Quarta-feira, 4 de Julho de 2007

Como eu fui obrigado a fazer de Vanessa Fernandes no aeroporto de Filadélfia

 

A Mariana tal como a encontrei à chegada a Los Angeles, no Starbucks do aeroporto, enquanto esperávamos pela chegada da minha Samsonite

 

Relato de um dia longo de 27 horas, começado em S. João do Estoril e concluído em Pasadena, em que reencontrei a minha filha Mariana (que está noiva, e vai casar dentro de dois dias), usei um «upgrade» do método William Hurt para rechaçar chatos, conheci a Débora (do restaurante Capote, na Horta), fiz o triatlo no aeroporto de Filadélfia e sofri por causa da minha Samsonite que viajou num avião diferente do meu e chegou seriamente danificada, mas com o precioso conteúdo em ordem.

 

 

3 de Julho 2007  3ª feira       

Lisboa-Filadélfia-Los Angeles

 

Foi um dia longo. Quando acabei de jantar o Burger Special of the Week (o Cowboy Burger, com garlic fries), empurrado por uma cerveja Blonde da casa, no pátio do Gordon Briersche, em Old Pasadena, ainda faltavam uns minutos para meia noite, mas passavam mais de 27 horas desde que me levantara às 5h45.

 

Um dia longo, em viagem, é um dia rico, em peripécias. Comecei-o com um grande rigor orçamental. Se uma pessoa não se põe a pau, as despesas laterais encarecem - e de que maneira! - o preço da viagem.

 

Vai daí usei o comboio (1.60 euros) entre S. João e o Cais do Sodré, onde peguei no autocarro 44 (1.30 euros) para chegar á Portela. Um operação que durou exactamente uma hora e meia.

 

O lugar 18D, na coxia, que me foi atribuído no voo US 739 com destino a Filadélfia, correspondeu ao meu pedido no check in (corredor ou fila de emergência), o que foi bom. O espaço de que dispomos é essencial num voo de sete horas.

 

Foi há cerca de dez anos, algures sobre os céus da Tailândia, que me apercebi da importância vital do pessoal do «check in» no conforto pessoal dos passageiros. Apesar dos sorrisos que dispensei à menina do «check in» constatei que lhe cai nas suas boas graças quando dei por mim, no avião da Lufthansa que voava de Banguecoque para Frankfurt, acomodado no meio de uma multidão de tailandeses que não faziam qualquer cerimónia em produzir ruídos por todos os orifícios relevantes do seu corpo (isto é, ressonavam, arrotavam e emitiam traques).

 

A rapariga alemã do «check in» tinha pacientemente erguido, no interior do avião, um muro invisível que separava, na classe turística, os arianos (em particular as frescas, leves, brancas e louras arianas) do pessoal com a pele mais escura, onde eu fui naturalmente fui incluído.

 

Na sequência deste episódio passado (que confirma a eficácia e a mania da organização dos alemães), dei por mim a dar graças por ter nascido em 1956, em Portugal, e não 30 anos antes, no centro da Europa.

 

Concluído este flash back, regresso ao voo US 739 para Filadélia que partiu a horas e decorreu calmamente.

 

Uma pessoa pede (e obtém) um lugar no corredor, mas isso não significa necessariamente que possa repousar. O sossego da viagem depende também das pessoas que sentaram ao nosso lado (neste caso, o melhor é não estar ninguém).

 

Aterrado na fila 18, verifiquei com alguma apreensão que iria atravessar o Atlântico Norte acompanhado por uma jovem mãe e dois filhos:  uma menina de colo e um rapazola de três anos.

 

No filme Turista Acidental, o William Hurt usava um livro, em que se concentrava (mesmo que não o estivesse a ler) como protector contra os vizinhos chatos que querem paleio. O iPod possibilita um fantástico «upgrade» do método contra companheiros de viagem insuportáveis.

 

Pelo sim pelo não, meti os auscultadores brancos e comecei a viagem a ouvir o Champs Elysées,  de Joe Dassin,  Orange Crush, dos REM., e a Balada do Tribunal, dos Moderados de Paranhos.

 

Os meus receios face aos vizinhos revelaram-se infundados. Tratava-se de uma parte dos Silva Ventura, que possuem o famoso restaurante Capote, na Horta, Faial.

