Sábado, 24 de Fevereiro de 2007

Uma empregada de mesa chamada Sugar que é a rainha do karaoke

 

Neste momento já não tenho dúvidas. A frase «só visto, porque contado ninguém acredita» foi inventada por uma pessoa que foi a Las Vegas e precisava de relatar aos amigos a experiência.

 

Em mais nenhuma outra cidade do Mundo se pode estar no mesmo dia em Veneza, Nova Iorque e Paris. Ou jogar «caribeann poker» a menos dez metros de distância de um leão. Ou ser servido à mesa por uma empregada chamada Sugar que imita na perfeição Petula Clark em «Downtown».

 

Estou obviamente a falar-vos de uma cidade em que de meia em meia hora há um casamento - e um divórcio a cada 45 minutos. «At the end of the day», o balanço é positivo. Viva Las Vegas! 

 

 

3ª FEIRA 13 FEVEREIRO

Passar a tarde com os descendentes de Leo, o leão da MGM

 

Passei a manhã a ver montras nas estreitas ruas de Veneza, com os canais (350 metros deles) a serem permanentemente sulcados por gôndolas manobradas por incansáveis bardos com as camisolas às riscas. Almocei pizza num restaurante na Praça de S. Marcos. O fantástico de tudo isto é que nunca na minha vida pus os pés em Veneza. Fui apenas uma única vez a Itália (o que, eu sei, é lamentável) e não sai de Roma. Estava no Venetian, o hotel-casino ( ou será mais correcto escrever casino-hotel?) de Las Vegas que recria o ambiente da Sereníssima.

 

A seguir ao almoço apreciei os belos frescos (emoldurados a ouro, esta gente não brinca!) do tecto, os mármores, o magnífico desenho das carpetes, e dei uma saltada ao Guggenheim Hermitage, onde estava uma exposição de fotografias de Robert Mapplethorpe e de gravuras maneiristas. O matrimónio era atraente mas deu-me para a fonice e achei o preço da entrada excessivo (15 USD) pelo que me fiquei pela loja do museu. Mais depressa daria os 15 dólares para ver a exposição de fotogarfias do Ansel Adams que está no Bellagio e tem o título genérico America.

 

Não demorei mais de 15 minutos a viajar de Veneza até Nova Iorque, o casino-hotel (ou será mais adequado escrever hotel-casino?) que cometeu a fantástica proeza de reunir num só quarteirão a Estátua da Liberdade, o Empire State Building, a ponte de Brooklyn,  Chrysler Building e a famosa montanha russa Cyclone, de Coney Island, imortalizada por Woody Allen.

 

Em Las Vegas é assim mesmo. Uma pessoa tão depressa está em Nova Iorque, como resolve atravessar a Strip por uma passagem superior e entra no MGM Grand, o hotel-casino (vamos fixar-nos nesta formulação) que tem como principal atracção gratuita a sua colónia de leões - que convivem numa imensa sala com as roletas, as mesas de pano verde e as slot machines.

 

Juram que todos os leões, mais de 20, são todos eles descendentes do Leo, o famoso leão da Metro Goldwyn Meyer. Nesta visita aprendi uma data de coisas sobre leões. Que dormem entre 18 a 20 horas por dia. Que apenas passam 15 semanas na barriga da mãe (nós demoramo-nos por lá 39 semanas, em média). Que quando estão satisfeitos rosnam hummmm e purrrrrr - e esfregam a cabeça uns nos outros. Que o rugido deles se ouve a sete quilómetros de distância (ou seja na outra ponta da Strip).

 

Quem olha para os leões pensa logo na Roma antiga, onde os cristãos eram atirados às feras. Por isso, recuei no tempo até à Antiguidade Clássica. Fui jantar na esplanada do The Palms, no Caesers Palace, com vista para a Fontana de Trevi. Escolhi um Filet Migon de 14 onças, «rare», empurrado por dois copos de Marques de Riscal tinto. 45 USD.

