Sexta-feira, 31 de Julho de 2009

O voo dos passarinhos ou uma reflexão (séria) sobre o jornalismo a propósito de Entre-os-Rios

Estava escrito na cara e da voz do jovem repórter que tinha sido apanhado desprevenido pelo directo que lhe passavam do estúdio. Balbuciou as generalidades do costume, sobre a dor, luta e raiva (infeliz trocadilho com o nome da freguesia) das «gentes pobres e humildes» de Castelo de Paiva, enquanto olhava desesperadamente em volta à procura de alguém a quem pudesse por o microfone junto à boca. Ele o câmara descobriram ao mesmo tempo o alvo (a vítima) – um trintão que bebia ice tea por uma lata, enquanto olhava com um ar perdido para as águas caudalosas do rio.

 

«Perdeu alguém na tragédia?». Não, não tinha perdido, não era de cá, era de Vila Franca de Xira. «E então veio cá porquê, tem familiares aqui?». Não. Foi a Castelo de Paiva porque achava que quando se trata de grandes acontecimentos é melhor presenciá-los ao vivo do que na televisão!

 

A caixa que mudou o mundo tinha banalizou a catástrofe colocando-a ao nível do espectáculo, de um jogo de futebol que deve ser mais emocionante vivido no estádio do que no sofá, em frente a um televisor sintonizado na Sport TV.

 

O colapso da ponte de Entre-os-Rios foi uma tragédia em que morreram 59 pessoas e os restos da dignidade dos três canais generalistas de televisão que, tal como os abutres, montaram o seu circo particular nas margens do rio, ansiosos por transmitir, em directo para todo o país, o espectáculo da morte e da dor.

 

Sem nada para reportar, não respeitaram o luto da população, torturando os desorientados paivenses com perguntas idiotas.

 

Nos intervalos do nada, havia alguma agitação e registavam as visitas dos políticos, que se sentem mais atraídos pelas câmaras de televisão do que os girassóis pelo sol.

 

O que é que as televisões estavam lá a fazer, quando a melhor expectativa de imagem que podiam colher em directo era o macabro e improvável resgate de cadáveres pelos mergulhadores? Mas os três canais estiveram lá aquartelados durante 22 longos dias a fio, preenchendo horas e horas de emissão com directos estúpidos, um preço elevadíssimo que pagaram por uma única imagem que valia a pena  - a retirada das águas do rio da carcaça do autocarro.

 

E, cheios de medo uns dos outros, apesar da operação ser ruinosa de todos os pontos de vista, só levantaram âncora de Entre-os-Rios após terem obtido a garantia de que os concorrentes que saíam ao mesmo tempo. A coragem e a luz própria não são o forte dos panditas dos nossos canais de televisão.

 

Os chefes que comandam os fluxo informativos  em Portugal não são estrelas, porque não têm luz própria, mas sim planetas que reflectem a luz alheia.

 

São medrosos que, com medo de errarem, não ousam fazer escolhas diferentes da concorrência!  São como os passarinhos. Estão todos num galho. Mas, mal há um que levanta voo e vai para o outro galho, os outros vão logo todos atrás.

música: Volunteers, Jefferson Airplane
publicado por Jorge Fiel às 18:08
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Quinta-feira, 30 de Julho de 2009

Quatro sábios conselhos para tentar atenuar o ferro que é ser passageiro frequente do Alfa Pendular

 

Apesar de não simpatizar com o Alfa, em boa hora resolvi adoptar a pragmática atitude de Realpolitik em relação a ele, já que o tenho de o utilizar com frequência.

O meu primeiro conselho que eu dou a todos os passageiros frequentes é que comprem o Cheque-trem, um investimento que garante logo à partida um desconto de 11% sobre o preço da viagem, a que se pode somar mais 10% se compramos a ida e volta ao mesmo tempo (e não mudarmos a viagem…).

Eu passo a explicar. Por 225 euros adquire-se um Cheque-trem que dá direito a viagens no valor de 250 euros. Ou seja, está aqui um desconto de 10%, a que se deve adicionar mais 1%, pois quando esgotamos as viagens a que tínhamos direito, a CP dá-nos 2,50 euros contra a entrega do Cheque-trem velho e gasto.

O meu segundo conselho é para que não viajem em primeira classe (Conforto, dizem eles) porque a diferença de preço para a Económica é uma autêntica roubalheira, se atentarmos na escassa diferença de serviço. Um café, uma água, um biscoito, um jornal e 25% de hipótese de acesso a uma tomada não justificam os 24 euros de diferença na ida e volta entre Porto e Lisboa.

O meu terceiro conselho é de pedirem um lugar no sentido do marcha para aumentarem as hipóteses de não enjoarem se forem a trabalhar no computador durante a viagem.

