, a começar a ler o The Rembrandt Affair, de Daniel Silva, antes de me meter, a mim, ao João e à sua bicicleta, na carrinha Fiat Marea e rumarmos até junto à marginal fluvial, onde estacionei o carro junto à Etar, na rua do Ouro, em frente à estátua do Anjo, de Irene Vilar, e começamos a aproveitar o luminoso sol de Inverno.

Eu a pé e o João de bicicleta fomos até ao Castelo do Queijo e voltamos, acumulando suor, que fez saber bem o duche, e fome, que aumentou o apetite para as alheiras de Bragança (as melhores do Mundo, que desembarcam anualmente na minha mesa por gentileza do meu amigo Abílio Martins) acompanhadas por grelos salteados.

Uma manhã fabulosa, para mais tarde recordar, proporcionada pelo calendário. Resta confessar o entusiasmo com que estou a ler a mais recente aventura (a 13ª) de Gabriel Allon, restaurador de arte e ex- assassino ao serviço da Mossad, de que partilho duas das frases que mais me agradaram nas primeiras 69 páginas:

 

“Even the police marveled at the variety of the thieves’ game. Is was a bit like watching a great tennis player who could win on clay one week and grass the next”

 

The new pilgrims to Glastonbury rarely bothered to visit (the abbey), preferring instead to traipse up the slopes of the mystical hill known as the Tor or to shuffle past New Age paraphernalia shops lining High Street. Some came in search of themselves; others, for a hand to guide them. And a few actually still came in search of God. Or at least a reasonable facsimile of God

música: Little bombs , Aimee Mann
publicado por Jorge Fiel às 16:07
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Sábado, 25 de Dezembro de 2010

Compensando a falta de chá em miúdo

 

Muito provavelmente para compensar o facto de não ter tomado muito chá em miúdo, de há uns anos a esta parte bebo litradas de chá todos os dias.

Creio que, sem errar, posso mesmo afirmar que este hábito já vem desde o século passado, e, para o alimentar, a chaleira e o bule passaram a fazer parte do meu kit básico personalizado de equipamento de escritório, a par do copo de cartão amarelo do Nathan’s (em cujo interior convivem amigavelmente lápis, agrafador e as canetas Muji de cores diversas), do recipiente de clips, da borracha e do pisa papeis – sempre útil como arma dissuasora de chatos (em caso de desespero nunca hesito em ameaçar atirá-lo à cabeça de quem abusa da minha paciência).

Além de paciente (uma coisa que vem com a idade) - como pode ser factualmente documentado pelo facto de nenhum ser vivo se poder gabar de eu lhe ter atirado um pisa papéis à cabeça – sou generoso, porque deixo ficar chaleiras pelos sítios de onde saindo. No Expresso (Porto) foi a Margarida Cardoso que a herdou a chaleira (e creio que lhe dá uso). No Diário de Notícias (Lisboa) a herdeira foi a Graça Henriques (que creio não lhe dá uso).

Vem tudo isto a propósito de duas (ver foto) das muitas prendas com que o meu primo Fernando me obsequiou esta quadra (creio que ele empenhado em mover uma concorrência feroz ao Pai Natal) se destinarem a alimentar este meu vício do chá (se fosse uísque era pior!).

Além de uma caneca decorada com Minis (como presumo saberão eu sou o feliz proprietário de um Mini Clubman branco, matrícula de 1974) que passarei a usar preferencialmente no meu escritório portuense (que fica em minha casa, pois saving foi a rainy day tem de ser uma das principais preocupações de um biscateiro responsável), recebi também uma data (creio que meia dúzia) de chás exóticos, acondicionados nuns saquinhos dourados e com a etiqueta manuscrita, adquiridos na Kredens, a Meca dos gourmets em Cracóvia, onde o meu benfeitor está emigrado.

música: Todo o tempo do Mundo, Rui Veloso
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publicado por Jorge Fiel às 19:20
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Sexta-feira, 24 de Dezembro de 2010

O estuporado sentido do dever que se entranhou em mim

Mer Noire passa-se em Lucerna, um das mais bonitas cidades suíças

 

O sentimento judaico-cristão de culpa é o único e exclusivo responsável por eu estar neste momento sentado ao computador a escrever este post em vez de estar instalado no sofá da sala a ler o capítulo 17 das aventuras de Largo Winch (1) e a ouvir aos berros, nos auscultadores, o CD 2 (2) da caixa 111 More Classic Tracks editada pela Deutsche Grammophon para comemorar o seu 111º aniversário – com a Ciência e evoluir como está não tarda nada em que seja corrente haver seres humanos a festejaram idêntico aniversário.

