Domingo, 15 de Julho de 2007

Como eu vivi as Jóias de Castafiore no parque de estacionamento subterrâneo de Pershing Square

 

Foto LA 11 (média)

Legenda

 

Como já me sinto suficientemente à vontade com o povo da lavandaria, vou  partilhar convosco o segredo da minha legendária modéstia. Todos os dias me esforço para fazer figura de idiota pelo menos duas vezes. É o recurso a este truque que me mantém humilde.

 

No penúltimo dia da minha estadia em Los Angeles, após uma longa e cansativa excursão a pé e de metro pela Downtown, Pueblo e Chinatown, fiz figura de idiota perdendo a chave do Ford Focus que aluguei na agência de Glendale da Entreprise - que já estava fechada à hora adiantada a que eu dei pela falta da chaves.

 

Para saber o desfecho desta triste história, que se veio a verificar ser uma repetição desajeitada das «Jóias da Castafiore»» (a melhor de todas aventuras do Tintin) terá que ler pelo menos até meio o último capítulo dos meus diários californianos, onde manifesto ainda a minha perplexidade e preocupação pelo envelhecimento das hospedeiras de bordo, que estão naquela idade em que já têm direito a desconto nos bilhetes de comboio e na entrada nos museus.  

 

 

9 Julho 2007 2ª feira

Downtown LA

 

Foto LA 11 (média)

Legenda

 

O cônsul foi simpático. Ensinou-me um truque que me poupou 30 dólares. Dando meia volta ao quarteirão há uma borla (três horas de estacionamento gratuito) à nossa espera no parque do «shopping» Westfield, em Century City, LA.

 

Para compreender a dimensão da simpatia de Edmundo Macedo devo uma informação ao povo da lavandaria: na garagem privativa do 1802 da Avenue of Stars (onde está instalado o Consulado de Portugal)  cobram três dólares por cada 15 minutos de estacionamento. È ao preço do táxi, só que um pouco mais ecológico, porque o carro ao está parado e por isso não contribui para o aquecimento global.

 

Cheguei ao consulado à hora (10h30) da abertura. Estou em LA sem passaporte e amanhã de manhã cedo parto para Filadélfia. O Consulado Geral de Portugal em San Francisco garantiu-me que na 6ª feira enviara por correio expresso para o Consulado em Los Angeles um documento provisório de viagem que me habilita a entrar nos aviões e no nosso pequeno mas maravilhoso país.

 

Mas às 10h30 o correio ainda não tinha chegado. O cônsul aconselhou-me a ter calma, dar uma volta e a regressar ao meio dia. Eu falei-lhe da minha anterior experiência traumatizante com as tarifas de estacionamento do edifício.

 

Na minha primeira visita ao consulado foi esportulado em 15 dólares por uma hora e meia dúzia de minutos de estacionamento, o que me levou a pensar que um parque em Century City pode ser mais lucrativo que um poço de petróleo no Texas.

 

Depois de uma rápida volta de reconhecimento pelo shopping Westfield (nem bom nem mau, antes pelo contrário) ancorei na Borders. Eu gosto muito da Borders.

 

Entre a Borders (que arruma os livros de mistério e os thrillers na mesma secção) e a Barnes & Noble (que mistura os thrillers na secção de ficção), não hesito um segundo. Não é por acaso que tenho um cartão da Borders.

 

Comprei o guia Frommers de Filadélfia ($18,39) e instalei-me a fazer horas no café Seattle’s Best Coffee (concorrente da Starbucks, cadeia que também nasceu em Seattle, a cidade do Mundo onde tem mais cafés) à frente de um Americano venti ($2,15) -  cerca de meio litro de café muito quente, capaz de me entreter e justificar a ocupação de uma mesa durante quase uma hora.

 

Passava pouco do meio dia quando o cônsul me ligou. O correio tinha chegado com o meu documento de viagem. Uffff. Não ia ser necessário fazer uma qualquer patifaria hedionda em território americano para conseguir para ser extraditado de volta para Portugal. Iria poder regressar a bem. Na legalidade.

 

O segundo andamento do programa do dia consistia numa expedição à Downtown de Los Angeles, que apenas conhecia do genérico do saudoso LA Law (que saudades da querida Grace Van Owen, que na vida real se chama Susan Dey), do fabuloso Steven Bochco.

 

O itinerário que a Mariana imprimiu do MapQuest.com contemplava nove movimentos. Mas resolvi improvisar. Olhei para o mapa e ele garantia-me que a Wilshire Boulevard ligava directamente, sem transbordos de qualquer espécie, Century City à Downtown.