O meu quarto conselho é que, no regresso a casa, não percam as duas mais fantásticas paisagens da viagem (o que implica ir do lado esquerdo): a primeira das praias, a seguir a Espinho, e a segunda, a fabulosa panorâmica do Porto, logo a seguir ao comboio partir das Devesas.

música: White Rabbit, Jefferson Airplane
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Quarta-feira, 29 de Julho de 2009

Quatro sérias razões de queixa do Alfa Pendular e uma evocação, de raspão, do saudoso Foguete

Como é mais provável que o Clark Kent e o Super Homem apareçam juntos do que eu, nesta vida, viajar de TGV entre o Porto e Lisboa, resignei-me ao Alfa.

Nunca senti empatia por este comboio de origem italiana (made in Fiat), por vários motivos, sendo que o primeiro consiste no facto dele emanar um cheiro enjoativo – presumo que derivado do combustível que usa.

Aborrecem-me alguma das suas idiossincrasias, como a de nos obrigar a chegar a um consenso com os parceiros da fila da frente (ou de trás) sobre se a cortina da janela deve ir aberta ou fechada, sendo que o caldo se pode entornar se um quer dormir (ou trabalhar no computador) e outro quer luz para ler (ou ir a pastar a paisagem).

Acho muito fatela que a inexistência, na carruagem bar, de lugares sentados e janelas panorâmicas nos obrigue a ir de pé, agarrados ao varão, e a espreitar por umas frinchas, enquanto bebemos a Água das Pedras fresca que nos custou 1,30 euros.

Irrita-me que uma pessoa tenha que comprar bilhete de primeira classe (Conforto, diz a CP) se quer ter pelo menos 25% de hipótese de estar ligado à corrente – pois há uma ficha por cada quatro lugares.

Há a registar alguns melhoramentos, como o facto das chamadas e da ligação à Net já não caírem de 27 em 27 segundos. Agora é possível ter rede ininterruptamente durante períodos de tempo que chegam aos sete minutos e meio.

A duração da viagem também foi encurtada, o que é sempre de saudar, pois nalguns comboios, se não se registarem atrasos, é possível chegar a Campanhã 2h45 minutos depois do Alfa ter partido de Santa Apolónia, o que representa já algum progresso sobre a performance do saudoso Foguete (também fabricado pela Fiat), cuja foto ilustra este post.

música: Lá vai o comboio, Grupo de Cantares de Portel
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Terça-feira, 28 de Julho de 2009

Toda a verdade sobre o processo de transformação em ícone dos óculos escuros do Pedro Abrunhosa

Uma boa parte das coisas boas que nos acontecem na vida acontecem por acaso, como por exemplo, o ícone dos óculos escuros do Pedro Abrunhosa.

Nas vésperas de se tornar célebre, Pedro tinha um bar na discoteca Indústria, de onde só saía de manhã, já depois do romper da bela aurora.

À saída, o sol da manhã incomodava-lhe os olhos, pelo que passou a levar óculos escuros para o trabalho. Uma vez, por graça, pôs os óculos escuros a meio da noite e logo reparou que isso o tornava mais atractivo às olhos das gajas, que, por norma, se pelam por um tipo com algum mistério – e os óculos de sol a meio no escuro da discoteca criavam algum (mistério). Como o truque dava resultado, passou a usá-lo amiúde.

Quando lançou o primeiro disco, a editora arranjou-lhe uma pequena entrevista televisiva, e vai dai ele até aos estúdios do Monte da Virgem, acompanhada da menina da promoção.

Já depois de passar pela maquilhagem, estava à espera que o chamassem, ocasionalmente de olhos escuros postos, quando a produtora do programa passou e logo o avisou que nem sequer era bom que lhe passasse pela cabeça ir para o ar naquele preparo.

Palavra puxa palavra, frase puxa frase, e o bom do Pedro, apesar de não ter planeado estar de óculos escuros na entrevista, resolveu entrincheirar-se numa posição de força e disse que só aceitaria ser entrevistado se pudesse estar de óculos escuros. Ganhou o braço de ferro e um ícone.

música: Vocês sabem lá, Maria de Fátima Bravo
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Segunda-feira, 27 de Julho de 2009

Uma breve e pormenorizada lista das nove coisas que mudaram na minha vida por causa desta crise

 

A melhor frase que já li sobre a crise é a seguinte (foi escrita por um tipo que resolveu preservar o anonimato, muito provavelmente para não incorrer na fúria da mulher):

“Esta crise é pior que um divórcio; já perdi metade dos meus bens mas a minha mulher continuou em casa”

A propósito da crise, devo confessar que ela mudou alguns aspectos da minha vida. Passo a dar nove exemplos:

a)    Substituí os bilhetes pré-comprados pelo passe combinado STCP/Metro do Porto, que, contra o pagamento mensal de 23,45 euros, me habilita a circular sem pagar nos transportes públicos no interior da cidade;

 

b)    Passei a levantar 60 euros de cada vez que vou ao multibanco, em vez dos 100 euros que sacava antes da falência da Lehman Brothers;

 

c)     Fiz um downgrading no vinho para consumo diário, que desceu do patamar menos de quatro euros a garrafa (nível Evel, Grão Vasco, Fontanário de Pegões e Monte Velho) para o Montes Ermos (Adega Cooperativa de Freixo de Espada a Cinta) na versão bag in box, que diponibiliza cinco litros de uma pinga bem razoável por pouco menos de sete euros;

