Segunda-feira, 28 de Julho de 2008

E quando as mulheres estão a jogar à Benfica (ou seja, mal)?

A Portia é a da direita, a Ellen a da esquerda

 

O que é mais chato? A barba ou a menstruação? Trata-se de uma questão simples mas clássica, que divide a humanidade desde os remotos tempos de Adão e Eva - e para divisões entre os géneros já bastam as casas de banho.

Bem, no escritório de advogados da Allly McBeal a casa de banho era unissexo mas normalmente dava mau resultado, o que se compreende.

Para começar não comemos sabonetes, pelo que o aroma das nossas necessidades fisiológicas de carácter sólido raramente é recomendável, ficando a um abismo de distância de fragâncias metálicas que agradam à pituitária feminina, como o Odeur 53 da Comme des Garçons.

Depois, digam-me só como é que um tipo pode estar descontraído, sentado no trono, a largar-se ruidosamente, se, depois de limpar o rabo a e accionar o autoclismo, sai da casinha e corre o risco de deparar com a boazana da Portia di Rossi (mama pequenina, mas uma graça e muito mal empregue na cama da Ellen de Generes) a franzir o nariz com um ar enjoado e a deitar-nos um olhar enojado enquanto retoca o bâton em frente ao espelho?

Fechado este parênteses da casa de banho, devo confessar-vos que fiz algum trabalho de campo preparatório deste post. Quando perguntei à minha colega G. “Barba ou menstruação?” a resposta que obtive na volta do correio foi crua, mas creio que definitiva: “Se passasses uma semana por mês a sangrar do cu não andavas para aí a fazer essas perguntinhas idiotas”.

Já sofri crises de hemorroidal, mas nada que se assemelhe à gravidade, duração e regularidade da feliz imagem desencantada pela G. para responder à minha questão.

Concordo com ela. Estou firmemente convencido que Deus Nosso Senhor foi excessivamente rigoroso ao fazer as mulheres pagarem em sangue – se bem que em suaves prestações mensais -  o pecado de trincar a maçã cometido pela sua antepassada Eva.

Claro que há atenuantes. A barba desponta na cara dos rapazes mais ou menos na mesma altura que a menstrua faz a sua primeira aparição no pipi das raparigas. Mas a barba cresce até um tipo se finar, enquanto a menstruação acaba algures entre os 45 e 55 anos.

No entanto, o fim da menstruação, ou seja a transição para o estado de amenorreia completa, não tende a ser encarado muito favoravelmente pelas mulheres, que por esta altura da vida passam a ser ainda mais imprevisíveis do que é costume.

E um homem tem a liberdade de optar por deixar crescer a barba -  ao estilo do Karadzic, do Osama bin Laden e do Pinto da Costa da Morgue - , ou desfazê-la a apenas quando lhe dá na veneta, desculpando-se com a moda da barba de três dias a que o mais famoso dos setubalenses deu um novo alento.

Mais. Aos inconvenientes decorrentes da menstruação há que somar as chatices da TPM (tensão pré-menstrual) período durante o qual, por norma,  as mulheres infernizam a vida de quem esteja no seu “hinterland”.

Comparado com as chatices da menstruação, fazer a barba é como dar uma passeiozinho pela sombra depois de nos termos empazinado com tripas à moda do Porto no almoço dominical. “Piece of cake”, como diriam os ingleses.

Por falar em ingleses, adoro a frase que as francesas usam  (“être avec les anglais”) para significarem que estão no período, uma expressão com mais elegância e densidade histórica que o nosso "estar a jogar à Benfica", ou seja, mal. 

 

 

Na foto de cima não se lhe via bem a carinha laroca

música: Carta, Toranja
publicado por Jorge Fiel às 13:57
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Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

O murcho final da história de uma foda encravada

Nunca fui às putas. Uma viagem de Inter Rail pela Europa, em 1972, dispensou-me do recurso a profissionais para a minha iniciação à coisa do sexo.

