Sábado, 31 de Janeiro de 2009

O Homem da Regisconta tresandava a Old Spice

 

Faço parte de uma geração que cresceu revoltada contra o cheiro a Old Spice que emanava dos homens mais velhos.

Lembram-se do mítico anúncio televisivo do Homem da Regisconta, uma silhueta que transportava uma mala de agente secreto na mão direita (1)?

Pois não tenho a menor das dúvidas em vos informar que após ter feito a barba com uma máquina Philishave, enquanto tomava o pequeno almoço -  torradas de pão bijú barradas com margarina Flora e meia de leite escura, com três colheres de açúcar (2) - , o Homem da Regisconta dirigia-se à casa de banho e massajava vigorosamente os queixos e resto da cara com a loção after shave Old Spice.

No Salão Veneza - que frequentei na época em que o Luís Filipe Barros fazia dos Styx a âncora do Rock em Stock -,  os acabamentos da operação de fazer a barba tinham dois momentos: um obrigatório e outro opcional.

O obrigatório consistia na apaziguadora passagem de um belo bocado de pedra de Hume por toda a superfície intervencionada.

O opcional consistia na aplicação de Old Spice – que eu recusava terminantemente, na minha qualidade de militante activo do conflito de gerações em curso.

“Deite álcool”, dizia, num tom a um tempo decidido e lacónico. “Para desinfectar”, acrescentava. Nunca estive tão dentro da pele do Philip Marlowe como nestes gloriosos momentos passados no Salão Veneza, na rua Elísio de Melo.

(continua)

…………………………

(1)  Passados todos estes anos continuo sem ter achado uma resposta cabal e esclarecedora para a pertinente e judiciosa pergunta: Será que não havia canhotos na Regisconta? O Chalana, o Costa, o Nóbrega, o Futre e o Serafim não podiam ter sido Homens da Regisconta?

 

(2) Não digam nada a ninguém. mas no dia a seguir a ter feito 43 anos o Homem da Regisconta descobriu que era diabético…

 

música: Guys like me, Aimee Mann
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Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

Se está nas nuvens, não deve fazer a barba

Não, não se trata de bocados de superfície lunar, mas sim da milagrosa e cicatrizadora pedra de Hume

Fazer a barba não é a mesma coisa que tomar chá. É uma operação que tem alguns perigos embutidos, por várias razões, das quais acho por bem salientar duas:

a)     Envolve uma lâmina e a nossa própria pele;

 

b)    Na esmagadora maioria das vezes desenrola-se quando ainda não estamos completamente despertos para o Mundo nem beneficiamos do efeito revigorante de um bom duche.

Mas há algumas prevenções que podem reduzir imenso os riscos de golpes e sangrias desatadas, sendo que uma delas é abster-se de fazer a barba se a noite passada foi demasiadamente mal passada ou bem passada – o que tem como consequências directas que a sua mão não está tão firme como a do Manuel Antunes quando faz cirurgias cardiovasculares, em Coimbra, e os seus olhos não estão tão abertos como os de Sócrates ao tomar conhecimento das malfeitorias do “filho de seu tio” (que não deixa de ser primo dele, apesar do tio que é pai dele ser apenas meio-irmão da mãe).

Há que ter em atenção o material. Apetreche-se com um boa lâmina e não seja mitra. As lâminas de barbear são como as pessoas - chegam a uma altura em que o melhor que têm a fazer é abandonarem o activo. Ao fim de seis ou sete boas exibições, o melhor que tem a fazer é deitar a lâmina ao lixo e substitui-la por uma nova.

Uma lâmina rombuda pode ser tão perniciosa para a saúde da sua pele como um militante do Hamas para um colono israelita.

Há que ter em atenção o local. Os preclaros que já fizeram voos transtlânticos em executiva (ou primeira classe) e receberam de oferta uma daquelas bolsas geniais com um kit higiénico (contendo meias, venda para os olhos, escova e pasta de dentes, toalhetes bem cheirosos, pente, creme hidratante Nívea, um frasquinho de colónia e uma verdadeira armadilha constituída por lâmina e creme de barbear)  já aprenderam à sua própria custa que não é boa ideia fazer a barba a bordo de um Airbus (regra que é extensível aos Boeing, Tupolev e outras marcas de avião).