 

d)   Deixei de comprar todos os livros que me apetece ler (e suspeito que o conseguirei fazer ainda em vida…) para passar a comprar apenas aqueles que tenho a certeza absoluta que começo a devorar nesse dia, como é o caso da Rainha no Palácio das Correntes de Ar, do Stieg Larson. A minha medalha de ouro, neste particular, foi ter resistido à compra do último do Ken Follet;

 

e)    Jurei que nunca mais faria figura de parvo a chegar às caixas da Fnac com CDs para pagar. Música, agora, é só de borla;

 

f)      Adoptei um comportamento ultra-responsável na Feira do Livro, limitando as compras a 27 livros da Colecção Vampiro (a 1,5 euros cada), que eu ainda não tinha lido, de autores dos meus autores de eleição, como Edgar Wallace, Leslie Charteris, Mickey Spillane, Rex Stout, Frank Gruber, Peter Cheyney, Hartley Howard e George Simenon;

 

g)    Fixei em cinco euros (a referência menu Big Mac que se impôs ao pessoal da restauração que tem juízo) a despesa habitual com o almoço no dia a dia;

 

h)   Converti-me aos produtos de marca branca (com excepção do leite polaco a 39 cêntimos, por motivos patrióticos), o que me permitiu fazer uma das mais saborosas descobertas do ano: o iogurte grego natural marca Continente;

 

i)      Passei a ler os jornais on line.

música: Encontro às dez, Rui de Mascarenhas
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Sexta-feira, 24 de Julho de 2009

Uma primeira análise ao súbito crescimento das mulheres determinado pelo abuso das plataformas

De repente, as mulheres portuguesas ficaram mais altas e com um andar diferente. Temos de olhar para o chão, ou melhor para os pés delas, para encontrarmos a explicação deste crescimento súbito.

A moda, de mão dada com a urgente necessidade da indústria de calçado de vender mais sapatos, é a responsável por este fenómeno que está em cartaz pelo menos desde a Primavera.

O uso de plataformas para camuflar eventuais e irresolúveis problemas de crescimento, não é novo (nos anos 70, o calçado de plataforma esteve in ao mesmo tempo que as calças à boca de sino) nem é exclusivo das mulheres: o marido da Carla Bruni e o incorrigível Berlusconi abusam deste recurso.

Não tenho opinião formada e definitiva sobre esta moda. Patrioticamente sinto-me tentado a aplaudir, porque o uso predominante de cortiça como matéria prima da plataformas só pode ser bom para a única indústria em que somos destacadamente lideres mundiais.

Mas ainda não conseguir perceber se acho sexy o andar imposto pelas plataformas, que - por razões de equilíbrio que carecem de um estudo mais aprofundado e com contornos científicos que não fazem parte da minha bagagem -, é claramente diferente do induzido pelo bom e velho salto alto tipo agulha.

Estamos, por isso, na presença de um assunto para aprofundadas e posteriores discussões.

 

música: Hey Jude, Beatles
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Quinta-feira, 23 de Julho de 2009

É muito chunga os cinemas Lusomundo fazerem um intervalo de sete minutos no meio dos filmes!

Quando eu era um adolescente consciente e ia ao cinema não era só para ver o filme. Tratava-se de um acto eminentemente social, em que além de papar a fita, aproveitava os dois intervalos (um entre as apresentações e o início do filme, o outro a meio) para tropeçar em pessoas, dar um bocado de paleio e tomar um cafezinho de saco, a maior parte das vezes bastante rasca, diga-se.

Como, no entretanto, mudaram o século, o milénio e as vontades, quando vou ao cinema vou exclusivamente focado em ver a fita, mais nada.

Em assim sendo, acho muito chunga que os cinemas da Lusomundo façam um intervalo de sete minutos a meio da fita. É um corte. Presumo que a ideia do inventor do intervalo é levar as pessoas a consumir pipocas. Uma merda! Esse tipo, se querem a minha opinião, deve ser um ejaculador precoce. Cortar um filme a meio equivale a ser interrompido a meio de uma queca, que ainda por cima nos está a saber pela vida.

Hoje fui ao Lusomundo do NorteShopping ver o Bruno (recomendo, pois está à altura do Borat e faz uma citações das memoráveis entrevistas do Ali G) na sessão das 16h10 e fui surpreendido pelo bárbaro intervalo de sete minutos.

Como acho o intervalo chunga, as salas fatelas (não gosto dessa dos lugares marcados) e o preço caro (paguei 5,50 euros pela entrada, enquanto nas magníficas 20 salas do Arrábida pago menos um euro pois sou portador do UCI Card (e ainda acumulo pontos), nunca mais vou a uma sala Lusomundo.

Só mesmo numa afliçãozinha é que irei ver filmes a outro lado que não o meu bem amado multiplex do Arrábida.

 

música: Let it be, Beatles
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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