Eu bem queria manter esta Lavandaria com um mínimo de quatro a cinco centrifugadelas novas todas as semanas, mas as espinhas da minha vida de biscateiro impediram-me de cumprir isso nestas duas últimas semanas (os feriados de Natal e Ano Novo são liquidados, a pronto pagamento, em trabalho de avanço) que foram infernais, ao ponto de ter negligenciado tarefas tão básicas e íntimas como aparar os pelos que teimam em estar sempre a sair das narinas e cortar as unhas dos pés.

Sinto-me culpado por não ter conseguido postar durante duas semanas e para tentar estar logo à noite em paz de espírito eis-me aqui a teclar, furiosamente, antes de ir por os mails em ordem e responder a todos os votos personalizados de bom Natal que caiam na minha caixa de correio – ou no telemóvel (um A1, com sistema operativo Android, com o qual, diga-se, estou bastante satisfeito).

O meu programa para esta tarde não era este. Passei o início da semana dilacerado entre o dilema de na tarde da véspera de Natal ir ao cinema (já não vejo um filme há nove meses!) ou levar a minha mãe ao cabeleireiro. A Isabel dissuadiu-me desta última hipótese (garante que hoje é o segundo pior dia do ano para ir ao cabeleireiro) e este estuporado sentido do dever que tenho entranhado em mim impediu-me de ir ao Arrábida.

Aliviado por ter redigido esta satisfação, desejo a todos (e quando digo todos, quero mesmo dizer todos, mesmo benfiquistas) quantos por alguma tropeçaram nesta Lavandaria que, logo à noite, o bacalhau vos saiba pela vida – e que não poupem no tinto porque um dia não são dias.

 

………….

(1)    Mer Noire, Philippe Francq e Jean Van Hamme, Ed. Dupuis, que comprei ontem na Fnac do Vasco da Gama à boleia da compra de uma prenda de Natal de última hora

(2)    Chamo a vossa atenção para versão da Annie’s Song, de John Denver, interpretada pela London Symphony Orchestra, com James Galway na flauta

música: Annie'song, John Denver
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publicado por Jorge Fiel às 15:08
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Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

A Muji é mais um motivo para eu ter inveja de Lisboa

A lista de coisas que invejo a Lisboa vai ser acrescentada com mais um item no dia de amanhã, com a abertura, no Chiado (à esquerda de quem desce e à direita de quem sobe do Rossio), da primeira loja Muji em Portugal.

A inauguração vem mesmo a calhar porque o vasto stock de canetas que eu comprei na Muji do Marais, no Verão de 2009 (retocado há um ano na loja do Covent Garden desta cadeia japonesa) caminhava perigosamente para a ruptura – sobram cinco (duas azul turquesa, uma verde, uma cor-de-rosa e outra laranja) e já todas a uso.

Cometo sempre o erro de exagerar no arco íris quando procedo ao meu abastecimento de canetas de gel Muji, pois acabo por usar mais as cores clássicas e sóbrias (preto e azul ultramarino) e o lilás (uma preferência pessoal) em detrimento das outras.

