Domingo, 29 de Julho de 2007

Memória de números do 128949/77

 

Eu era o 47.  Para me despachar mais depressa, já levava o livrete e o registo de propriedade da minha carrinha Fiat Marea na mão, quando chegou a minha vez de ser atendido no guichet 2 da Repartição de Finanças do 1º Bairro (Porto).

 

Não foram precisos. Nem o livrete, nem o registo de propriedade. A mulher que me atendeu pediu-me o número de contribuinte. Mais nada. Para pagar o Selo do Carro (aka Imposto Municipal Sobre Veículos) basta declinar o NIF (aka Número de Identificação Fiscal) e já está.

 

Bem, não é bem já está. Depois há que cumprir aquela pequena formalidade de pagar, que, no meu caso (automóvel ligeiro, gasolina, 2001, 1596 cc de cilindrada), importou em 50,29 euros, presumo que com as despesas do envio incluídas, porque o selo vai depois ter a minha casa pelo correio.

 

Simples e eficiente. Gostei. A coisa correu bem porque eu tinha o cartão com o NIF na minha bonita e volumosa carteira de couro preto oferecida, em tempos idos, pelo Banco Comercial de Macau.

 

Não sei de cor o meu número de contribuinte. Já fiz alguma reflexão sobre isso e parece-me um pouco estranho que saiba de cor o número de contribuinte da Sojormal (a empresa proprietária do Expresso) e não saiba o meu.

 

Decorei o número fiscal da Sojornal (500 27 18 10) já há bastantes anos, quando estava na moda pedirem-me o NIF da empresa sempre que eu pedia um recibo.

 

Esta inútil reflexão levou-me a fazer um breve inventário dos números que eu sei de cor. Conclui que são poucos.

 

Sei de cor o número do meu BI (32 77 069), mas essa informação é pouco relevante porque quase sempre que ela é solicitada temos de acrescentar a data em que ele foi emitido, e essa eu não a tenho guardada na memória.

 

Sei de cor o meu número de telemóvel (o que já reparei não acontece com toda a gente…) mas fiquei apreensivo por constatar que não tenho gravado no disco rígido da minha memória um único número de telefone fixo (incluindo os do Expresso do Porto e Lisboa).

 

Foi um pouco assustador constatar que não sei de cabeça os números de telemóvel dos meus filhos, Isabel e restante família (declaro como atenuante que cada um deles tem uma tecla de marcação rápida). E apressei-me a culpar a imensa memória dos telemóveis por esta lacuna na minha memória privada.

 

A minha memória ficou preguiçosa desde que me habituei a ter os números essenciais arquivados no telemóvel, o que começa a ser grave por vários motivos e mais um, sendo que o mais um reside no facto de os números no meu Nokia serem mesmo muito pequenos e obrigarem-me a rapar dos óculos de leitura sempre que preciso de os decifrar.

 

Sei de cor dois números que seria uma catástrofe esquecê-los  - os PIN do telemóvel e do cartão Multibanco - mas de resto estou dependente do telemóvel e, por isso, fiquei muito satisfeito quando soube que a TMN passou a disponibilizar um serviço de «back up» destes dados.

 

Também ainda sei de cor o número mecanográfico que o exército português me atribuiu (128 949/77) o que é a prova dos nove de quão estranhos são os mecanismos da nossa memória.

 

Alguém é capaz de me explicar porque é que fiquei com este número inútil tatuado na cabeça?

 

publicado por Jorge Fiel às 09:07
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Domingo, 15 de Julho de 2007

Como eu vivi as Jóias de Castafiore no parque de estacionamento subterrâneo de Pershing Square

 

Foto LA 11 (média)

Legenda

 

Como já me sinto suficientemente à vontade com o povo da lavandaria, vou  partilhar convosco o segredo da minha legendária modéstia. Todos os dias me esforço para fazer figura de idiota pelo menos duas vezes. É o recurso a este truque que me mantém humilde.

 

No penúltimo dia da minha estadia em Los Angeles, após uma longa e cansativa excursão a pé e de metro pela Downtown, Pueblo e Chinatown, fiz figura de idiota perdendo a chave do Ford Focus que aluguei na agência de Glendale da Entreprise - que já estava fechada à hora adiantada a que eu dei pela falta da chaves.

 

Para saber o desfecho desta triste história, que se veio a verificar ser uma repetição desajeitada das «Jóias da Castafiore»» (a melhor de todas aventuras do Tintin) terá que ler pelo menos até meio o último capítulo dos meus diários californianos, onde manifesto ainda a minha perplexidade e preocupação pelo envelhecimento das hospedeiras de bordo, que estão naquela idade em que já têm direito a desconto nos bilhetes de comboio e na entrada nos museus.  

 

 

9 Julho 2007 2ª feira

Downtown LA

 

Foto LA 11 (média)

Legenda

 

O cônsul foi simpático. Ensinou-me um truque que me poupou 30 dólares. Dando meia volta ao quarteirão há uma borla (três horas de estacionamento gratuito) à nossa espera no parque do «shopping» Westfield, em Century City, LA.

 

Para compreender a dimensão da simpatia de Edmundo Macedo devo uma informação ao povo da lavandaria: na garagem privativa do 1802 da Avenue of Stars (onde está instalado o Consulado de Portugal)  cobram três dólares por cada 15 minutos de estacionamento. È ao preço do táxi, só que um pouco mais ecológico, porque o carro ao está parado e por isso não contribui para o aquecimento global.

 

Cheguei ao consulado à hora (10h30) da abertura. Estou em LA sem passaporte e amanhã de manhã cedo parto para Filadélfia. O Consulado Geral de Portugal em San Francisco garantiu-me que na 6ª feira enviara por correio expresso para o Consulado em Los Angeles um documento provisório de viagem que me habilita a entrar nos aviões e no nosso pequeno mas maravilhoso país.

 

Mas às 10h30 o correio ainda não tinha chegado. O cônsul aconselhou-me a ter calma, dar uma volta e a regressar ao meio dia. Eu falei-lhe da minha anterior experiência traumatizante com as tarifas de estacionamento do edifício.

 

Na minha primeira visita ao consulado foi esportulado em 15 dólares por uma hora e meia dúzia de minutos de estacionamento, o que me levou a pensar que um parque em Century City pode ser mais lucrativo que um poço de petróleo no Texas.

 

Depois de uma rápida volta de reconhecimento pelo shopping Westfield (nem bom nem mau, antes pelo contrário) ancorei na Borders. Eu gosto muito da Borders.

 

Entre a Borders (que arruma os livros de mistério e os thrillers na mesma secção) e a Barnes & Noble (que mistura os thrillers na secção de ficção), não hesito um segundo. Não é por acaso que tenho um cartão da Borders.

 

Comprei o guia Frommers de Filadélfia ($18,39) e instalei-me a fazer horas no café Seattle’s Best Coffee (concorrente da Starbucks, cadeia que também nasceu em Seattle, a cidade do Mundo onde tem mais cafés) à frente de um Americano venti ($2,15) -  cerca de meio litro de café muito quente, capaz de me entreter e justificar a ocupação de uma mesa durante quase uma hora.

 

Passava pouco do meio dia quando o cônsul me ligou. O correio tinha chegado com o meu documento de viagem. Uffff. Não ia ser necessário fazer uma qualquer patifaria hedionda em território americano para conseguir para ser extraditado de volta para Portugal. Iria poder regressar a bem. Na legalidade.

 

O segundo andamento do programa do dia consistia numa expedição à Downtown de Los Angeles, que apenas conhecia do genérico do saudoso LA Law (que saudades da querida Grace Van Owen, que na vida real se chama Susan Dey), do fabuloso Steven Bochco.