 

Eu nunca fui ao Faial, e no capítulo da restauração apenas tinha ouvido falar do Peter, mas a Débora (assim se chama a jovem mãe) convenceu-me em absoluto da excelência da cozinha (o goraz à basca, com um molho de azeite e alho é o prato vedeta) e do sucesso do seu restaurante.

 

Débora viajava com destino a Raleigh, na North Carolina, onde está emigrada a mãe dela, que ia ver pela primeira vez os seus netos Ana Luísa (ano e meio) e o Ricardo, três anos, que se comportaram de uma forma impecável durante as sete horas da viagem transatlântica, abstendo-se de serem tão barulhentos e irrequietos quanto a idade lhes permite.

 

Os problemas começaram a surgir quando aterrei às 13h22 (hora local) no Philadelfia International Airport.

 

Não era preciso ser um génio para antecipar dramas, dado o reduzido tempo de escala contemplado no meu plano de voo. O voo US 1421 de ligação para Los Angeles tinha a partida marcada para as 14h30.

 

Pouco mais de uma hora parecia-me pouco tempo para vencer todas as formalidades da chegada a território norte-americano. A realidade deu-me razão. Era efectivamente muito pouco tempo.

 

Quando às 13h40 ocupei o meu lugar na bicha para a emigração, fiz as contas e vi a minha vida toda a andar para trás.

 

Estavam à minha frente mais de 20 pessoas, o funcionário demorava três minutos em média a processar cada estrangeiro (passar o passaporte no scanner, resmungar umas perguntas sobre o objectivo da viagem, pressionar o indicador esquerdo, depois o direito, verificar com atenção o preenchimento do formulário verde, e carimbar o passaporte).

 

Era só seguir o conselho de Guterres e fazer as contas. Vinte pessoas vezes três minutos é igual a uma hora. Só iria conseguir desembaraçar-me da operação às 14h45. O voo para Los Angeles já era.

 

A minha sorte foi que às duas em ponto abriu um novo balcão, ao lado do meu. Iniciei com uma corrida furiosa em direcção ao novo balcão uma meia hora de golpes sujos e baixos contra a Humanidade e a democracia nas fila. Cheguei em quarto lugar.

 

Poupo-vos os pormenores degradantes. Não foi bonito, mas em pouco mais de 20 minutos parti do Terminal A, venci uma série de obstáculos (fazer a alfândega da bagagem de porão, ver o cartão de embarque e o passaportes reexaminados, passar a bagagem de mão no «scanner» de segurança, descalçar-me, tirar o cinto e ser apalpado dos pés à cabeça), e respectivas bichas e cheguei à porta B11 à hora exacta da partida do avião 14h40. O embarque já tinha fechado, mas deixaram-me entrar. Eu tinha conseguido. Senti-me uma espécie de Vanessa Fernandes a cortar a meta quando me sentei no lugar 22 C e estiquei as pernas (estava na fila de emergência)

 

Eu consegui entrar para o avião, mas a minha bagagem não. Quando aterrei em Los Angeles após um voo sem história, confirmei o que já suspeitava. Em Filadélfia, eu tinha sido bastante mais expedito que a minha mala.

 

Apresentada a reclamação, resolvi ir esperar, duas horas, num Starbucks, com a minha filha Mariana e o seu «fiancée» Tom, a chegada do voo seguinte da US Airways proveniente de Filadélfia.

 

Mal avistei a minha Samsonite (cinzenta, «hard cover» e com rodinhas, comprada há cinco anos em Seul, por 100 dólares) a evoluir no tapete das bagagens senti um calorzinho por dentro.

 

Mas a história da minha mala não teve um final completamente feliz. A Samsonite chegou ferida - espero que não de morte. Um dos fechos do fecho «eclair» tinha desaparecido. O outro vinha partido.

 

Nem tudo correu mal. Lá dentro estavam intactas as minhas prendas para os noivos:  

 

a)     uma garrafa de Porto Vintage 87 da Quintas das Vargellas;

 

b)    uma gravura do brasileiro Piza devidamente emoldurada:

 

c)     um cachecol e um boné da Selecção Nacional de futebol;

 

d)    a camisola oficial do FC Porto para a época 07/08, o cachecol comemorativo da meia final da Champions Deportivo-FCP e uma caneca azul decorada com o emblema dos dragões;

 

Apesar de já ser fim do dia estar no fim, ainda está muito quente em LA. Depois de um banho, no Eagle Rock Inn da Best Western (o motel onde estou instalado fomos jantar a Pasadena.

  

publicado por Jorge Fiel às 16:46
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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