 

 

4ª FEIRA 14 FEVEREIRO

Um bailado aquático com mil repuxos ao som de Pavarotti

 

Ernesto, o motorista preto do Strip Trollye, é senhor de um repertório de piadas bastante satisfatório. Quando aproveitava uma paragem no «Strip Loop» para se ausentar (presumivelmente para um xixi ou um cigarro) declarava à volta, com um ar divertido: «I'm black. And I'm back!».

 

Sempre que um casal se preparava para entrar no autocarro, com a senhora à frente como é dos livros, ele anunciava: «'Morning M'dam. Today we have a special. You don't pay. Your husband pays the double». E assim que terminava a risota regulamentar, atirava um «Happy Valentine!» (era o Dia dos Namorados) e oferecia à senhora um candy».

 

O motorista é um cromo, que sabe adoçar as longas paragens nos engarrafamentos ficcionando histórias sobre as suas quatro ex-mulheres que, diz ele, andam a dar a volta ao Mundo à custa dele, que anda a dar voltas à Strip para lhes pagar a ensão de alimentos - após o que fazia o inevitável trocadilho («alimoney» e «all the money»). Em Vegas, até os motoristas de autocarro têm de ter uma costela de «entertainers».

 

Almocei uma sanduiche de »turkey breast», com «swiss cheddar» derretido, acompanhada por «onion rings» e uma Bud lite, no Lucky's Café, o «diner» do Stratosphere. A empregada chamava-se Sugar e cantava como uma rainha. Um dos requisitos para arranjar emprego neste «diner» é ter talento para o canto, já que nos intervalos de servir à mesa os empregados passeiam-se pela sala, de microfone na mão, interpretando em karaoke grandes êxitos da pop e do rock.

 

Depois subi à torre do Stratosphere, o ponto mais alto de Las Vegas, onde se desfruta de uma formidável panorâmica da extensão da cidade que foi plantada no meio do deserto. De cortar a respiração era não só a vista mas também as diversões do tipo feira popular instaladas lá em cima, a 275 metros de altura.  A mais espectacular de todas era uma carruagem idêntica às da montanha russa que era lançada a alta velocidade, em plano inclinado, para o abismo, imobilizando-se depois, abruptamente, no vazio, seguindo-se um ligeiro deslizar que arranca o último grito das gargantas aterrorizadas dos imprudentes que se dispuserem a pagar para correrem o risco de sofrer um ataque cardíaco. Só de ver, a brincadeira metia medo.

 

O hotel-casino Alladinn (onde as Mil e uma Noites são o tema) oferece uma diversão bem menos radical e mais em conta (é de borla). Trata-se de um tempestade tropical que se realiza todas as horas certas num cruzamento da Desert Passage, talvez a galeria comercial mais interessante da cidade (há lá uma loja que vende, a 35 dólares, T Shirts de um verde magnífico, acompanhados de um certificado garantindo que a cor foi obtida com tinta proveniente da destruição de notas de dólar postas fora da circulação!). O céu pintado no tecto da galeria começa ficar mais escuro, depois é iluminado pelos raios, ouve-se o barulho da tempestade lindissimo, e por fim chove. Mas chove mesmo! É espectacular.

 

Nao menos espectacular foi deliciar-me com o bailado aquático proporcionado pelos mil repuxos do lago do Bellagio, com a água a ser lançada a mais de 70 metros de altura e tendo Pavarotti como banda sonora.  Vi os repuxos aquáticos confortavelmente instalado numa esplanada do Paris, na base da Torre Eiffel, a beberricar uma Miller Lite (5 USD).

 

A noite continuou sob o signo da água. Fui ver ao teatro do Bellagio (uma sala copiada da Ópera de Paris) o mega-produção O (ler ô, de eau, água em francês) do Cirque du Soleil, que se desenrola no mais fabuloso palco que já vi em toda a minha vida, com sete elevadores hidráulicos que fazem baixar e elevar o nível da água, proporcionando saltos e acrobacias para as quais não existem no meu vocabulário adjectivos adequados para os qualificar. O preço da entrada correspondia plenamente à categoria do espectáculo e faltam-me também as palavras para o caracterizar.

publicado por Jorge Fiel às 16:37
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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