Terça-feira, 18 de Março de 2008

Como a prática do 69 demonstra que a unanimidade nem sempre é consensual

 

O pessoal da lavandaria é danado para a brincadeira (nada que eu já não soubesse) e após ter lido o meu discurso cartesiano sobre o broche tem-me incitado a ir mais longe, até ao minete, passando pelo clássico e unânime (mas não consensual) 69.

 

É claro que eu entendo perfeitamente as razões subjacentes a este incitamento ao aprofundamento de temas badalhocos.

 

Resguardados atrás de nicks imaginativos (às vezes nem tanto, mas o que é que se há-de fazer?), as preclaras e os preclaros são uma espécie de não-pessoas que se divertem à ganância a descobrir até onde posso ir na trilha da javardice – e no seu íntimo estão convencidos de que eu posso ir muito longe.

 

Na verdade, eu não só posso ir mais longe (presumo que já dei provas disso) como sinto que devo ir (mais longe).

 

Acabo de aterrar numa redacção nova, a do Diário de Notícias, muito naturalmente constituída por gente curiosa (uma virtude profissional) e por isso interessada em reunir rapidamente o máximo de informações sobre o recém chegado (eu).

 

A minha chegada ao DN coincidiu com a publicação do «post» sobre o broche, que se tornou um êxito instantâneo junto dos meus novos colegas. Ganhei assim uma sólida reputação de tarado que tenho, a todo o custo, de preservar.

 

Desiludam-se os que esperavam de mim uma apologia do 69. Nada disso. Mantenho relativamente a essa prática uma certa distância crítica, que procurarei fundamentar.

 

No mundo moderno, o romantismo do gesto não se compadece com a absoluta necessidade de nunca dispersarmos a nossa atenção e nos focarmos no que estamos a fazer.

 

Ora o 69 é uma prática radicalmente contrária à focalização. Ou bem que uma pessoa se concentra a chupar a outra como deve ser (e desenganem-se os ignorantes que acham que basta usar a língua como um S. Bernardo para dar satisfação á parceira e praticar um cunnilingus competente) ou bem que tira todo o partido do facto de estar ali a ser chupado, como um principe.

 

Preconizo, por isso, que o 6 seja separado do 9 e as que ambas as coisas sejam feitas de forma sequencial e não simultânea.

 

Há quem defenda que o 69 mais não é do que uma deriva romântica do igualitarismo de índole marxista-leninista, mas o Luciano (que como sabem é o meu guru nestas matérias) desmente vigorosamente essa pista,

 

Garante o Luciano que o bom do Lenine sempre se recusou a fazer 69 com a Nadezhda Krupskaya, argumentando que essa prática era «uma miserável invenção do capitalismo» (cito Luciano citando Lenine).

 

O 69 é uma daquelas práticas que prova a imensa sabedoria do meu amigo (e ex-colega) Valdemar Cruz que percebeu antes de todos nós que, cito, «a unanimidade nem sempre é consensual».

 

Resumindo e baralhando. O 69 é unânime, mas não consensual. Do meu ponto de vista, não é sexo puro e duro mas antes uma delicadeza, um gesto cavalheiresco em tudo similar a levantarmo-nos quando chega uma senhora à mesa - ou abrir-lhe a porta do carro.

 

música: In the hour, Melanie
publicado por Jorge Fiel às 16:03
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Quarta-feira, 12 de Março de 2008

Longa vida aos não-lugares!

A esplanada do Ourigo é um belo sítio para estacionar apesar de não ser um não-lugar

 

Como já devem ter reparado, gosto de conceitos.

 

O último conceito porque me apaixonei foi o dos não-lugares, inventado pelo antropólogo francês  Marc Angé e que designa os espaços de passagem desprovidos de qualquer tipo de identidade.

 

Se eu percebi direitinho a teoria do Marc, os não-lugares são aeroportos, estações de metros e de caminho de ferro, estações de metro e praças de alimentação de centros comerciais.

 

Assim sendo, declaro-me um fanático dos não-lugares. Sou absolutamente doido por aeroportos que considero dos lugares (corrijo,  não-lugares) mais fascinantes do Mundo.