 

O itinerário que a Mariana imprimiu do MapQuest.com contemplava nove movimentos. Mas resolvi improvisar. Olhei para o mapa e ele garantia-me que a Wilshire Boulevard ligava directamente, sem transbordos de qualquer espécie, Century City à Downtown.

 

O mapa não mentiu. Andei quase uma hora e meia na Wilshire. Os boulevards de LA ridicularizam a avenida da Boavista, reduzindo-a à condição de um beco. E ficou demonstrado que a linha recta nem sempre é a distância mais curta entre dois pontos.

 

Estacionei em Pershing Square, o coração da baixa de LA, e fiz o percurso a pé sugerido pelo guia American Express, de que devo recensear cinco pontos altos:

 

O Grand Central Market (317 S Broadway) . É mágico. Atravessa-se a porta e somos imediatamente transportados a umas centenas de quilómetros a sul e sentimos as cores, os cheiros e os barulhos do México. Tudo isto sem ter de mostrar o passaporte, nem ser apalpado pelos seguranças do aeroporto;

 

O Bradbury Building (do outro lado da rua do mercado) . A fachada de tijolo é correcta mas não mais do que isso. Mas o interior! Bem, o interior já o tinha visto no cinema – mas não me perguntem por favor em que filme que eu não me lembro. Mas ao vivo é qualquer coisa de único inolvidável. É o edifício de escritórios mais bonito que eu vi até hoje.

 

A Los Angeles Central Library. A biblioteca surpreende a orgulhosa elegância com que este conjunto clássico, com as suas fontes, jardim e restaurante, se enquadra no meio dos arranha céus vizinhos.

 

Moca (Museum of Contemporary Art). Para começar o nome. Eu sei que os americanos não tiram o devido partido do espantoso nome deste museu que tem no átrio e entrada uma instalação gigante, de Nancy Rubins, à base de destroços de avião, baptizada de uma forma descritiva com um nome absolutamente extraordinário, que em si mesmo já é uma grande moca – Chas’ Stainless Steel, Mark Thompson’s Airplane Parts, About 1000 Pounds of Stainless Steel Wire and Gagosan’s Beverly Hills Space at Moca (2001).

 

Disney Hall. Desde o Guggenheim de Bilbau que eu sou fã de Gehry. A Casa da Música de LA só veio confirmar a minha paixão pela exuberância dos edifícios riscados por ele Fico com pena se, como tudo indica, acabar por não ser ele a reformular o Parque Mayer.

Posto isto, parti para a nova e inolvidável experiência de andar de metro em Los Angeles. O Tom, recém marido da Mariana, vive em Los Angeles há 15 anos e nunca usou o metro. Argumenta ele que não está interessado em ser apanhado debaixo de terra por um terramoto.

 

Eu compreendo o ponto de vista do Tom. Mas se os lisboetas partilhassem o medo dele o metro de Lisboa andava sempre às moscas. Já agora uma pergunta. Fazem tenções de usar o trajecto Terreiro do Paço-Santa Apolónia? Aguardo respostas.

 

Foi através de um dos filmes da série Speed (eu acho que a Sandra Bullock não é exactamente uma Miss Mundo mas a verdade é que ela tem uma espécie de «je ne sais pas quoi» que me atrai) que tomei conhecimento de existência do metro em LA.

 

Ele existe mesmo. Eu fiz a prova de S: Tomé. Andei nele, para crer. Mas tenho de concordar que a incipiência da sua rede face à enorme dimensão da cidade não evita ao turista a obrigatoriedade de alugar automóvel.

 

Fui de metro da 7 th Street até à Union Station, a porte de entrada no Pueblo, o cadinho onde a cidade nasceu por iniciativa de um capitão espanhol de apelido Feliz. Apesar de não conseguir rivalizar com a Grand Central Station, a Union Station, com as suas linhas estilo Missão, não envergonha LA.

 

Não vi nada que me excitasse durante as duas horas que durou a minha passeata pelo Pueblo. E a famosa rua Olvera (onde está a casa mais antiga de Los Angeles) tem o ambiente adequado à feira de artesanato mexicano que é.

 

Mais uma corrida, mas uma viagem de metro. Desta feita à superfície, no trajecto Union Station-Pasadena. Fiquei-me pela primeira paragem: Chinatown. Em resumo, devo dizer que é muito pouco provável que lá volte.

 

Quando no final da viagem de metro de regresso a Pershing Square, entrei no parque de estacionamento senti-me feliz em antecipar uma sucessão de boas sensações. Sentar-me no assento confortável do Ford Focus, após um passeio de seis horas. Guiar (sem dar trabalho ao pé esquerdo nem à mão direita), a ouvir música, pelas largas e longas avenidas de LA. Tomar um banho duplo (imersão quente seguido de chuveiro tépido a puxar para o frio) no hotel. Beber uma cerveja bem fresca. Ir cear com a Mariana.

 

Estes sonhos foram cortados por um pesadelo. A chave do carro? Esvaziei os bolsos. Revistei metodicamente todas as divisões do meu saco. Nada!

 

Fui-me abaixo. Devo ter perdido a chave ao tirar o lenço do bolso.  De manhã, resolvi uma crise (a do passaporte) mas à noite já tenho outra nova nos braços. Que grande porra!

 

Ando mesmo com galo. Primeiro foi a mala que se atrasou e quando chegou vinha com os fechos estragados. Depois foi o passaporte roubado. Depois os óculos da Fanta partidos. Agora é a chave do carro perdida!

 

A «rent a car» está fechada desde as 18h30. Hoje já não posso fazer nada, Vou ter de esperar que abra amanhã de manhã (às 7h30) e regressar ao hotel de táxi. Ligo à Mariana e digo-lhe que não conte comigo para jantar. O Tom prontifica-se para me vir buscar e faz-me uma sugestão genial. Será que eu já experimentei ver se deixei a chave dentro do carro?

 

Não sei se já leram «As Jóias da Castafiore». Se não lerem, façam o favor de a ler, porque é de longe a melhor de todas as aventuras do Tintin. A história é fácil de resumir. Toda a intriga se desenrola em torno do roubo das jóias do Rouxinol Milanês (o «petit nom» de Bianca) e do casamento dela com o bom do capitão Haddock.

 

No fim, sabemos que afinal não aconteceu nada. As jóias não foram roubadas e a notícia do casamento não passou de um boato propalado pela imprensa do coração, baseado num mal entendido provocado pela surdez do professor Tournesol.

 

A história da chave do meu carro perdida é igual à das «Jóías da Castafiore». Afinal não aconteceu nada. O Tom tinha razão. A chave estava na ignição.

 

 

Foto LA 11 (média)

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10 Julho 2007 3ª feira

Los Angeles-Filadélfia

 

Foto LA 11 (média)

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Não digam nada a ninguém, mas estou a ficar um burguês. Cheguei a Filadélfia por volta das sete e meia da tarde e nem tentei informar-me sobre o comboio para o centro e as ligações por autocarro ou metro para o hotel que reservara na Chestnut Street com a 16th.

 

Meti-me num táxi. Tarifa fixa $26.50. Arredondei para os $30. Além de burguês estou a tornar-me um «tipper».

 

A viagem não teve grande história. No «check in» em LA resolvi cometer a subida estupidez de desafiar as forças do demónio e não pedir um lugar no corredor. A realidade provou a cientificidade da Lei de Murphy – quando uma coisa pode correr mal, vai de certeza correr mal.

 

Correu mal. Atribuíram-me o 8B, bem no meio de uma jovem latina e de uma aeromoça (adoro este brasileirismo) americana e muito menos nova - meu Deus!, agora as hospedeiras estão quase todas na idade de terem desconto nos comboios e nos museus… A que se deverá este envelhecimento do material circulante das companhias aéreas?

 

O meu hotel em Filadélfia tem um nome de ressonância nobre – Club Quarters – e um acesso estranhíssimo.