Voltando às coisas que invejo a Lisboa, para além da loja da Muji do Chiado, aqui fica uma lista:

 

1. O Zoo de Sete Rios. É lamentável que o Porto não tenha um jardim zoológico a sério. O Fernando Póvoas e a Junta da Área Metropolitana do Porto deviam unir esforços neste sentido;

 

2. Uns cafés Starbucks, mas dos de rua (não os de centro comerciais, pois esses não interessam nem à vaquinha do presépio, que fará ao menino Jesus)  cheios de sofás para um tipo estar confortavelmente instalado a ler, jogar cartas, namorar ou pastar a paisagem, durante um par de horas (ou mais), de modo a podermos rentabilizar como aluguer de espaço o preço exorbitante que pagamos pelo café  - este item mostra que eu sou mesmo muito boa pessoa pois o palhação que dirige a operação da Starbucks em Portugal teve, por duas ou três vezes, almoços marcados comigo de que se desmarcou à última hora sem nunca ter conseguido arranjar uma explicação convincente (não para desmarcar mas sim para ter começado por aceitar);   

 

3. A Torre de Belém. Adoro esta torre, a jóia do manuelino, um estilo que eu amo como se fosse uma mulher tipo Monica Beluccci, mas confesso que não sei onde a reinstalaria se a trouxesse para o Porto;

 

4. O Hard Rock Café do antigo Condes. Eu e o João (o meu filho mais novo, com cujo nascimento eu celebrei e saudei a mudança de século e milénio) adoramos os nachos com guacamole e as baby back ribs servidos neste restaurante;

 

5. A esplanada do Regency Chiado, de onde se desfruta da mais romântica e cool vista panorâmica do Tejo e da Lisboa pombalina.

 

A lista podia ser mais longa. Mas alerto já todos os mouros que se eles conhecessem a minha cidade ficariam em posição de elaborar listas enormes de inveja de coisas que o Porto tem e Lisboa não tem – e o estádio do Dragão é apenas uma delas :-)

música: Anzol, Rádio Macau
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publicado por Jorge Fiel às 21:55
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Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2010

Hard sex ameaçado de extermínio

Ando muito satisfeito e divertido com os wikileaks. É ainda melhor que os livros do Daniel Silva. Se não fosse o bom do Julian Assange nós nunca perceberíamos porque é que a primeira coisa que o Obama fez quando chegou a Lisboa foi dar um beijo à filha do Luís Amado – e tirar uma fotografia com ela.

O caso wikileaks vai também lançar luz sobre o mistério das relações sexuais que começam consensuais e evoluem para violação, numa curiosa (mas perigosa, pois ameaça de exterminio o hard sex)  deriva que transporta até à cama e aos momentos superiores de luta a mania  do assédio sexual que alstrou como uma epedemia nos Esatdos Unidos na sequência da audição do juiz Clarence Thomas-  e que  levou muito bom homem a temer entrar sozinho num elevador praviamnete habitado por uma mulher.

No que diz respeito a negócios, usos e costumes, os yankees foram sempre muito à frente.

música: Ordinary world, Duran Duran
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publicado por Jorge Fiel às 20:40
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Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010

Recordações de uma hepatite na Primavera de 69

As ruas, cafés, esquinas, livros, canções, cheiros, lojas, jardins, praias, restaurantes e ofícios correlativos fazem muitas vezes de máquinas que nos permitem viajar no tempo e reviver momentos e situações, que por vias disso nunca conseguimos manter bem enterrados no passado.

Na Primavera de 1969, foi-me diagnosticada uma hepatite. Os sintomas eram estar ainda mais amarelo que o costume (à época as minhas feições levaram os meus colegas de liceu a atribuírem-me, depreciativamente, a alcunha de Chinês)  e fazer um xixi cor do vinho do Porto. Na altura, a doença era tratada com dois a três meses de repouso absoluto na cama.

Cumpri esse castigo (arredondado pelos mimos da minha mãe, que volta e meia aliviava a dieta rigorosa dando-me um ovo estrelado em água) com o máximo de estoicidade que arranjei, enquanto matava o tempo relendo a minha colecção de livros dos Cinco e dos Sete, de Enyd Blyton (que só muito recentemente soube também ser a autora do Noddy), ouvindo na rádio, ao fim da tarde, o Página Um, e tocando vezes sem conta, no gira discos/mala de baquelite preta que tinha no chão à beira da cama, o único LP que possuía: In search of the lost chord, dos Moody Blues.