 

È quase afrodisíaca a fabulosa sensação de estar em trânsito, num grande aeroporto internacional, como Heathrow, o JFK,  Frankfurt ou o LAX, placas giratórias de gente que vem ou vai para as mais desvairadas partes do globo.

 

Hergé, o genial inventor do Tintin, pensava o mesmo que eu. Quando morreu estava a preparar uma aventura que tinha um aeroporto como pano de fundo.

 

A excitação da partida ou o conforto da chegada são sensações tão boas que compensam amplamente a maçada de termos de passar nos detectores de metais e sermos apalpados em público porque há sempre alguma coisa que apita.

 

Acho o máximo andar às compras nas «free-shops», mesmo que no final acabemos por não adquirir nada, porque os preços já não são assim tão atractivos e globalização deu cabo das novidades  -  agora as lojas são mais ou menos iguais em quase todo o Mundo.

 

Bem, se calhar estou a exagerar e se procurar bem descobre-se numa prateleira uma garrafa de litro de  Stoli com sabor a frutos silvestres, a 12 euros, - o que não se encontra por cá.

 

As estações de caminho de ferro também podem ser são fixes, se bem que as nossas deixem muito a desejar. Na minha recente estadia em Roma, jantei por duas vezes (a mozarella de bufala era óptima!) no Ciao, o «self-service» do segundo andar da Stazioni Termini, um belíssímo exemplar da imponentemente moderna arquitectura mussoliniana.

 

As nossas estações de caminho de ferro estão muito longe do «glamour» da londrina Victoria Station, da Gare du Nord parisiense ou mesmo da tristemente célebre Atocha.

 

A Gare do Oriente, de Calatrava, é linda de morrer mas é apenas boa para ver - e é má de usar. Os utentes suam em bica e arriscam-se a apanhar uma insolação quando está calor, constipam-se quando está vento e molham-se quando chove. E a proximidade do Vasco da Gama  (já agora alguém é capaz de me explicar porque é que as passagens aéreas continuam fechadas?) não chega para desculpar a pobreza das zonas sociais de espera.

 

Santa Apolónia melhorou um pouco agora que está servida por metro. A ala próxima do rio está melhor, se bem que o novo café seja pequeno demais para uma estação daquela dimensão .- na manhã de domingo estive lá estacionado entre as 7h30 e as 9h30 (aprendi à minha custa que o Alfa das 8h00 para o Porto não se realiza aos domingos) e verifiquei que é muito usada pelo pessoal que passou a noite no Lux.

 

As lojas de jornais e os cafés da outra ala têm um aspecto sujo e muito pouco atractivo. Evito frequentá-los.

 

Seguindo 300 quilómetros a Norte, devo dizer que deposito bastantes esperanças nos resultados das obras que acabam de se iniciar nas Devesas e que fiquei desiludido com o resultado final das obras em Campanhã – a ligação entre a estação de metro e a de caminho de ferro é labiríntica e falta-lhe uma oferta variada de restaurantes de comida rápida e cafés.

 

As áreas de serviço no nosso país são não-lugares bastante modernos e muito atraentes, que não raro substituem as lojas de conveniência (quando teremos em Portugal lojas VIPS como os espanhóis?) para quem quer comprar tabaco ou beber um café fora de horas .

 

Nesta categoria, tenho devo elogiar o «cluster» de restaurantes na área de serviço Discovery de Alcochete, a oferta diversificada da área de serviço Galp na A5 (até tem um Ibis, que, conta quem sabe, tem uma taxa de ocupação superior os 100%) e a bela ideia que foi o lançamento da cadeia de lojas M24.

 

Não há nada que chegue ao anonimato de comer sozinho um menu de sandes Alsaciana e cola «light» na Pans & Company da área de serviço de Oeiras a folhear o jornal enquanto se olha para o trânsito na A5.

 

Longa vida aos não-lugares!

 

 

música: Lay, lady, lay, Bob Dylan
publicado por Jorge Fiel às 19:16
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Terça-feira, 4 de Março de 2008

Discurso cartesiano sobre o broche

O broche é um tema fracturante na minha comunidade de amigos, que se dividem em dois partidos – os que o encaram como um fim em si e os que reduzem o seu papel a uma espécie de auge dos preliminares, a transição para a queca, - ou, dito por outras palavras, o último patamar das hostilidades antes da penetração.