 

O mapa não mentiu. Andei quase uma hora e meia na Wilshire. Os boulevards de LA ridicularizam a avenida da Boavista, reduzindo-a à condição de um beco. E ficou demonstrado que a linha recta nem sempre é a distância mais curta entre dois pontos.

 

Estacionei em Pershing Square, o coração da baixa de LA, e fiz o percurso a pé sugerido pelo guia American Express, de que devo recensear cinco pontos altos:

 

O Grand Central Market (317 S Broadway) . É mágico. Atravessa-se a porta e somos imediatamente transportados a umas centenas de quilómetros a sul e sentimos as cores, os cheiros e os barulhos do México. Tudo isto sem ter de mostrar o passaporte, nem ser apalpado pelos seguranças do aeroporto;

 

O Bradbury Building (do outro lado da rua do mercado) . A fachada de tijolo é correcta mas não mais do que isso. Mas o interior! Bem, o interior já o tinha visto no cinema – mas não me perguntem por favor em que filme que eu não me lembro. Mas ao vivo é qualquer coisa de único inolvidável. É o edifício de escritórios mais bonito que eu vi até hoje.

 

A Los Angeles Central Library. A biblioteca surpreende a orgulhosa elegância com que este conjunto clássico, com as suas fontes, jardim e restaurante, se enquadra no meio dos arranha céus vizinhos.

 

Moca (Museum of Contemporary Art). Para começar o nome. Eu sei que os americanos não tiram o devido partido do espantoso nome deste museu que tem no átrio e entrada uma instalação gigante, de Nancy Rubins, à base de destroços de avião, baptizada de uma forma descritiva com um nome absolutamente extraordinário, que em si mesmo já é uma grande moca – Chas’ Stainless Steel, Mark Thompson’s Airplane Parts, About 1000 Pounds of Stainless Steel Wire and Gagosan’s Beverly Hills Space at Moca (2001).

 

Disney Hall. Desde o Guggenheim de Bilbau que eu sou fã de Gehry. A Casa da Música de LA só veio confirmar a minha paixão pela exuberância dos edifícios riscados por ele Fico com pena se, como tudo indica, acabar por não ser ele a reformular o Parque Mayer.

Posto isto, parti para a nova e inolvidável experiência de andar de metro em Los Angeles. O Tom, recém marido da Mariana, vive em Los Angeles há 15 anos e nunca usou o metro. Argumenta ele que não está interessado em ser apanhado debaixo de terra por um terramoto.

 

Eu compreendo o ponto de vista do Tom. Mas se os lisboetas partilhassem o medo dele o metro de Lisboa andava sempre às moscas. Já agora uma pergunta. Fazem tenções de usar o trajecto Terreiro do Paço-Santa Apolónia? Aguardo respostas.

 

Foi através de um dos filmes da série Speed (eu acho que a Sandra Bullock não é exactamente uma Miss Mundo mas a verdade é que ela tem uma espécie de «je ne sais pas quoi» que me atrai) que tomei conhecimento de existência do metro em LA.

 

Ele existe mesmo. Eu fiz a prova de S: Tomé. Andei nele, para crer. Mas tenho de concordar que a incipiência da sua rede face à enorme dimensão da cidade não evita ao turista a obrigatoriedade de alugar automóvel.

 

Fui de metro da 7 th Street até à Union Station, a porte de entrada no Pueblo, o cadinho onde a cidade nasceu por iniciativa de um capitão espanhol de apelido Feliz. Apesar de não conseguir rivalizar com a Grand Central Station, a Union Station, com as suas linhas estilo Missão, não envergonha LA.

 

Não vi nada que me excitasse durante as duas horas que durou a minha passeata pelo Pueblo. E a famosa rua Olvera (onde está a casa mais antiga de Los Angeles) tem o ambiente adequado à feira de artesanato mexicano que é.

 

Mais uma corrida, mas uma viagem de metro. Desta feita à superfície, no trajecto Union Station-Pasadena. Fiquei-me pela primeira paragem: Chinatown. Em resumo, devo dizer que é muito pouco provável que lá volte.

 

Quando no final da viagem de metro de regresso a Pershing Square, entrei no parque de estacionamento senti-me feliz em antecipar uma sucessão de boas sensações. Sentar-me no assento confortável do Ford Focus, após um passeio de seis horas. Guiar (sem dar trabalho ao pé esquerdo nem à mão direita), a ouvir música, pelas largas e longas avenidas de LA. Tomar um banho duplo (imersão quente seguido de chuveiro tépido a puxar para o frio) no hotel. Beber uma cerveja bem fresca. Ir cear com a Mariana.