Nem todos os rapazes da minha geração tiveram esta sorte.  Foi entre copos de cerveja, no Paju, que ouvi o mais extraordinário relato de ida às putas.

Nos anos 80, o Paju, na rua Faria Guimarães (Porto), era a Meca nocturna visitada pelo pessoal do “Comércio do Porto” (e não só) depois de fechado o jornal.

O cheiro a tinta dos primeiros exemplares do “Comércio” a saírem da máquina convivia alegremente com as canecas de cerveja que aviávamos a bom ritmo -  o que favorecia a sua qualidade futura pois, como presumo todos sabem, quanto maior for a rotatividade dos barris melhor é a cerveja, que começa a perder qualidades logo que sai da bica.

Discutíamos o jornal que tínhamos acabado de fazer, falávamos do do dia seguinte, ceávamos, bebíamos cerveja, dizíamos e fazíamos disparates enquanto o Paulo atendia pacientemente os nossos pedidos, que não raro contemplavam deitar abaixo um panelão de tripas à moda do Porto.

Paulo estava careca (em ambos os sentidos, o figurado e o literal) de saber que a satisfação da clientela é a condição sine qua non para um negócio prosperar  e por isso, às duas da manhã, fechava a porta, para não incorrer na ira  dos bófias de 9º esquadra , mas mantinha o Paju aberto enquanto houvesse freguesia a consumir e abria a porta com gosto ao pessoal conhecedor e conhecido que chegava fora de horas e sabia que não era preciso dizer a senha - bastava bater à porta.

Significa isto que quando o Paju fechava as suas portas (sim, havia mais do que uma, a principal, que dá para Faria Guimarães, e uma lateral, em que a cozinha comunicava com uma ruela) já tinha rompido a bela aurora.

A propósito, recordo que Paju funcionava (penso que ainda funciona mas já lá não vou há uns bons 15 anos, pelo que não ponho as mãos no fogo pela sobrevivência de um bar que usava os vícios como combustível)  numa penumbra própria de um  pub inglês.

Esta penumbra era altamente vantajosa para o Paulo pelos quatro motivos que passo a enunciar:

a)     Poupava na conta da luz;

 

b)    Proporcionava um ambiente acolhedor;

 

c)     Impedia olhos exteriores e hostis de se aperceberem de que estava aberto para além do horário a que estava legalmente autorizado;

 

d)    Salvaguardava a intimidade dos pratos que ele servia de um eventual  escrutínio rigoroso de um cliente abelhudo (e toda a gente sabe quão cuscos podem ser os jornalistas).

 

Após uma noite vivida nesta penumbra, os nossos olhos sofriam quando expostos à agressiva luminosidade do jovem e emergente dia. Foi por essas e por outras que o Abrunhosa passou a usar óculos escuros, mas isso já é outra história, pois esta é sobre relatos de idas às putas escutados pelas frias paredes de pedra do Paju.

A variedade dos temas debatidos às mesas do Paju faria concorrência à Wikipédia, se esta enciclopédia online existisse naquela época em que  éramos meninos (ou meninas ) para fumar três maços de SG filtro por dia e não dispensar o bagaço (ou a mais refinada 1920) a sepultar as refeições.

Numa dessas noites, à falta de melhor, resolvemos partilhar a nossa primeira vez, mas cometemos a imprudência de deixar o JB abrir as hostilidades.

Algumas palavras introdutória sobre o JB, iniciais do nome de um colega nosso, em que o B corresponde ao nome de uma cidade portuguesa  (e não é Beja) cuja fama se acabou por relacionar indirectamente com o tema da conversa .

O JB - como hei-de dizer? - tinha umas ideais muito peculiares que determinavam  escrevesse à velocidade do caracol.  Tinha o mérito de ter inventado uma nova regra do jornalismo  (que apenas ele próprio praticava) que consistia em proibir a repetição da mesma palavra ao longo de um artigo.