Um pequeno corte a dez mil metros de altitude origina uma sangria muito difícil de estancar, mesmo que não tome diariamente um micro-aspirina para prevenir que um coágulo malandro lhe provoque um enfarte fatal ou um trágico AVC.   

Não se deve fazer a barba quando se está nas nuvens. Há, acima de tudo, de ter uma grande concentração no acto. No Verão de 2006, andava eu a fazer um estudo comparado (com o alto patrocínio do doutor Balsemão), da oferta turística do Algarve e a da Costa do Sol espanhola, quando sofri um terrível acidente doméstico num três estrelas manhoso de Torremolinos.

Por estar a pensar na morta da bezerra enquanto estava a fazer a barba, cortei não só os pelos mas também um sinal que tenho um pouco abaixo do canto esquerdo da boca.

Foi o cabo dos trabalhos. O buraco demorou horas a parar de sangrar e criar uma crosta, apesar de o ter tratado com os cicatrizantes mais eficazes: pedra de Hume e papel higiénico.

 

música: The ground beneath her feet, U2
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Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

A cara tão macia com um rabinho de bebé

Os irmãos Cohen foram sensíveis à problemática do barbeiro

Tem de se ir ao barbeiro para a barba ficar mesmo muito bem feita, ao ponto da macieza da nossa cara poder ser comparada ao rabo de um bebé (um rabinho sem assaduras, como é óbvio).

Não há lâmina descartável (nem mesmo a já aqui muito justamente elogiada Gillette Blue II) que seja capaz de imitar a competência de uma navalha afiada naquela tira de couro que deve ter um nome próprio mas eu creio que nunca soube qual é.

Um tipo senta-se, vê a sua camisa ser protegida por um largo bibe de tecido fino azul clarinho, cingido à volta do pescoço por um pequeno alfinete bebé, a cadeira reclina-se, olha para o espelho antes de fechar os olhos e sentir o pincel espalhar uma tépida espuma pela área de intervenção. Está tudo pronto para o inicio da operação.

É indiscritivel a sensação de elegância que se vive quando a navalha passeia pela nossa cara dizimando, sem dó nem piedade, os pêlos que se atravessam no seu caminho.

A única coisa que temos de fazer é, a pedido, subir ou descer o pescoço, inclinar a cara mais ligeiramente para um lado ou para outra, e, no final, arrepanhar um pouco o local do bigode e estar particularmente quietos e com os lábios descontraídos quando a navalha trabalha na zona raiana da nossa boca.

Concluída esta primeira fase, há um intervalo. A cadeira volta à posição inicial, confirmamos no espelho que perdemos parte do aspecto de potencial assaltante de bancos que tínhamos quando nos sentamos, enquanto o barbeiro se afadiga nos preparativos para a segunda fase – o escanhoar, que consiste em repetir a operação.

E depois há a cereja em cima do bolo, quando o barbeiro manobra no interior das nossas narinas as pontas de uma tesoura de lâminas enormes e afiadas, com o louvável intuito de nos cortar os pêlos que inesteticamente nos saem do nariz.

(continua)

 

música: Thie is how it goes, Aimee Mann
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Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

É um pouco por todo, nem muito curto, nem tão comprido que não se repare que vim ao barbeiro

 

Se ganhasse o Euromilhões, o Zé Nuno Amaro contratava um chef de sushi lá para casa.

Se eu ganhasse o Euromilhões, passava a ir fazer a barba ao barbeiro.

Não faria o mínimo sentido contratar um barbeiro lá para casa, pois só ocuparia no máximo meia hora por dia – e nem todos os dias, porque mesmo que me tornasse um milionário excêntrico manteria a excentricidade de jornalista teso (1) que só se desfaz dos pêlos da cara umas duas vezes por semana.