 

Empurrei a porta da rua e deparei com um pequeno hall apenas decorado por um letreiro informando que o lobby é no segundo andar – e com dois elevadores ao fundo. E os quartos não têm frigorífico o que não me parece adequado aos $130 (mais taxas) que estou a pagar por noite.

 

Munido de um mapa percorri a pé os 16 quarteirões até ao rio Delaware (não é por caso que chamam Front Street à 1 thSt) , depois andei um pouco para trás, até que me decidi jantar na Trimpuh Brewig Companhy  (117 Chestnut Street).

 

Na cervejaria Triumph descobri o prazer de estar sentado ao balcão, a olhar para um jogo de baseball na televisão (o All Stars, que foi em S. Francisco), com os comentários a passarem sob a forma de legendas, enquanto comia «garlic fries» com mostarda de Dijon na ponta e bebia uma «ale» feita na casa e baptizada com o nome do patrão (Chico).

 

A vida, às vezes, pode ser bela.

 

 

 

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publicado por Jorge Fiel às 16:58
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Quarta-feira, 11 de Julho de 2007

Porque é que eu não vi o pôr do sol em Santa Mónica

 

Um mega-estacionamento no meio da praia e um cais com uma Feira Popular acoplada destruíram por completo a bela imagem que eu tinha de Santa Mónica Beach

 

Quer mesmo saber porque é que eu não vi o pôr do sol (nem a Pamela Andersen) em Santa Monica Beach?

 

Eu não vi o pôr do sol sentado num banco de jardim de Palisades Park (aquele belo correr de palmeiras altas que se vê muitos nos filmes), em Santa Mónica Beach pela simples e poderosa razão de que no sábado que dediquei à costa de Los Angeles, o Sol resolveu meter folga  - nicles, nada, niente, DNS (Did Not Show), perdeu por falta de comparência.

 

Posto isto, aí vai o relato do meu primeiro e último (esperemos que não derradeiro) fim de semana em Los Angeles, em que a seguir a um sábado hiperactivo resolvi aceitar o conselho dos Moody Blues («Lazy day/sunday afternoon») e passar  um domingo preguiçoso.

 

O dia do Senhor teve dois pontos altos:

 

1.     A compra de uma pequena máquina de filmar Flip ($150), um pequeno passo para a Humanidade mas um grande salto tecnológico para mim;

 

2.     O visionamento do imperdível e impagável Napoleon Dynamite, de Jared Hess. Tenho a mais absoluta das certezas em como a minha vida nunca mais será a mesma depois de ter visto este filme. «Vote for Pedro»! Se quer perceber o porquê deste dramático  apelo ao voto terá de ver Napoleon Dynamite. Sei que, no fim, ficar-me-à eternamente grato(a). 

 

 

7 Julho 2007 Sábado

LAX-Venice-Santa Mónica-Malibu (LA) 

 

Um dos canais de Venice. Não me importava nada de viver numa destas casas

 

Depois de madrugar (o telemóvel tocou a despertar às seis da manhã) para cumprir um serviço informal de motorista de táxi, transportando até ao aeroporto LAX (é essa a alcunha do Aeroporto Internacional de Los Angeles) uma das convidadas para o casamento da minha filha (a mãe dela), passei o santo dia de sábado numa missão de inspecção às mais relevantes praias de Los Angeles, em Santa Monica Bay, de Venice a Malibu.

 

No final do dia estava habilitado a garantir-vos que, ao contrário do que muita e boa gente pensa, a globalização não é um fenómeno recente, despontado no virar do século.

 

Não. A globalização é literalmente mais antiga que a Sé de Braga e as praias de Los Angeles estão aí para o provar. Eu explico. Quando Deus, ou o Big Bang, criaram o Mundo em geral e a Terra em particular dotaram o nosso distinto planeta de praias.

 

Dito por outras palavras, há praias na China, Brasil, Tailândia, Moçambique, Bora Bora, Estados Unidos, Espanha, Vietnam, e no nosso pequeno e maravilhoso país. Umas são melhores e outras são piores. Mas há praias boas um pouco por todo o lado – até mesmo na Gronelândia se não formos capazes de parar o aquecimento global. E pelo que me foi dado a ver, ao vivo, as praias do sul da Califórnia não são melhores do que as nossas.

 

Vejamos o exemplo de Venice, uma versão americana da Sereníssima, a cidade em que se inspirou, no inicio do século XX, o magnata do tabaco Abbot Kinney quando resolveu promover aqui um gigantesco empreendimento imobiliário dotado com onze quilómetros de canais.

 

A ideia até era curiosa, mas o bom do Mr Abbot não fez as contas às marés que provocaram sérios problemas de esgotos e obrigaram a tapar a maioria dos canais – apenas uma pequena parte sobreviveu.

 

Venice é uma localidade simpática, servida por uma praia que compara com a de Carcavelos, com um pier (cais) de madeira que entra pelo mar dentro, povoado por pescadores (algumas dezenas) e moscas (muitas centenas).

 

A praia tem apontamentos curiosos, como a secção com aparelhos de musculação onde o Terminator se exercitava antes de ter sido eleito Governador da Califórnia, mas no meu rating pessoal está ligeiramente abaixo da de Espinho. A grande vantagem comparativa de Venice é conservar, em especial nas lojas, cafés e restaurantes da praça Windward, o ambiente e cheiros do tempo dos beatnicks.

 

Santa Mónica foi uma enorme desilusão. Cheguei lá com as imagens do Baywatch (Marés Vivas)  na cabeça e deparei com um filme de terror. Um enorme estacionamento automóvel no meio da praia. Uma Feira Popular com montanha russa, roda gigante, carrosséis, algodão doce e lojas de «souvenirs» instalada no célebre Santa Mónica Pier.

E a praia, cheia de gente vestida, tinha um aspecto ainda mais aterrador que a da Póvoa nos fins-de-semana de Agosto.

 

O Palisades Park, tantas vezes revisto em filmes e na televisão, é muito mais estreito e pequeno do que se imagina. E como as nuvens impediram o aparecimento do sol, tive de abortar o meu projecto de ver o pôr do sol sentado num banco deste jardim.

 

Todo o «glamour» de Santa Mónica concentrou-se na Third Srreet Promenade, uma rua comercial fechada ao trânsito automóvel, animada por todo o tipo de artistas de rua, povoada por «beautiful» people (o ambiente desta rua é mesmo como o dos filmes, com sósias da Paris Hilton e da Nicole Ritchie a surgirem de estibordo e bombordo)  e com lojas bestiais.

 

A propósito, informo as preclaras e preclaros que na Third Street Promenade estive numa loja Crocs que estava a aborrotar de gente. Neste momento há óculos Crocs, T-Shirt Crocs, relógios Crocs, todo o tipo de calçado Crocs. È uma cultura. Os Crocs são trendy. Mais nada!

 

Malibu, a terceira e última escala desta minha inspecção às praias de LA, já é outra loiça completamente diferente. Aqui respira-se classe por todo o lado, nas casas, nas praias, nos veraneantes. Olha-se para isto é revisitamos as imagens que se formavam na minha cabeça quando ouvia os Beach Boys.

 

Se me dessem a escolher entre viver em Venice, Santa Mónica ou Malibu não hesitaria um segundo antes de dar a resposta.

 

Depois de um jantar sem história num indiano vegetariano em North Hollywood (a que atribui 12 numa escala de zero a 20), o Tom levou-nos a dar uma passeio de carro que teve com destino Mulholland Drive (que inspirou o filme de David Lynch e a pintura de David Hockney, onde descobri que aquele famosa vista nocturna panorâmica de  LA iluminada como uma árvore de natal não é uma vista – mas sim dus. Há uma vista do Valley (de onde se vêm os estudiso da Universal) e outra de Hollywood.