Esta regra fez dele um acrobata da língua, danificou irreparavelmente a lombada do seu dicionário de sinónimos e tornou-o proprietário de uma prosa inconfundível, rigorosamente pessoal e intransmissível, mas um tudo nada rebuscada.

Não era rápido na escrita por vias desta mania, que ele, teimoso como um burro, se recusava a abandonar. Os seus maiores detractores diziam que o lugar certo para ele não era um diário mas antes o Anuário que à época era editado pelo Diário de Notícias. Provavelmente tinham razão.

Na oralidade, o JB era um tudo nada mais rápido que na escrita, mas apesar disso, tive de resumir muito a história que ele contou nessa noite no Paju, para evitar que este post atinja a dimensão da lista telefónica de Pequim.

Na verdade, o JB não contou uma mas sim duas histórias, o que teve o condão de colocar em cima da mesa uma questão teórica não negligenciável.

A primeira vez refere-se à primeira vez que nos explicamos (neste caso estaríamos a falar da poluição nocturna involuntária dos lençóis ou do onanismo) ou antes à primeira vez que demos entrada na quente, húmida e acolhedora gruta de uma rapariga?

A interpretação que JB deu à primeira vez levou-o a partilhar connosco aquela tarde quente de Verão em que os pais o deixaram sozinho em casa, ele sentou-se no sofá a ver na televisão, a RTP transmitia uma partida de ténis feminino e os movimentos ascendentes e descendentes das curtas saias das jogadores acordaram-lhe a libido aos gritos, apesar das imagens serem a preto e branco, obrigando-o a desapertar a braguilha e, o resto, bem o resto penso que não é preciso descrever o trabalho manual que se seguiu...

Protestamos. A primeira vez não é a primeira punheta - argumentamos. Acusamo-lo de batotice. Ele tinha que socializar, ali e agora, a primeira vez que tinha estado com uma rapariga, a cores e presencialmente. A custo, lá o convencemos.

A primeira vez do JB tinha sido nas putas, levado por uns amigos mais velhos que achavam que ele já estava mais que maduro para experimentar o mistério da vida e patrocinaram-lhe a excursão com o louvável objectivo de o fazer perder a virgindade.

A descrição que fez da casa batia mais ou menos certa com a que os Táxi fizeram da Rosete. Os amigos levaram-no praticamente ao colo até o deixarem sozinho com profissional, que, conta o JB, estava sentada na cama, tal como tinha vindo ao Mundo, e de pernas tão abertas que até parecia uma santola.

Ele olhou para o local pintado pelo Coubert e ficou alarmado.

Com um rápido olhar, mediu a erecção que se apoderara do seu órgão e a entrada da  garagem onde era suposto estacioná-lo.

Comparou os tamanhos e ficou aflito. Convenceu-se de que não cabia. Ela dizia: anda, anda! Mas ele não andava. Ficava parado a protestar, dizendo-lhe que não ia caber - e não lhe queria fazer mal.

Ela debalde o tentou sossegar. Jurou-lhe que cabia, sim, acrescentando que já tinha alojado no seu interior volumes bem maiores. Mas o JB é muito teimoso e não saía da dele: não cabia!

Quando finalmente ela o convenceu a experimentar, a erecção do JB já tinha desaparecido. E não voltou, apesar dos primeiros socorros administrados localmente pela profissional. O JB teve de bater em retirada, após ter sido vergonhosamente derrotado na sua primeira tentativa de perder a virgindade.

Ficamos fulos. Era a segunda longa história e de primeira vez nada – apenas relatos excessivamente detalhadas de um sucedâneo e um fracasso.

Já era dia. Dissemos ao Paulo para meter a despesa nas nossas contas e fomos embora, chateados pelo fim murcho de uma noite em que o JB confirmou o que já desconfiávamos que ele era: uma autêntica foda encravada.

 

música: Voulez vous, Abba
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publicado por Jorge Fiel às 09:02
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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