Do ponto de vista da racionalidade económica, seria estúpido ter um barbeiro indoor. A solução acertada seria estabelecer um contrato de outsourcing com um salão de barbearia que me permitisse ir lá fazer a barba, sempre que quisesse, com o pagamento de uma avença mensal de, digamos, 60 euros.

Alguns dos momentos de feliz descontracção que eu vivi nos anos em que trabalhei no Comércio do Porto foram passados comigo confortavelmente sentado numa cadeira rotativa (produzida na antiga Fábrica António Pessoa) do Salão Veneza, que ficava do outro lado da rua Elísio de Melo, um pouco acima do Guarany (que ainda não tinha sido beneficiado com os murais da Graça Morais).

Nos anos 80, já era muito caro fazer a barba no barbeiro, mas eu permitia-me esse luxo quando ia ao Veneza cortar o cabelo (à época abundante).

Sentava-me, apetrechado com a edição do dia do JN (2), surripiada à menina da manicura, dizia “É barba e cabelo!”, era perguntado como queria o cabelo e respondia “como de costume, um pouco por todo, nem muito curto, nem tão comprido que as pessoas nem reparem que eu vim ao barbeiro”. Os dados estavam lançados.

(continua)

…………………………

(1) Emprego o vocábulo teso no sentido de não ter dinheiro, não o de jornalista em permanente estado de priapismo)

 

(2)  A do Comércio já a tinha lido toda, de ponta a ponta, na madrugada anterior, no Paju.

 

música: Lost in space, Aimee Mann
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Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

Detesto piscinas que precisam de semáforos

Quem não gostaria de ter estado no lugar de Alain Delon, à beira da piscina, com a Romy Schneider?

Se me saísse o Euromilhões, a minha primeira excentricidade seria adquirir uma casa equipada com uma piscina de 25 metros aquecida e uma cobertura amovível que permitisse o seu uso durante os 365 dias do ano.

Uma das melhores sensações que posso ter é mergulhar, ainda meio a dormir, numa água tépida e acordar totalmente e desentorpecer-me a nadar. Chega a ser erótico.

E gosto muito de nadar, actividade a que não me entrego regularmente há já uns anos por considerar insuportáveis as condições disponibilizadas pelos health clubs que começo.

Gosto de nadar, mas quero ter uma pista só para mim (ou vá lá, para duas pessoas, se a outra também estiver a fazer piscinas, respeitar o seu lado e não atrapalhar).

Gosto de nadar, mas detesto piscinas com menos de 20 metros (vá lá 18 metros, que será o mínimo dos mínimos!) em que uma pessoa passa mais tempo a deslizar debaixo de água a seguir às viragens do que a nadar mesmo.

Gosto de nadar, mas detesto ter de partilhar a piscina com ranchos de crianças irrequietas e bandos de velhinhas desocupadas a fazerem ginástica na água.

Gosto de nadar, mas detesto estar na piscina a tentar nadar e a pensar se devo ou não sugerir ao gerente do Holmes a instalação de um sistema de semáforos nas suas piscinas.

Além da piscina privativa, com as características descritas, se me tornasse milionário excêntrico, permitir-me-ia alguns pequenos luxos, como, por exemplo, ir ao barbeiro fazer a barba.

Dantes era assim. Os cavalheiros iam ao barbeiro fazer a barba. Por isso mesmo ele se chamava barbeiro e não cabeleireiro (o nome que se dá aos/às operadores/as de cabelos das senhoras que, por definição, não têm barba, porque se a tivessem andavam pelas tendas de circo da família Cardinalli e não a frequentar os salões da família Piloto).

(continua)

 

música: Humpty dumpty, Aimee Mann
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Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

Woody Allen, o Euromilhões e eu na contingência de desempenhar o triste papel do asno de Buridan

O Zé Nuno Amaro, que foi guarda redes do Braga, tem agora uma empresa de eventos, chamada Ideiabiba, que funciona a partir de Aveiro e cuja iniciativa mais vistosa é tentar pôr os estudantes da Universidade do Minho e do Porto a andarem de bicicleta – empresta-lhes a bicla e espera ganhar dinheiro com a exploração do espaço publicitário nas máquinas e no campus universitário, em termos simples é este o modelo do negócio.