 

Ambas as vistas são de cortar a respiração. São, sem dúvida, um local adequado para uma declaração de amor.

 

No regresso, o Tom mostrou-nos a antiga casa do Roman Polanski, em Beverley Hills, onde, em 1969, o Charles Mason chacinou a Sharon Tate (que estava grávida) e quatro amigos dela. Uma casa bem agradável num sitio simpático, mas acho que não apreciaria lá viver.

 

É a praia da Póvoa numa tarde de sábado, no Verão? Não, é a praia de Mónica Beach numa tarde de sábado, no Verão

 

 

8 Julho 2007 domingo

Los Angeles 

 

 

Aspecto (bom!) da Third Street Promenade, em Santa Monica

  

Foi um dia preguiçoso. Passei a manhã no hotel a descarregar fotografias no computador, tratá-las no photoshop e a escrever a última entrada destes diários californianos. Seguiu-se um «brunch» (assim é que é pois tratou-se de uma refeição que serviu simultaneamente de pequeno almoço e almoço) no Cha Cha Cha, uma colorida cantina mexicana que em tempos foi muito frequentada pela Madonna.

 

No Cha Cha Cha comi uma espécie de prego em pão, acompanhado por cubos de meloa, melancia e pêra abacate, e empurrado por uma Red Stripe (uma cerveja da Jamaica).

 

À tarde dei um passeio de carro com o Tom e a Mariana. Fizemos duas escalas. Uma no Trader’s Joe, onde adquiri um boneco do Sponge Bob para o João e podia ter comprado uma grande enciclopédia ilustrada sobre mamas.

 

A segunda foi no Best Buy onde procedi a um fantástico «upgrade» tecnológico da minha pessoa ao dar $150 dólares por uma pequena máquina de filmar de bolso chamada Flip que está muito em voga. Vou abrir conta no You Tube e começar a descarregar para lá vídeos como se não houvesse amanhã!

 

Esgotados por este passeio, deitamos abaixo bebemos umas lager no pátio do Red Lion, uma cervejaria completamente alemã (apesar de ter nome de pub inglês) que fica em Glendale, em frente a casa da Mariana e do Tom.

 

Depois recolhi ao hotel onde cumpri mais uma obrigação (escrever e enviar a crónica para o Oje) ao mesmo tempo que satisfazia uma devoção.

 

No trajecto entre o Red Lion e o Best Western Eagle Rock Inn (um nome bastante sofisticado para um típico motel norte-americano) parei no Ralph’s onde comprei um «meatlof» e um par de cervejas Bud Lite, que jantei enquanto escrevia. Porque domingo é dia de assado - «Sunday roast is something good to eat», declaram os Moody Blues em «Sunday Afternoon».

 

Depois do jantar, fui até casa da Mariana e do Tom onde desfrutei de um serão familiar, a ver no DVD (instalação sonora poderosa a do Tom) o Napoleon Dynamite, um estrondoso filme que recomendo vivamente. Viva o Uncle Rico! Viva a Grandma! Abaixo a Summer! Vote for Pedro!

 

«This is how your life goes by

Umtil the day you die»

 

(versos finais de «Sunday Afternoon», dos Moody Blues)

 

Uma praia de Malibu ao fim da tarde

 

publicado por Jorge Fiel às 16:49
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Domingo, 8 de Julho de 2007

Relatório detalhado do dia em que me tornei sogro

 

 

 

A Mariana depois de ter se ter vestido de noiva; à porta do quarto 301 do Eagle Rock Best Western

 

 

O reverendo Nixon foi a figura em destaque no dia em que a Mariana me atirou para o estado de sogro, que tem tanto de irremediável como de lamentável.

 

Depois de uma manhã passada a tentar averiguar (sem sucesso) a utilidade do Consulado de Portugal em LA, empreguei o resto do tempo no casamento da minha filha em Palos Verdes, e na boda, em Sierra Madre.

 

Uma actuação surpresa dos Fatso Jetson e uma comensal que debalde tentou conversar com a posta de salmão que tinha no prato (pretendia saber se ele era do Alaska) foram os pontos altos do evento.

 

No dia a seguir, apaixonei-me por uma flamenga desconhecida, que já está a fazer tijolo há mais de três séculos, e jantei em Hollywood, no El Cholo, um restaurante mexicano onde deixei 22 dólares de gorjeta.

 

 

5 Julho 2007 5ª feira

Century City-Palos Verdes- Sierra Madre (LA)

 

Foto LA10

A matrícula do Ford Focus alugado a 44 USD/dia (todos os seguros incluídos) em que andei a fazer de sogro,  LA acima e LA abaixo

 

Sinto que minha sorte começa a mudar. Depois de, na viagem, terem irremediavelmente destruído os fechos da minha Samsonite e de, no dia seguinte, ter ficado sem o passaporte, a desgraça do de hoje foi de proporções bem menos relevantes.

 

Estou a referir-me ao falecimento dos meus óculos de sol azuis (partiram-se, não sei como!) que ganhei numa promoção da Fanta no Verão passado. Três garrafas de 1,5 litros de Fanta laranja pelo preço de duas, e ainda os óculos de brinde, é absolutamente imbatível. Eu até nem bebo Fanta (mas os meus filhos bebem), mas tratava-se de uma oferta irrecusável.

 

Bem vistas as coisas, os óculos da Fanta portaram-se à altura. Duraram cerca de um ano e proporcionaram-me um belo almocinho no Luca com a Ana Marques, que como é muito querida me ofereceu uns óculos escuros da Ana Salazar metidos dentro de uma garrafa de Fanta vazia.

 

Em honra dos serviços prestados, os óculos da Fanta vão ficar sepultados algures em Los Angeles – muito provavelmente vou esquecer-me deles no porta luvas do carro.

 

O dia de hoje dividiu-se em duas partes. A manhã foi consagrada ao início do esforço para obter um documento de viagem que me permita regressar à pátria.  A tarde e a noite foram integralmente preenchidas pelo casamento da minha filha Mariana.

 

Às nove em ponto da manhã telefonei para o Consulado Português em Los Angeles. Fui atendido por um gravador que debitou, em inglês e em português, uma simpática mensagem. Não, não me tinha enganado no número, estava mesmo a ligar para o Consulado, mas fora da hora de expediente, que se inicia às 10h30 e se interrompe às 13h00. Se eu quisesse deixar uma mensagem… Não quis!

 

Às 11 horas lá estava eu a tocar à porta do nosso consulado em LA, no 1801 da Avenue of the Stars (nome bonito não acham?), em Century City, o outro local além da «downtown» onde os arranha céus marcam a paisagem – um deles foi usado como cenário real para o primeiro filme da série Die Hard.

 

Foi o próprio cônsul que me abriu a porta. Não pareceu satisfeito por me ver. Quando lhe resumi a situação (tinham-me roubado o passaporte no dia anterior no passeio em frente ao Teatro Chinês) ele respondeu: «Temos aqui um drama». Esta frase dele não me sossegou.

 

A cena seguinte desenrolou-se connosco de pé, na acanhada entrada do escritório. Edmundo Macedo (assim se chama o nosso cônsul em LA) confessou a sua enorme impotência. Na Califórnia, apenas o Consulado Geral de Portugal em S. Francisco me podia resolver o assunto.

 

Posto isto, deu-me o telefone do consulado em S. Francisco e disse-me para falar com a Júlia. Peguei no telemóvel e fiz logo a chamada. O Edmundo Macedo parecia apressado, mas eu não queria sair dali a seco.