 

Estes sonhos foram cortados por um pesadelo. A chave do carro? Esvaziei os bolsos. Revistei metodicamente todas as divisões do meu saco. Nada!

 

Fui-me abaixo. Devo ter perdido a chave ao tirar o lenço do bolso.  De manhã, resolvi uma crise (a do passaporte) mas à noite já tenho outra nova nos braços. Que grande porra!

 

Ando mesmo com galo. Primeiro foi a mala que se atrasou e quando chegou vinha com os fechos estragados. Depois foi o passaporte roubado. Depois os óculos da Fanta partidos. Agora é a chave do carro perdida!

 

A «rent a car» está fechada desde as 18h30. Hoje já não posso fazer nada, Vou ter de esperar que abra amanhã de manhã (às 7h30) e regressar ao hotel de táxi. Ligo à Mariana e digo-lhe que não conte comigo para jantar. O Tom prontifica-se para me vir buscar e faz-me uma sugestão genial. Será que eu já experimentei ver se deixei a chave dentro do carro?

 

Não sei se já leram «As Jóias da Castafiore». Se não lerem, façam o favor de a ler, porque é de longe a melhor de todas as aventuras do Tintin. A história é fácil de resumir. Toda a intriga se desenrola em torno do roubo das jóias do Rouxinol Milanês (o «petit nom» de Bianca) e do casamento dela com o bom do capitão Haddock.

 

No fim, sabemos que afinal não aconteceu nada. As jóias não foram roubadas e a notícia do casamento não passou de um boato propalado pela imprensa do coração, baseado num mal entendido provocado pela surdez do professor Tournesol.

 

A história da chave do meu carro perdida é igual à das «Jóías da Castafiore». Afinal não aconteceu nada. O Tom tinha razão. A chave estava na ignição.

 

 

Foto LA 11 (média)

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10 Julho 2007 3ª feira

Los Angeles-Filadélfia

 

Foto LA 11 (média)

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Não digam nada a ninguém, mas estou a ficar um burguês. Cheguei a Filadélfia por volta das sete e meia da tarde e nem tentei informar-me sobre o comboio para o centro e as ligações por autocarro ou metro para o hotel que reservara na Chestnut Street com a 16th.

 

Meti-me num táxi. Tarifa fixa $26.50. Arredondei para os $30. Além de burguês estou a tornar-me um «tipper».

 

A viagem não teve grande história. No «check in» em LA resolvi cometer a subida estupidez de desafiar as forças do demónio e não pedir um lugar no corredor. A realidade provou a cientificidade da Lei de Murphy – quando uma coisa pode correr mal, vai de certeza correr mal.

 

Correu mal. Atribuíram-me o 8B, bem no meio de uma jovem latina e de uma aeromoça (adoro este brasileirismo) americana e muito menos nova - meu Deus!, agora as hospedeiras estão quase todas na idade de terem desconto nos comboios e nos museus… A que se deverá este envelhecimento do material circulante das companhias aéreas?

 

O meu hotel em Filadélfia tem um nome de ressonância nobre – Club Quarters – e um acesso estranhíssimo.

 

Empurrei a porta da rua e deparei com um pequeno hall apenas decorado por um letreiro informando que o lobby é no segundo andar – e com dois elevadores ao fundo. E os quartos não têm frigorífico o que não me parece adequado aos $130 (mais taxas) que estou a pagar por noite.

 

Munido de um mapa percorri a pé os 16 quarteirões até ao rio Delaware (não é por caso que chamam Front Street à 1 thSt) , depois andei um pouco para trás, até que me decidi jantar na Trimpuh Brewig Companhy  (117 Chestnut Street).

 

Na cervejaria Triumph descobri o prazer de estar sentado ao balcão, a olhar para um jogo de baseball na televisão (o All Stars, que foi em S. Francisco), com os comentários a passarem sob a forma de legendas, enquanto comia «garlic fries» com mostarda de Dijon na ponta e bebia uma «ale» feita na casa e baptizada com o nome do patrão (Chico).

 

A vida, às vezes, pode ser bela.

 

 

 

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publicado por Jorge Fiel às 16:58
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1 comentário:
De Airplane Parts a 14 de Maio de 2008 às 13:09
Mark Thompson’s Airplane Parts é sem dúvida uma das minhas preferidas, excelente post.

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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