O mês passado, o Zé Nuno surpreendeu-me quando, no meio da conversa (fiz um perfil dele para o DN), o inquiri sobre hóbis (como é que se divertia?)  e comer fez parte da resposta  -  e não, não estava a usar comer como sinónimo figurado de outro verbo acabado em er.

Perguntei-lhe, a medo, “comer o quê?”, “quais são as comidas que mais lhe agradam?”, e ele sossegou-me, pois não nomeou nenhuma das três giraças que protagonizam o Vicky Cristina Barcelona  - Rebecca Hall, Scarlett Johansson e Penélope Cruz, todas muito diferentes, mas cada qual melhor que a anterior (seja qual for a ordem porque se digam os seus nomes), o que me fez logo aumentar a admiração pelo Javier Bardem que, na vida real, teve cojones para escolher uma delas (a Penélope), pois eu, na situação dele, com quase toda a certeza replicava o triste papel do célebre asno de Buridan (1).

Cozido à portuguesa e sushi, respondeu ele, o que, bem vistas as coisas é o equivalente gastronómico a dizer Scarlett (o cozido) e Rebecca (o sushi) – se quisesse significar a Penélope teria, com toda a certeza, falado de pimientos de Padron picantes ou frango ao piripiri.

“Se me saísse o Euromilhões contratava um chef de sushi para lá para casa”, acrescentou o Zé Nuno.

Fiquei muito surpreendido por esta resposta, e pus-me a pensar no que faria eu se me saísse o Euromilhões (uma impossibilidade igual à de despedir um desempregado, pela simples mas poderosa razão de que eu não jogo no Euromilhões).

(continua)

 

……………

(1) Buridan foi um filósofo medieval francês que estabeleceu a teoria que um burro colocado num lugar equidistante de dois fardos de palha morreria à fome por não conseguir decidir a qual deles se dirigir primeiro.

 

música: Waterloo, Abba
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Domingo, 25 de Janeiro de 2009

O meu protocolo na hora de desfazer a barba

 

Se na escolha da lâmina não transijo (uso sempre a Gillette Blue II), já no que concerne à marca da espuma da barba devo confessar que nunca fui muito exigente.

Apesar desta atitude idêntica à dos polícias – ou seja de topar a tudo quando se trata da espuma  da barba- , sinto-me da obrigação de revelar a todos os frequentadores desta Lavandaria que a mousse Fujiyama (da Rituals), com aroma a tangerina e menta, me tem deixado tão satisfeito que até encaro seriamente a hipótese de me fidelizar a ela.

Como sou um ferrenho e exclusivo partidário da lâmina, o meu ritual da barba desenrola-se integralmente no interior da casa de banho e em frente ao espelho.

Os adeptos da máquina de barbear podem andar a vagabundear pela casa, levando atrás de si aquele zumbido irritante, enquanto cortam os pêlos da cara.

Para eles, a barba é uma espécie de part time que vão fazendo com alguma displicência, enquanto tomam o pequeno almoço, infernizam a vida aos filhos que teimam em não estar prontos para sair, passam os olhos na página desportiva do jornal ou espreitam a televisão para ver como está o trânsito.

Para nós, os da lâmina, fazer a barba é uma actividade que nos ocupa a tempo inteiro, exige concentração e a presença do espelho, para acompanhar a par e passo a evolução das operações - e de um lavatório para recolher os bocados de espuma com pêlos.

Tenho os passos desta operação completamente mecanizados. E como não tenho segredos para as preclaras e preclaros passo a descrever, com detalhe, o protocolo que sigo para fazer a barba.

Colocado em posição, em tronco nu, esfrego vigorosamente com água fria (estou pronto a conceder que a quente é mais eficaz, mas acho que recorrer a ela é meio abichanado) a superfície que vai ser intervencionada, com o intuito de amolecer os pêlos.

Posta a tampa no fundo da bacia do lavatório e criado o pequeno reservatório de água para limpar a lâmina, há que espalhar a espuma, com parcimónia – não se deve nunca (mas mesmo nunca!) extrair um volume de espuma superior ao tamanho de uma noz.