 

A Júlia foi eficiente. Uma vez que vou sair da Califórnia na terça feira, de manhã cedo, e preciso de um documento oficial de viagem (passaporte é impossível) que me habilite a entrar no avião da US Airways, tinha de fazer chegar até amanhã de manhã os seguintes documentos:

 

1. Exposição com a minha identificação e o relato das circunstâncias em que o passaporte foi roubado;

 

2. Fotocópia da queixa apresentada no LAPD;

 

3. Fotocópia do BI;

 

4. Duas fotografias.

 

Deste pacote apenas as fotos não podiam seguir por fax.

 

No retorno do correio, acrescentou a Júlia, o Consulado Geral de S. Francisco enviaria para o Consulado (particular?) de LA o documento de viagem, que, se tudo correr bem, está lá na 2ª feira de manhã.

 

Com tudo isto combinado, o Edmundo Macedo despediu-se de mim. Fui redigir a exposição, tirar as fotocópias, procurar um sitio para enviar os faxes e uma estação dos correio para mandar as fotografias tipo passe (por acaso tinha duas na carteira).

 

Após as cerca de duas horas gastas a completar esta operação, a minha pobre cabecinha foi invadida por um reflexão: ficar sem o passaporte fica muito caro. Senão vejamos:

 

Estacionamento no edifício do Consulado……………….…  15,00

Faxes ………………………….…… ……………………..    6.00

Despesas Correio Expresso ...............................................   37.90

Custos da emissão do documento ………………................. 13.69

Total: 72.59 USD

  

Refira-se a gentileza dum escritório de latinos, situado no edifício do Consulado de Portugal, que não me cobrou nada pelas fotocópias. E tenha-se em atenção que esta adição não contabiliza nem as horas perdidas, nem o stress – e muito menos a gasolina.

 

Se chegou até aqui e ainda não encontrou a resposta à pergunta: Para que serve o Consulado de Portugal em Los Angeles?, tenho de lhe dar os meus parabéns. Não está sozinho. Eu também ainda não a achei.

 

Despachado este espinhoso dossier pude concentrar-me nos preparativos finais do casamento da minha filha, o que me conduz à segunda grande reflexão do dia: a noção de tempo é completa e absolutamente subjectiva.

 

No início desta odisseia matinal, a Mariana e a mãe ficaram no «hairdresser» Violet & Olga (duas arménias). No final da minha aventura no reino da papelada, elas ainda lá estavam e declaravam precisar de mais «uns 20 minutinhos» - que se revelaram, na realidade, mais de meia hora.

 

Comecei a sentir-me sogro quando, por volta das seis da tarde, comecei a viagem para Palos Verdes a bordo do Ford Focus (modelo com traseira), alugado na Entreprise (olá Star Trek, que saudades!), com a minha filha vestida de noivo no banco de trás.

 

Palos Verdes fica bem a sul de Los Angeles e trata-se daqueles locais em que, se nos perguntassem se nós queríamos mudar para lá, não hesitávamos nem um segundo a responder que sim.

 

A viagem durou mais de uma hora, mas o local para a cerimónia pareceu-me bem escolhido. O casamento foi ao ar livre, num pequeno promontório na escarpa, em cima da praia. Não éramos muitos. Os noivos, o reverendo Nixon, eu e mãe da Mariana, a mãe (Beatrice) e os irmãos (James e Robert) do Tom, o Oceano Pacífico – e ainda o casal Melanie e o Olrik (não sei se o nome dele se escreve tal como o do vilão do Blake & Mortimore, mas pelo menos lê-se da mesma maneira), os amigos do Tom que asseguraram gratuitamente a reportagem fotográfica da cerimónia.

 

Apreciei bastante a figura do reverendo Nixon, que compareceu com um daqueles rádios leitores de CD tipo tijolo que accionava por um comando à distância assegurando assim a banda sonora do evento (a marcha nupcial, quando eu e a mãe da Mariana a levávamos em direcção ao local onde ela deu o nó, e assim por diante).

 

O reverendo Nixon também brilhou a grande altura com a coreografia simples que ensaiou para a cerimónia e o poético discurso que produziu. A coisa correu tão bem que eu até fiquei com vontade de ser casado pelo reverendo Nixon.

 

O casamento foi bem a sul de LA, mas a boda foi bem a norte, no café 322, um restaurante italiano em Sierra Madre.

 

Aqui é que não houve dúvidas. Não só estava oficialmente transformado em sogro («in law», agora sou um «in law», sabiam?) como, ainda por cima, parecia um sogro, a conduzir durante mais de uma hora, através do trânsito do fim do dia em LA, com a minha filha vestida de noiva e o seu recém marido alojados no banco de trás.

 

Durante a viagem, quando não estavam a fumar, davam beijinhos, tratavam-se de «sweetie» para cima e de «sweetie» para baixo, e repetiam «I love you» como se não houvesse amanhã. Valha-nos Deus!.

 

O jantar foi ao ar livre (bom) e ao elenco da cerimónia de Palos Verdes, juntaram-se dois membros de uma das bandas do Tom (ele toca bateria em três bandas!, sabe-se lá porquê em três bandas - é uma das coisas que eu tenho de averiguar…)  e respectivas queridas.

 

Foi um casamento latino.  Noiva portuguesa. Restaurante italiano. Vinho espanhol (bastante razoável e generosa oferta da casa o que foi excelente porque permitiu manter a conta dentro dos três dígitos).

 

O jantar correu bem. A mais estranha ocorrência terá sido o facto de uma das comensais ter sido surpreendida a conversar com a comida (perguntava insistentemente ao salmão se ele era do Alaska, mas, como é bom de ver, a posta parecia muda e recusava-se a responder). Depois do bolo da noiva, e de termos esvaziado o Vintage Quinta das Vargellas 87,  foi o «show time».

 

Os Fatso Jetson (banda de que eu, confesso, nunca tinha ouvido falar, mas parece que tem o seu cartaz) resolveram surpreender os convidados para o casamento da Mariana e do Tom com uma actuação privada. Foi ok!

 

     

 

6 Julho 2007 6ª feira

Santa Mónica (LA) 

 

Hand of a woman, 1654, óleo em madeira (49,2 cm x 38,2 cm), do flamengo Michael Sweerts, Colecção J. Paul Getty Museum

 

 

No «day after», após num «brunch» em família (os sete de Palos Verdes, reverendo Nixon e Ocenao Pacífico obviamente excluidos) o programa foi conjunto e cultural. Passamos a tarde no J: Paul Getty Museum, em Santa Mónica. A sugestão foi o James (irmão do Jimmy) e revelou-se excelente.

 

O Museu Getty começa por surpreender pela sua espantosa localização. Depois é a vez da sua rica colecção nos impedir de fechar a boca. Vale bem o investimento de um dia inteiro. As fantásticas panorâmicas, os jardins (em especial o dos cactos), o Garden Terrace Café aseguram um óptimo intervalo quando os olhos se cansam da arte.

 

A entrada no Museu Getty é gratuita. O estacionamento custa oito dólares, um preço fixo, independentemente do número de pessoas e do tempo que lá passarem.

 

Os lírios de Van Gogh, alguns Cézanne, Renoir, Degas, Goyas, Manets e muitos Rembrandts são as vedetas na área  que mais precio (a pintura).

 

O que mais me apaixonou, pela novidade, foram dois retratos femininos. Um de Marie Frederike von Reede-Athlone at Seven Years of Age (1755), do suíço Jean-Éttiene Liotard, e a cabeça de mulher que abre esta entrada dos meus diários californianos.

 

Após alguma hesitação, decidi-me pela mulher pintada pelo Sweerts. Se pudesse levar para casa um quadro a que nunca tivesse sido apresentado, seria este que escolheria.

 

Impressionou-me muita a capacidade do pintor flamengo em retratar no drama de uma mulher desconhecida, cujo sorriso forçado não consegue dissimular o envelhecimento prematuro de uma cara que foi, sem dúvida, muito bela, mas que uma vida dura e amarga se encarregou de arruinar, como nos conta o seu olhar triste e baixo.   

