Segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

Memória de noites mal passadas

 

Uma cerveja num pub em Moscow Road foi o pretexto para uma pausa num dia em que já tínhamos dado bastante uso às solas dos sapatos, percorrendo Portobello de alto a baixo, pela manhã, e começando a tarde a passear em Queensway.

Como era sábado e estávamos a três semanas do Natal, tomamos a decisão acertada de investir o resto da tarde no West End, impregnando-nos do ambiente que presumíamos seria buliçoso das compras de prendas - e aproveitando para inspeccionar a qualidade das iluminações, cuja instalação tinha sido contratada à firma Castro, de Espinho.

Pegamos num autocarro em Bayswater que terminou o seu percurso em Marble Arch, porque os cerca de três quilómetros das Regent e Oxford Street estavam, do meio dia até às sete da tarde, reservados aos VIP (Very Important Pedestrian).

Foi portanto como VIP que desembarquei em Dezembro de 2009 em Marble Arch, em frente ao célebre Hotel Cumberland, local que me trás à memória recordações de noites mal passadas (mas pelos maus motivos) em anteriores visitas a à capital inglesa.

Em Agosto de 1972, quando Londres me conheceu, pernoitei em três locais diferentes:

1.     Um generoso canto de relva que transborda para fora dos muros de Hyde Park, muito frequentado por jovens turistas estrangeiros como eu. O grande inconveniente é que todas as noites, invariavelmente às três da manhã (os ingleses sabem ser pontuais), o pessoal todo era acordado por uma ronda da polícia, que gentilmente nos informava que não podíamos ficar ali a dormir. Nós espreguiçava-nos, começávamos a embrulhar os sacos camas, dando palha aos animais ao fingir estarmos a acatar a ordem. Quando nos viam com as mochilas quase prontas, os bófias continuavam a ronda. Mal viravam costas, nós enfiávamo-nos de novo nos sacos cama e dormíamos até que o nascer do dia e o barulho dos automóveis nos anunciassem a precoce chegada de um novo dia;

 

2.     Um banco de Marble Arch. À quarta noite, farto de ver o meu sono interrompido a meio por polícias gentis, em má hora resolvi experimentar um banco de jardim em Marble Arch. Passei uma péssima noite porque o assento do banco inclinava muito para dentro. Uma experiência que não repeti e me deixou mal humorado e com o corpo dorido;

 

3.     Um albergue de juventude onde era possível dormir de forma indolor e de um sono só, mas cujo custo, apesar de diminuto, obrigava a desviar para a rubrica os pennies orçamentados para as rubricas alimentação e transporte, pelo que tivemos de passar a satisfazer estas necessidades básicas à margem da lei.

A caminho do West End, tarde de sábado 5 de Dezembro 2009

música: Beware of darkness, George Harrison
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publicado por Jorge Fiel às 18:08
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2 comentários:
De Jorge Aragão a 1 de Fevereiro de 2010 às 20:35
Caríssimo ... Como te compreendo...
Uma vez, em 75, consegui dormir numa lateral da Westminster Cathedral, junto à sacristia ou coisa assim, sem problemas policiais.
Acordamos com o bom do Padre, de verdadeiro espírito cristão, a dar um "Hello Boys" e depois convidar para um leitinho quente e umas bolachas.
Soube pela vida e pelo inesperado.
Coisas que não me importava de repetir não fosse o reumatismo e as dores na coluna...
Abraço.
De Tibetana a 4 de Fevereiro de 2010 às 19:34
Preclaro JF, o número 3 é uma opção muito económica, o caos pode ocorrer após!

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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