Concluídos estes preparos, chegou a hora da lâmina. Eu começo sempre pelo lado direito. Primeiro acerto a patilha, depois sigo para a face e o pescoço. Depois repito este procedimento na outra face, antes de atacar a zona nevrálgica do queixo, onde os pêlos são mais densos – e por isso dispuseram de mais tempo para amolecer.

Para o fim, deixo ficar o bigode, opção que não sei se tem a ver com o facto de durante um quarto de século o ter mantido virgem – ou se se deve antes ao facto da zona que bordeja os lábios ser a que exige mais perícia, pois um corte significa sangue que nunca mais acaba.

música: Gimme! Gimme!Gimme! (A man after midnight), Abba
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Sábado, 24 de Janeiro de 2009

A utilidade das tampas das esferográficas Bic na extracção de lixo das unhas e cera dos ouvidos

 

Na conferência de Yalta de Fevereiro de 1945, onde os lideres dos Aliados estiveram entretidos a desenhar o mapa da Europa do pós guerra, Stalin ficou de tal maneira invejoso ao ver Franklin Delano Roosevelt a assinar os acordos com uma esferográfica (uma modernice que ainda não chegara à URSS) que não descansou enquanto não ficou com ela, dando em troca, ao presidente norte-americano, a sua caneta de tinta permanente.

Tenho uma enorme simpatia pela Bic, talvez a marca que melhor soube surfar em cima da onda de um mundo em mudança que sacrificava o durável no altar do descartável.

Depois dos lápis Viarco (ocasionalmente Staedtler, um momento de luxo importado) foram as esferográficas Bic, esfera fina (para uma escrita fina!) e cristal (para um escrita normal!), nas suas quatro cores standard (azul, preta, verde e vermelha) que me acompanharam ao longo de 17 anos de estudo.

As esferográficas Bic, sofreram, em determinada altura, uma concorrência não muito forte das portuguesas Molin e apenas foram secundarizadas pela verdadeira revolução que significou a chegada ao mercado das Futura, que encantou as vanguardas.

O museu nova-iorquino MoMa reconheceu o papel da Bic no século XX ao ter em exposição algumas destas esferográficas com um design magnífico e valências diversas (a ponta da cápsula além de permitir prender a esferográfica ao bolso era frequentemente utilizada, com elevado grau de eficácia na extracção de lixo das unhas e cera dos ouvidos).

A Bic patrocinou ainda uma equipa de ciclismo que disputou durante vários os anos o Tour de France, que venceu pelo menos uma vez, através do espanhol Luis Ocaña. O nosso Joaquim Agostinho chegou a envergar a camisola laranja com uma faixa branca horizontal, da Bic.

Tudo isto me leva a ter uma enorme consideração pela Bic, que como não podia deixar de ser não perdeu a oportunidade para cortar para si uma fatia no mercado crescente e florescente das lâminas de barbear descartáveis.

A lâmina Bic é muito bonita, com a pega e o encaixe protector a laranja. A lâmina Wilkinson desenvolve-se num arco ligeiro e muito elegante. A Schick está mais cheia de tradição que os oceanos de sal. Mas quando chega a hora de cortar os pêlos da cara, a melhor lâmina é, sem sombra de dúvida, a Gillette Blue II. 

música: The name of the game, Abba
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Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

Sobre as virtudes do pincel de barba, amígdalas e fraldas como métodos subsidiários ao Carbono 14

 

O carbono 14 é apenas um dos métodos de datação existentes, não é o único. Quando se trata de gerações recentes, há outros métodos que podem ser usados com uma eficácia próxima do infalível – como o método das amígdalas, o das fraldas e o do pincel para a barba.

Para citar um dos exemplos que conheço melhor (eu próprio) há uma geração ainda viva que não tem amígdalas, sendo que a seguinte, a das pessoas sub 49 anos, preserva, na esmagadora maioria dos casos, essa peça do equipamento de origem.