 

O jantar foi no El Cholo, uma pequena mas bem sucedida cadeia local de restaurantes mexicanos, que se iniciou em Santa Barbara, no longínquo ano de 1922, quando Alejandro Borquez, encantado com a comida preparada pela sua bela noiva Rosa, se virou para ela e lhe disse: «You are such a good cook we should open a restaurant». E se bem o pensaram melhor o fizeram.

 

Aproveito para sossegar os vossos espíritos,. Não sou um seguidor do Pedro Luís Castro (ver «best of» dos Tesourinhos Deprimentos dos Gatos). Não trago as ementas dos restaurantes. Limitei-me a copiar a frase desarmante dita por Alejandro à bela Rosa – e a pedir ao empregado David uma cópia da breve história do El Cholo.

 

Para acabar, fiquem a saber que ter um genro pode não ser completamente inútil. Quando perguntei ao Tom quanto devia deixar de gorjeta, ele ensinou-se um truque infalível: «Double the tax». Lá deixei 22 dólares.

 

Ita missa est

 

(Li no LA Times que o Papa está com saudades da missinha em latim…)

 

 

Pormenor dos jardins dos cactos no Museu Getty

publicado por Jorge Fiel às 10:23
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Quinta-feira, 5 de Julho de 2007

O Darth Vader roubou-me o passaporte em frente ao Teatro Chinês, em LA

Aspecto do Teatro Chinês, em Hollywood Boulevard

 

Não me posso considerar um Gastão. O meu primeiro dia livre na Califórnia ficará todo sempre marcado pelo roubo do passaporte. Fui vítima do lado escuro da Força. De resto, conheci a a agente Juarez do LAPD, fui ver letreiro de Hollywood, andei pela Sunset Boulevard, comprei quatro CDs usados na Ameoba, espreitei o Rodeo Drive, passeei em Melrose, jantei japonês e falhei o fogo de artifício do 4 de Julho.

 

 

4 de Julho 2007 4ª feira

Los Angeles

 

É uma enorme maçada. E começo a desconfiar seriamente que me estou a transformar numa vítima. O que não é nada bom.

 

Há pouco mais de um mês, o Fisco bloqueou-me as contas bancárias (o plural é usado apenas para conferir um extra de dramatismo à frase, pois na verdade só tenho uma conta bancária) durante uma semana por causa de uma insignificante e duvidoso dívida de IMI.

 

A minha empedrada vesícula agarra-se desesperadamente à vida,  revelando-se uma feroz sobrevivente.

 

Ontem, o pessoal que maneja as malas nos aeroportos de Filadélfia e/ou LA deu cabo dos fechos da minha Samsonite.

 

Hoje, alguém, presumivelmente um carteirista disfarçado de Darth Vader, roubou-me o passaporte na confusão de turistas em frente ao Teatro Chinês, em Hollywood Boulevard.

 

O infausto acontecimento deve ter ocorrido entre o meio dia e uma hora, quando eu me afadigava a fotografar as inscrições, autógrafos e marcas das mãos que actores famosos (como Judy Garland ou Humphrey Bogart) deixaram gravadas no cimento, em frente ao célebre Teatro Chinês.

 

Só dei pela falta do passaporte um pouco mais adiante, depois de investir uns 70 dólares em «tacky» (foleiros) «souvenirs» - T-shirts, magnetos para o frigorifico, postais, porta-chaves, etc – numa loja de recordações.

 

Estranhei que estivesse aberto o fecho eclair do bolso exterior do meu saco de ombro Aldo, de couro preto. Senti um calafrio quando meti lá dentro a mão e só senti os papéis do e-ticket, seguro de viagem e plano de voo. O passaporte tinha desaparecido.

 

Recapitulando os acontecimentos, estou convencido que o roubo se deu na enorme confusão de turistas que se aglomeram em frente ao Teatro Chinês.

 

O Tom, que amanhã ascende à categoria de meu genro, está convencido que o autor do roubo pode ter sido um tipo vestido com um fato de Darth Vader. Também andavam por lá o Shrek, o Rato Mickey e outro pessoal da corda, todos vestidos a rigor. Aparentemente, alguns destes pândegos  arredondam os dólares ganhos posando para fotografias com os turistas, aliviando-os de alguns dos seus bens.

 

No meu caso, o carteirista deve ter sido enganado pela textura do passaporte. Deve-o ter subtraído convencido que se tratava de uma carteira. É a única explicação que arranjo, pois acho que o meu passaporte digital não lhe vai servir para absolutamente nada. Penso que é impossível de falsificar, pelo que é desprovido de valor comercial.

 

Como aqui hoje é feriado (o 4 de Julho celebra a independência dos EUA), o único movimento que pude fazer foi reportar a ocorrência numa esquadra da LAPD, onde fui recebido por uma bonita polícia chamada Juarez, que tomou conta da queixa, não sem me fazer perguntas estranhas (quis saber quanto eu media e pesava, mas o interesse no meu físico desajeitado não era pessoal, já que estas informações ficaram registadas na queixa) e declarar que achava «very funny» a grafia da palavra «portuguese» (ainda estou para perceber porquê, mas a moça divertiu-se à brava com isso).

 

Só vos digo que ficar sem passaporte e sentir-se um incauto é uma grande chatice que me estragou um dia começado com uma expedição até ao mais perto que se pode chegar do famoso letreiro com as letras Hollywood a branco – têm 13 metros de altura cada uma, primitivamente foram lá colocadas como promoção a um empreendimento imobiliário (Hollywoodland) e o H serviu de cenário ao patético suicídio de uma candidata a actriz aborrecida de morte pelo facto de não conseguir deixar de ser candidata.

 

Ao volante do seu Honda (sim, ele tem um carro japonês) o Tom andou disfarçado de guia turístico, mostrando aos futuros sogros algumas das casas mais bonitas de Hollywood, Melrose e Beverley Hills - Rodeo Drive incluído.

 

Fizemos diversas escalas. A fatídica em Hollywood Blvd, junto ao Teatro Chinês, mas também na Amoeba, em Sunset Blvd, que é provavelmente a maior loja de venda de CD, DVD, posters, etc, em primeira e segunda mão.

Para vosso governo, deixo aqui registada a minha lista de compras de CD (todos usados):

 

I’m with stupid, Aimee Mann, USD 6.99

The very best of Lisa Loeb, Lisa Loeb, USD 7.99

Pictures at an Exhibition, Emerson, Lake and Palmer, USD 7.99

All Things Must Pass, George Harrison, USD 16.99

 

Passamos o fim de tarde, em casa da Mariana e do Tom, em Silverlake (com vista para o enorme reservatório de água que dá o nome à localidade), a fazer um bocado de sala com a Beatrice e o Robert (a mãe e o irmão do Tom, que chegaram hoje de New Orleans onde vivem) enquanto bebíamos um Merlot californiano e petiscávamos cubos de provolone e feta.

 

Antes do jantar tardio no Octopus, um excelente japonês em Burbank (a localidade de onde a CBS transmite o Tonight Show with Jay Leno), ainda dormi um par de horas.

 

Devia ter tomado Viagar para prevenir os efeitos nefastos do jet lag  - na Califórnia são menos oito horas que em Portugal.

 

(isto do Viagra é uma espécie de «private joke», a evocação de um assunto debatido há algumas semanas atrás na lavandaria, em cima da notícia de que ratos a quem tinha sido administrado Viagra recuperavam melhor do jet lag do que os outros). 

 

Como o tempo está excessivamente seco, as autoridades proibiram o lançamento de fogo de artifício em Burbank, com medo dos incêndios. Falhei, por isso, os «fire works» que habitualmente sublinham o 4 de Julho.

