Sábado, 22 de Outubro de 2011

Uma noite no aeroporto de Frankfurt

 

Eram 21h10, hora local, quando, proveniente de S. Petersburgo, desembarquei no aeroporto de Frankfurt onde tinha de passar a noite, porque o meu voo de ligação para Cracóvia só partia na manhã seguinte, às 8h30.

Podia ter reservado um quartel de hotel, mas imediações do aeroporto ou mesmo na cidade, mas estes tempos terríveis obrigam-nos a contenção nas despesas.

Resolvi acampar no Terminal A, apesar de ter sido informado da existência de melhores cadeiras no B pela menina da Lufthansa que consultei a propósito – e que me sossegou sobre a legalidade do projecto de poupar uma noite de hotel : “Pode ficar a dormir onde quiser”.

Decidi-me a pernoitar no Terminal A após uma consulta do quadro de partidas (o B tinha movimento durante toda a noite enquanto o A era muito mais sossegado, pois não tinha voos entre as 23h00 e as 6h00) e ter percebido que se fosse para o B tinha de ser mais duas vezes apalpado (faço sempre apitar os detectores de metais).

Montei escritório numa mesa da porta 21, e comecei a matar tempo lendo com vagar as edições do dia do Financial Times, International Herald Tribune, Wall Street Journal e  USA Today (que dedicava uma página didáctica às mulheres que querem trocar de cabeleireiro, desaconselhando o uso da desculpa gasta de que vão viver uma temporada para a Europa), a ouvir música do meu iPod para não ter de ouvir a televisão que estava sintonizada na emissão em língua alemã da Deutsche Wella.

Assim que acabou o movimento e passou a brigada da limpeza, instalei-me na minha cama (ver foto que abre este post), com o meu saco de mensageiro da Aldo a servir de almofada, o encerado Barbour de cobertor (não sei bem explicar porquê a temperatura ambiente baixou um bocado), os auscultadores Bose a calafetar os ouvidos e o iPod sintonizado para passar aleatoriamente canções do Leonard Cohen.

Acordei por um pouco depois das 4h30. Ou seja, dormi umas boas quatro horas. Depois de me espreguiçar, fui à casa de banho (que, como não podia deixar de ser, cheirava a pêssego) lavar a cara e os dentes, pensando, enquanto olhava para o espelho nas vantagens de ser careca –  se não fosse, estava todo despenteado.

O Terminal A estava a acordar, com a chegada dos passageiros para os voos das 6h00, quando dei o meu passeio matinal para desentorpecer as pernas e fazer horas.

Não foi uma noite santa, nem dormi o sono dos justos, mas foi um pouco melhor do que estava à espera, tendo para isso contribuído as fantásticas condições do aeroporto de Frankfurt que disponibiliza gratuitamente, em todas as portas, casas de banho limpas e a cheirar a pêssego, um televisor, uma máquina de chá, café e derivados, e uma oferta alargadíssima de jornais em língua inglesa e alemã.   

publicado por Jorge Fiel às 22:10
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2 comentários:
De Sun Iou Miou a 23 de Outubro de 2011 às 09:32
Estou a pensar seriamente em trocar de cabeleireiro (pena não ser eu careca) e ir viver uma temporada para o aeroporto de Frankfurt.
De Carlos de Sousa a 24 de Outubro de 2011 às 21:02
Caríssimo Jorge,
O sono foi curto, mas de um 5 * russo para 4 cadeiras de aeroporto alemãs nada se perdeu: a verve fidelíssima e o humor de recorte queirosiano está cá por inteiro. E no ar ficou um cheiro a pêssego, o que é sempre agradável e acaba por colocar à prova a estanquicidade de qualquer caixilharia - mesmo das alemãs!
Espero que a tua peregrinação à descoberta de Cracóvia tenha valido a pena. Por cá, é meu dever contribuir para a tua felicidade: os posters chegaram sãos e salvos e o meu joelho esquerdo resistiu a todas as malfeitorias que lhe infligimos.
Abraço saudoso do
Carlos

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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