Este magnífico exemplar do rock sinfónico dos Moody foi a banda sonora desta minha triste tarde de feriado (consumida a escrever a crónica para o DN de amanhã e o perfil de Emergente para a edição de 6ª, o que faz com que o azul da minha disposição seja realmente muito escuro), levando-me a viajar de volta até aos meus tempos de jovem liceal do Alexandre Herculano, provisoriamente acamado com uma hepatite,  residente no 2º andar do 304 da avenida Rodrigues de Freitas, que sonhava vir a ter uma namorada no Colégio Nossa Senhora de Esperança (as batas azul clarinho eram giríssimas e eu ansiava por poder ir esperá-la à saída, estacionado junto às árvores, do outro lado da rua, junto ao Jardim de S. Lázaro)  - ou, à falta de melhor, uma miúda do Rainha Santa. Como nenhum desses sonhos se realizou parece-me desajustado concluir este post com a frase revivalista “those were the days”.

 

música: The best way to travel, The Moody Blues
publicado por Jorge Fiel às 18:26
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Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010

A Nina continua a ser a minha favorita do 24

 

A verdade é que não consigo datar com precisão o início e fim do meu último fim-de-semana. Poderia dizer que ele começou cerca das 20h00 de 6ª feira, quando o Mário Rui (que como trabalha na VASP está habituado a distribuir não só publicações mas também pessoas) me deixou à porta da minha carrinha Fiat Marea, junto à estação de Campanhã, sensivelmente duas horas e meia depois de me ter apanhado à porta do Vasco da Gama, em Lisboa.

No entanto, ao jantar ainda tive de atender telefonemas de trabalho e, como vinha com sono em atraso (durante a semana o despertador toca sempre às 6h30 e nem sempre consigo deitar-me a horas de fazer as oito horas de sono de que careço), adormeci no sofá logo a seguir à refeição, uns cinco a dez minutos depois do genérico do episódio da Good Wife da 3º feira anterior, que deixo sempre a gravar.

Sábado de manhã é fatal como o destino: levo o João ao treino, na escola de futebol Hernâni Gonçalves, e aproveito o tempo para fazer no café uma leitura vertical dos jornais que acumulei durante a semana, antes de os deitar fora.

A descompressão habitualmente associada ao fim de semana só chegou a meio da tarde de sábado (os especialistas britânicos estão tão carregadinhos de razão  que até se arriscam a apanhar uma hérnia!) quando ataquei os 2/3 finais da 8ª temporada do 24.

A intriga está cansada, já sabemos o desfecho e não é difícil adivinharmos as cenas dos próximos capítulos. A Chloe O’Brian (Mary Lynn Rajskub,a recordista de episódio a seguir ao nosso Jack Bauer) tem ar um enjoado e a Dana Walsh (Katte Sackhoff) é uma famélica desesperada. A presidente Allison Taylor é um pálido sucedâneo do presidente David Palmer (Dennis Haysbert). O presidente Charles Logan (Gregory Itzin) é um personagem clownesco (para não dizer mesmo apalhaçado) que ninguém no seu perfeito juízo pode levar a sério. Mas apesar de todos estes apesares devo à 8ª temporada do 24 ter levado a disponibilidade de espírito do meu fim de semana até ao início da noite de domingo. Muito obrigado Fox. Thank you so much Joel Surnow.  

Já agora, só mais umas palavrinhas, para dizer que apesar da falecida Renee Walker (Annie Wersching) ser bastante apresentável, continuo fiel à também falecida Nina Myers (Sarah Clarke, na foto que encabeça este post) que continua a ser a minha querida favorita do 24.

 

música: It's over, Aimee Mann
publicado por Jorge Fiel às 16:41
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Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010

O trabalho por causa do homem ou ao contrário?

Depois de terem inventado a semana inglesa, os britânicos fizeram agora um estudo que demonstra que o fim de semana não dura 48 horas, como todos pensávamos, mas apenas 27 horas, uma vez que o comum dos mortais só na manhã de sábado de manhã consegue desligar do trabalho e a meia da tarde do domingo (por volta das 16h00, dizem os investigadores) já começa a pensar na maldita 2ª feira.