 

Amanhã é um dia importante. A Mariana casa-se e eu vou iniciar a minha tentativa de arranjar um documento que me permite regressar a Portugal.

 

 

O que John Wayne escreveu no cimento

 

publicado por Jorge Fiel às 08:04
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Quarta-feira, 4 de Julho de 2007

Como eu fui obrigado a fazer de Vanessa Fernandes no aeroporto de Filadélfia

 

A Mariana tal como a encontrei à chegada a Los Angeles, no Starbucks do aeroporto, enquanto esperávamos pela chegada da minha Samsonite

 

Relato de um dia longo de 27 horas, começado em S. João do Estoril e concluído em Pasadena, em que reencontrei a minha filha Mariana (que está noiva, e vai casar dentro de dois dias), usei um «upgrade» do método William Hurt para rechaçar chatos, conheci a Débora (do restaurante Capote, na Horta), fiz o triatlo no aeroporto de Filadélfia e sofri por causa da minha Samsonite que viajou num avião diferente do meu e chegou seriamente danificada, mas com o precioso conteúdo em ordem.

 

 

3 de Julho 2007  3ª feira       

Lisboa-Filadélfia-Los Angeles

 

Foi um dia longo. Quando acabei de jantar o Burger Special of the Week (o Cowboy Burger, com garlic fries), empurrado por uma cerveja Blonde da casa, no pátio do Gordon Briersche, em Old Pasadena, ainda faltavam uns minutos para meia noite, mas passavam mais de 27 horas desde que me levantara às 5h45.

 

Um dia longo, em viagem, é um dia rico, em peripécias. Comecei-o com um grande rigor orçamental. Se uma pessoa não se põe a pau, as despesas laterais encarecem - e de que maneira! - o preço da viagem.

 

Vai daí usei o comboio (1.60 euros) entre S. João e o Cais do Sodré, onde peguei no autocarro 44 (1.30 euros) para chegar á Portela. Um operação que durou exactamente uma hora e meia.

 

O lugar 18D, na coxia, que me foi atribuído no voo US 739 com destino a Filadélfia, correspondeu ao meu pedido no check in (corredor ou fila de emergência), o que foi bom. O espaço de que dispomos é essencial num voo de sete horas.

 

Foi há cerca de dez anos, algures sobre os céus da Tailândia, que me apercebi da importância vital do pessoal do «check in» no conforto pessoal dos passageiros. Apesar dos sorrisos que dispensei à menina do «check in» constatei que lhe cai nas suas boas graças quando dei por mim, no avião da Lufthansa que voava de Banguecoque para Frankfurt, acomodado no meio de uma multidão de tailandeses que não faziam qualquer cerimónia em produzir ruídos por todos os orifícios relevantes do seu corpo (isto é, ressonavam, arrotavam e emitiam traques).

 

A rapariga alemã do «check in» tinha pacientemente erguido, no interior do avião, um muro invisível que separava, na classe turística, os arianos (em particular as frescas, leves, brancas e louras arianas) do pessoal com a pele mais escura, onde eu fui naturalmente fui incluído.

 

Na sequência deste episódio passado (que confirma a eficácia e a mania da organização dos alemães), dei por mim a dar graças por ter nascido em 1956, em Portugal, e não 30 anos antes, no centro da Europa.

 

Concluído este flash back, regresso ao voo US 739 para Filadélia que partiu a horas e decorreu calmamente.

 

Uma pessoa pede (e obtém) um lugar no corredor, mas isso não significa necessariamente que possa repousar. O sossego da viagem depende também das pessoas que sentaram ao nosso lado (neste caso, o melhor é não estar ninguém).

 

Aterrado na fila 18, verifiquei com alguma apreensão que iria atravessar o Atlântico Norte acompanhado por uma jovem mãe e dois filhos:  uma menina de colo e um rapazola de três anos.

 

No filme Turista Acidental, o William Hurt usava um livro, em que se concentrava (mesmo que não o estivesse a ler) como protector contra os vizinhos chatos que querem paleio. O iPod possibilita um fantástico «upgrade» do método contra companheiros de viagem insuportáveis.

 

Pelo sim pelo não, meti os auscultadores brancos e comecei a viagem a ouvir o Champs Elysées,  de Joe Dassin,  Orange Crush, dos REM., e a Balada do Tribunal, dos Moderados de Paranhos.

 

Os meus receios face aos vizinhos revelaram-se infundados. Tratava-se de uma parte dos Silva Ventura, que possuem o famoso restaurante Capote, na Horta, Faial.

 

Eu nunca fui ao Faial, e no capítulo da restauração apenas tinha ouvido falar do Peter, mas a Débora (assim se chama a jovem mãe) convenceu-me em absoluto da excelência da cozinha (o goraz à basca, com um molho de azeite e alho é o prato vedeta) e do sucesso do seu restaurante.

 

Débora viajava com destino a Raleigh, na North Carolina, onde está emigrada a mãe dela, que ia ver pela primeira vez os seus netos Ana Luísa (ano e meio) e o Ricardo, três anos, que se comportaram de uma forma impecável durante as sete horas da viagem transatlântica, abstendo-se de serem tão barulhentos e irrequietos quanto a idade lhes permite.

 

Os problemas começaram a surgir quando aterrei às 13h22 (hora local) no Philadelfia International Airport.

 

Não era preciso ser um génio para antecipar dramas, dado o reduzido tempo de escala contemplado no meu plano de voo. O voo US 1421 de ligação para Los Angeles tinha a partida marcada para as 14h30.

 

Pouco mais de uma hora parecia-me pouco tempo para vencer todas as formalidades da chegada a território norte-americano. A realidade deu-me razão. Era efectivamente muito pouco tempo.

 

Quando às 13h40 ocupei o meu lugar na bicha para a emigração, fiz as contas e vi a minha vida toda a andar para trás.

 

Estavam à minha frente mais de 20 pessoas, o funcionário demorava três minutos em média a processar cada estrangeiro (passar o passaporte no scanner, resmungar umas perguntas sobre o objectivo da viagem, pressionar o indicador esquerdo, depois o direito, verificar com atenção o preenchimento do formulário verde, e carimbar o passaporte).

 

Era só seguir o conselho de Guterres e fazer as contas. Vinte pessoas vezes três minutos é igual a uma hora. Só iria conseguir desembaraçar-me da operação às 14h45. O voo para Los Angeles já era.

 

A minha sorte foi que às duas em ponto abriu um novo balcão, ao lado do meu. Iniciei com uma corrida furiosa em direcção ao novo balcão uma meia hora de golpes sujos e baixos contra a Humanidade e a democracia nas fila. Cheguei em quarto lugar.

 

Poupo-vos os pormenores degradantes. Não foi bonito, mas em pouco mais de 20 minutos parti do Terminal A, venci uma série de obstáculos (fazer a alfândega da bagagem de porão, ver o cartão de embarque e o passaportes reexaminados, passar a bagagem de mão no «scanner» de segurança, descalçar-me, tirar o cinto e ser apalpado dos pés à cabeça), e respectivas bichas e cheguei à porta B11 à hora exacta da partida do avião 14h40. O embarque já tinha fechado, mas deixaram-me entrar. Eu tinha conseguido. Senti-me uma espécie de Vanessa Fernandes a cortar a meta quando me sentei no lugar 22 C e estiquei as pernas (estava na fila de emergência)

 

Eu consegui entrar para o avião, mas a minha bagagem não. Quando aterrei em Los Angeles após um voo sem história, confirmei o que já suspeitava. Em Filadélfia, eu tinha sido bastante mais expedito que a minha mala.

 

Apresentada a reclamação, resolvi ir esperar, duas horas, num Starbucks, com a minha filha Mariana e o seu «fiancée» Tom, a chegada do voo seguinte da US Airways proveniente de Filadélfia.