O meu amigo Luciano (1) diz que isso é ao mesmo tempo verdade e um falso problema, uma vez que todas as alturas são boas para ser chupado e quem disser o contrário ou está a complicar ou a armar-se.

Eu acredito no Luciano, que é o meu líder espiritual em matérias de sexo, uma vez que o seu imenso saber neste domínio é camoniano – de experiência feito.

Senhor de uma mente cartesiana e amigo da conceptualização, Luciano divide o broche nas seguintes categorias:

a)     O broche de aquecimento, praticado no âmbito dos preliminares e por isso não levado até às suas últimas consequências, uma vez que o homem, depois de se explicar, observa um período refractário (cuja duração pode oscilar entre 20 minutos e um ano) antes de voltar a estar operacional (o Luciano garantiu-me que essa das duas sem tirar fora é um reles mito urbano);

 

b)    O broche completo, que só termina com a ejaculação.

Há imensas variantes desta última modalidade, sendo que a  mais culta é o broche literário. Nesta categoria, o homem tira partido do facto de ser o único da parelha que não está com a boca cheia e lê em voz alta excertos dos melhores clássicos da literatura erótica, como a Filosofia na Alcova, do bom e velho Marquês de Sade.

Depois, há ainda uma mão cheia de possibilidades relativamente ao local onde deve ser depositado o sémen. Os mais populares são:

a)     A boca, destino popularizado pelo clássico do porno «Garganta Funda», protagonizado pela inesquecível e falecida Linda Lovelace;

 

b)    A cara, solução de recurso para os mais aflitos, em virtude da proximidade geográfica da boca, mas uma hipótese que no caso do gajo ser fedorento pode inviabilizar posteriores manifestações de carinho;

 

c)     As mamas e a barriga, opções honestas e que apresentam a incrível vantagem de não prejudicarem a ocorrência de ternos e apaixonados beijos na boca.  

Os puristas defendem que no verdadeiro broche, o esperma deve ser depositado na boca e engolido. O que levanta uma questão que poderei abordar posteriormente e em separado, sobre a maneira como a nossa alimentação influencia o sabor do esperma.

Os moderados aceitam que o esperma seja depositado na boca mas não engolido, podendo assim ser usado para tentativas de brincadeiras como fazer bolas tipo chiclete.

O Luciano garante que existe um número não negligenciável de mulheres que prefere o broche puro e duro (sendo que esta característica se deve também alargar ao órgão sexual masculino) à clássica queca, acrescentando que isso não tem nada a ver com a «patetada do orgasmo na garganta» (cito sic as palavras dele).

Conta o Luciano que teve uma namorada, que por razões de conveniência designaremos por Laura, que era absolutamente doida por uma modalidade de broche absolutamente radical – o broche em movimento.

Quando os dois iam almoçar ou jantar fora, era certo e sabido que mal o Luciano engatava a primeira, a Laura lhe abria a carcela e começava laboriosamente a chupá-lo com a mestria de uma catedrática do broche.

Felizmente, o meu amigo orgulha-se de ter concluído mais de um ano de intenso namoro com a Laura com uma taxa de sinistralidade zero – ou seja sem sofrer qualquer espécie de acidente rodoviário.

Apenas recenseia um percalço. Um dia, depois de se ter explicado, a coisa deve ter ido para o goto da Laura, a miúda engasgou-se à séria e vomitou tudo (sempre que o tudo incluía o arroz de polvo malandro) nas calças do Laura, que tiveram de ir direitinhas para a máquina de lavar  - ele teve vergonha de as levar à 5 a Sec.

 …………………………………………

(1)  Bem, como presumo que sabem, o Luciano efectivamente não se chama Luciano, eu é que lhe arranjei esta falsa identidade para evitar que ele se chateie comigo e deixe de ser meu amigo

 

música: Sexual healing, Marvin Gaye
publicado por Jorge Fiel às 19:26
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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