Algures em meados dos anos 60, deve ter-se realizado um congresso médico que mudou o paradigma relativamente às amígdalas e determinou que extrai-las deixava de ser primeira opção, passando a ser o último recurso,  quando se tinha pela frente uma criança a berrar desalmadamente com dores numa garganta obviamente inflamada.

Eu sou um dos últimos representantes da geração amputada de amígdalas. Estou em crer que Sócrates é um dos primeiros exemplares da geração que logrou atravessar a infância e adolescência preservando a integridade das suas amígdalas.

O tipo de fraldas usadas quando eram bebés cava claramente a diferença universitários que concluíram cursos de quatro e cinco anos e a geração de Bolonha.

Os mais velhos, aB (antes de Bolonha)  usaram fraldas de pano, obrigaram os pais a manterem um balde mal cheiroso em casa, e tiveram provavelmente muito mais assaduras nos seus rabinhos do que os dB, que beneficiaram das fraldas descartáveis.

No que concerne ao assunto que está em cima da mesa  - que, não nos esqueçamos, é a barba – a geração sem amígdalas ainda conviveu com o pincel e a compra de lâminas Schick, em bonitas embalagens roxas decoradas com um crocodilo, para abastecer o aparelho de fazer a barba.

Os mais novos, que mantêm as amígdalas, são a geração da espuma de barbear e das lâminas de barbear descartáveis, que todos concordarão, representam uma enorme mudança civilizacional.

 

música: Does your mother know, Abba
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Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

O meu acto falhado de compra, em 1992, de uma máquina de barbear Braun, de bolso e a pilhas

 

Adepto incondicional da lâmina, em toda a minha existência (que decorre, inexoravelmente, há mais de meio século), apenas por uma vez comprei uma máquina de barbear.

Foi num acesso de consumismo puro e duro, algures no ocaso do cavaquismo  (talvez em 1992, o ano em que eu deixei de fumar e a Europa derrubou o que restava das velhas fronteiras, abrindo-se num mercado único)  que ocorreu este acto único, sem mais exemplo.

Tratava-se de uma máquina de barbear Braun de bolso, a pilhas, de tamanho e peso aproximados ao de um maço de SG Filtro, e a sua aquisição obedeceu a um objectivo bem preciso.

À época, ainda não tinha chegado à cara dos homens o ambiente geral de desregulamentação em vigor nestes tempos de enorme incerteza onde se admite tudo, com um notável espírito de tolerância - desde a face rigorosamente escanhoada à Portas (cheira-me que a faz à navalha e no barbeiro) até à barba de padre jesuíta do Pinto da Costa da Morgue, passando pelo bigode do Murteira, de tal forma farto e denso que se ele se descuida a comer um ovo estrelado metade da gema não lhe chega ao aparelho digestivo!

Como a barba de três dias popularizada pelo Mourinho ainda não tinha sido inventada, a etiqueta da apresentação de um jornalista económico do mais influente jornal do pais, implicava, no meu entender, uma cara sem dúvidas nem hesitações – ou bem que se usava barba, ou bem que as faces estavam depiladas. Não havia lugar a meias tintas.

A Braun de bolso foi comprada para integrar um kit de sobrevivência que eu mantive durante alguns anos numa das minhas gavetas do Expresso,  fazendo companhia a uma camisa branca lavada e uma gravata sem nódoas.

A intenção era boa, o procedimento transparente (ou seja, os bolsos do dr Balsemão não foram chamados ao caso), mas o balanço final da operação deixa muito a desejar.

Contam-se pelos dedos da mão de um maneta (ou seja, no máximo cinco) as vezes que usei a máquina, que da última vez que esvaziei gavetas foi para uma caixa de sapatos Ecco, que arrumei debaixo do meu estirador,  onde convive com post its amarelos de tamanhos diversos, elásticos, agrafador e agrafes, um furador, uma base de fita cola, cartões de visita por classificar e pisa papeis diversos.

É triste, mas tenho de concluir que a minha compra de uma máquina de barbear de bolso e a pilhas foi um acto falhado.

 

música: Take a chance on me. Abba
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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