 

Mal avistei a minha Samsonite (cinzenta, «hard cover» e com rodinhas, comprada há cinco anos em Seul, por 100 dólares) a evoluir no tapete das bagagens senti um calorzinho por dentro.

 

Mas a história da minha mala não teve um final completamente feliz. A Samsonite chegou ferida - espero que não de morte. Um dos fechos do fecho «eclair» tinha desaparecido. O outro vinha partido.

 

Nem tudo correu mal. Lá dentro estavam intactas as minhas prendas para os noivos:  

 

a)     uma garrafa de Porto Vintage 87 da Quintas das Vargellas;

 

b)    uma gravura do brasileiro Piza devidamente emoldurada:

 

c)     um cachecol e um boné da Selecção Nacional de futebol;

 

d)    a camisola oficial do FC Porto para a época 07/08, o cachecol comemorativo da meia final da Champions Deportivo-FCP e uma caneca azul decorada com o emblema dos dragões;

 

Apesar de já ser fim do dia estar no fim, ainda está muito quente em LA. Depois de um banho, no Eagle Rock Inn da Best Western (o motel onde estou instalado fomos jantar a Pasadena.

  

publicado por Jorge Fiel às 16:46
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Segunda-feira, 2 de Julho de 2007

Jenna Jameson e a problemática das vaginas sugadoras

 

Há coisas na vida para as quais não é fácil obter resposta. Mesmo procurando no Google.

 

Um dos assuntos que mais me preocupa neste momento é o facto de ainda não ter encontrado resposta para a judiciosa pergunta:

 

Por que é que a Jenna Jameson vai fazer uma vaginoplastia?

 

Chegado aqui, sinto que preciso explicar algumas coisas, partilhar conhecimentos que fui adquirindo pelo caminho e que tenho todo o gosto em socializar com o povo da lavandaria.

 

Vocês perguntam:

 

Quem é a Jenna Jameson?

 

E eu respondo:

 

A Jenna Jamesom, 33 anos, californiana, é a mais famosa actriz porno da actualidade. Consultei a entrada dela na Wikipedia e fiquei absolutamente impressionado com a quantidade de prémios que a boa da Jenna já amealhou ao longo de uma carreira curta (debutou em 93, com a bonita idade de 19 anos) mas impressiva e recheada de sucessos.

 

Eu só tomei conhecimento da existência da Jenna através de uma circunspecta notícia no Público que anunciava o seu projecto de ser submetida a uma vaginoplastia.

 

Como a notícia não explicava nem o porquê da vaginoplastia, nem tão pouco o resultado pretendido, passou-me pela cabeça (apenas durante uma fracção de segundo) escrever uma carta a queixar-me do (não) sucedido ao Provedor do Leitor do Público.

 

Em boa hora desisti dessa ideia. O Rui Araújo é uma óptima pessoa mas é, também, um chato de primeira apanha e com toda a certeza dedicaria pelo menos duas páginas do diário do Belmiro (que tão precisado anda de as ocupar com publicidade e não com baboseiras)  a dissecar o problema e a enxofrar o juízo aos desgraçados dos meus colegas que directa ou indirectamente estiveram ligados à publicação da pequena nota sobre a vaginoplastia da Jenna, que, concordo, é mais importante para a Humanidade  que a adiada ablação da minha empedrada vesícula.

 

Não fiz queixa. Decidi ser positivo e procurar a resposta na Net. Não a encontrei, mas fiquei a saber que muita coisa mudou no mundo da pornografia desde a última vez que eu tinha andado a vasculhá-lo.

 

O factor idade não perdoa. Eu tinha parado no tempo da falecida Linda Lovelace, vitima de uma cirrose, o que me leva a interrogar sobre se o álcool será menos pernicioso para o fígado que o esperma.

 

Aproveito para dar algumas informações úteis. O esperma corre à velocidade de 18 km/hora e é quimicamente composto por água, muco, proteína, ácido cítrico, frutose, sódio, amónia, cálcio, dióxido de carbono e colesterol. Divulga isto em beneficio das preclaras (e dos preclaros que eventualmente joguem no outro time) pois manda a prudência que se deve conhecer bem tudo quanto se mete na boca.

 

Fechado este parêntesis de serviço público, confesso que sim, que, como era inevitável  há alguns anos atrás, tropecei na mama que a Cicciolina fazia questão de ter sempre em exibição.

 

Mas a Cicciolina (que, aproveito para esclarecer, nunca povoou o meu imaginário) é uma cidadã sénior, com idade para ter descontos nos comboios e nos museus. Visitou o Salão Erótico de Lisboa, declarou-se aposentada e para conseguir umas linhas nos jornais revelou que tinha feito sexo com um animal.

 

Presumo que não se referia ao ex-marido Jeff Koons, artista plástico responsável pelo magnífico e enorme cão que guarda a entrada do Guggenheim de Bilbau e que está representado no Museu Berardo (não sei o que parecia escrever alguma coisa neste altura e não falar do meu amigo Joe).

 

Mas, voltando à vaca fria, a Jenna é um pedaço do «american dream» feito realidade. Mal completou uns 18 viçosos aninhos, foi para Las Vegas com o objectivo de se tornar bailarina. Falhou por dois centímetros. Não tinha os 1m75 que são o mínimo exigido na Cidade do Pecado e foi rejeitada.

 

Mas ela não é pessoa para se ficar. Enveredou por ser «stripper» uma profissão que a catapultou para uma carreira no cinema como «Porn Queen». E há dois anos deu mais um passo seguro e decisivo no sentido da consagração, urbi et orbi, com a publicação da sua autobiografia - «How to Make Love Like a Porn Star: A Cautionary Tale» - um New York Times «best seller».

 

O livro vai ser adaptado ao cinema e a nossa Jenna, mulher esclarecida (é uma das mais frenéticas e proeminentes apoiantes da campanha presidencial de Hillary Clinton à presidência), já fez saber que faz questão que o seu papel seja interpretado pela Scarllet Johansson. Só posso aplaudir o bom gosto evidenciado pela Jenna com este «casting».

 

Mas o que interessa é que ela vai fazer uma vaginoplastia e eu continuo sem saber qual o resultado pretendido.

 

A primeira ideia que me veio à cabeça foi a de que o uso intensivo da vagina a que a sua profissão obriga, tenha tornado os músculos intra-vaginais da Jenna muito lassos – e que a intervenção cirúrgica se destine a enrijecê-los.

 

Mas depois pensei melhor e conclui que não pode ser. Essa hipótese contraria o princípio básico do exercício físico. Quando mais usados forem os músculos da vagina, mais eles deviam estar aí prontinhos para sugar com competência as pilas aventureiras.

 

Então por que é que ela vai fazer uma vaginoplastia? Alguém é capaz de me esclarecer?! Ou será que tenho de ver intensivamente a série «Nip and Tuck» na esperança de que um episódio aborde este magno e candente problema e faça luz no meu espírito?

 

 

A todo o bom povo da lavandaria

 

All my bags are packed, I’m ready to go. I’m leaving on a jet plane, but I know when I will be back again ( the 14 July). Parto amanhã em direcção a Los Angeles, Califórnia. Não vou na vã tentativa de esclarecer esta dúvida pessoalmente com a Jenna. O que me faz mover é o subido objectivo de me tornar sogro. A minha filha vai casar-se com um cidadão norte-americana. É a globalização. Conto manter aqui um diário da minha viagem (assim os meus colegas da secção do Expresso Multimédia estejam pelos ajustes de se dar ao trablho de meter fotos e textos que vou mandar todos os dias por email).

 

So long

 

PS. Para não me desgraçar financeiramente com uma astronómica conta de «roaming» na Net, vou abster-me de comentar os vossos preciosos comentários ao longo das duas próximas semanas.

publicado por Jorge Fiel às 07:56
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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