O conceito da semana inglesa foi simpático, na medida em que ampliou, recuando até à tarde de sábado, o dia de descanso semanal previsto na Bíblia -  “Trabalharás, mas ao sétimo dia descansarás” (Êxodo 34:22) e “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Marcos  2:27) – não interessando agora para o caso se o sétimo dia é o sábado ou o domingo.

As coisas mudam. O nosso fim de semana está a minguar e mesmo antes dos cientistas ingleses terem chegado, de forma científica, a essa constatação, já eu próprio já reparara nisso, pois raramente tenho um dia inteiro em que me possa abster de trabalhar, pecando por isso em pensamentos (pensar em trabalho), palavras (falar sobre trabalho) e obras (teclar furiosamente no computador).

À luz desta triste realidade, muito gostaria de interrogar o evangelista Marcos sobre se o trabalho foi feito por causa do homem, ou se, pelo contrário, o homem foi feito por causa do trabalho.

 

música: Both sides now, Joni Mitchell
publicado por Jorge Fiel às 19:42
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Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2010

Roodovalho e pregado: uma questão de esquizofrenia?

Preocupo-me com o rodovalho porque ocupa o primeiro lugar das minhas preferências no domínio do peixe, claramente à frente do robalo e do cherne.

Guardo ainda numa gaveta muito especial da minha memória uns filetes de esturjão que comi em Istambul, na companhia de Ludgero Marques, mas uma única experiência, apesar de memorável, é insuficiente para classificar no meu top ten piscícola o produtor das mais famosas e caras ovas do mundo.

Vem isto a propósito de ter aproveitado o meu jantar de ontem, no Vin Rouge (restaurante do Hotel Albatroz, na Baía de Cascais), com José Bento dos Santos, para esclarecer a relação de parentesco entre o rodovalho e o pregado.

Broker de metais, produtor de excelentes vinhos (Monte d’Oiro), e presidente da Academia Portuguesa de Gastronomia, Bento dos Santos rapidamente me esclareceu que rodovalho e pregado são um único e mesmo peixe, com duas designações regionais diversas – sendo que no Norte adoptamos o nome espanhol de rodovalho, enquanto que a sul do Mondego escolhem relevar a espécie de pregos que ornamentam a capa deste peixe fantástico, apesar de redondo e chato.

Adormeci satisfeito com esta explicação até que o despertador tocou hoje às 6h30, chamando-me para a tarefa de escrever a peça relativa ao almoço com o João Miranda, da Frulact (rubrica Dois Cafés e a Conta de amanhã, no DN, republicada como sempre no Bússola), a que se seguiu um café com o Eduardo Cintra Torres, em Caxias, para ultimar as modalidades da sua colaboração para o Briefing, e uma excitante conversa com a Marta Guimarães (directora de novos negócios da premiada Leo Burnett) na 7 da rua das Flores.

O almoço também foi no Chiado, a cota mais alta, no Aqui há Peixe, do Miguel Reino (irmão do célebre Gigi) , no 18A da Nova da Trindade, com Vicent Termote, director geral da Nespresso ibérica, destinado aos Dois Cafés e a Conta de 18 Dezembro).

O Miguel sugeriu-nos um rodovalho, que tinha tanto de belo como de saboroso, e suscitou uma questão oleada pelo Dona Maria branco (quase tão atraente como a Marta da Leo Burnett!), do tipo prova do nosve:

- Ó Miguel, diga-me uma coisa, o rodovalho e o pregado são o mesmo peixe?

No que eu me fui meter! O Miguel prontamente respondeu que não, não são o mesmo peixe, mas sim primos, contrariando, sem dó nem piedade, a doutrina de Bento dos Santos e abrindo um cisma. Há por aí alguém qualificado para resolver este mistério, que se desenrola a alto nível? Rodovalho e pregado são ou não o mesmo peixe? Haverá aqui uma questão de esquizofrenia?

música: Oui, non , Louise Attaque
publicado por Jorge Fiel às 22:18
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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