Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Cheira mal, cheira a Lisboa

Tenho o nariz torto. A narina esquerda não funciona. Infelizmente, esta surdez parcial do meu olfacto não me protege do fétido fedor que sevicia quem passa ao largo de Aveiro. Falo do mau cheiro literal, não do figurado - do negócio do sucateiro Zé Godinho ter quartel general em Esmoriz, de Oliveira e Costa ser de Esgueira, e Vara e os Penedos serem visitas frequentes de Aveiro, onde mantêm longas conversas com o juiz de instrução criminal.

Se trapalhadas e negociatas obscuras libertassem realmente um odor pestilento, não se podia passar perto de Aguiar da Beira e os carteiristas do eléctrico 28 estavam no desemprego, pois a podridão do ar nos mais belos e ricos bairros de Lisboa afugentaria os seus 2,5 milhões de turistas.

A fábrica de Cacia da Portucel é a origem do fedor que tortura os automobilistas viciados na A1 e os passageiros económicos e/ou ambientalistas do Alfa. Há coisa de 15 anos, quando visitei esta celulose,  comprovei a enorme capacidade humana em se adaptar a circunstâncias adversas. Achei que o almoço era a ocasião certa para fazer a pergunta. Fartos de a ouvir, os anfitriões responderam pacientemente que algumas semanas bastavam para concluir o processo de dessensibilização - e deixarem de sentir o cheirete.

Esta fantástica capacidade para comermos num ambiente de latrina preocupa-me muito, principalmente nesta altura em que para decifrarmos os casos de actualidade é preciso ter um curso de Direito (e dos bons, aqueles da Independente não chegam). Só assim compreendemos as nuances da arquitectura de um sistema judicial canceroso e sabemos traduzir para português um dialecto judicial atulhado de “atentados ao Estado de Direito”, “elementos probatórios”, “irrelevância criminal”, “denegação de justiça”, “medidas de coação”, “expedientes administrativos” e “emissões de certidões”.

Temo que, tal como os trabalhadores da Portucel de Cacia, nós, os portugueses, nos dessensibilizemos e deixemos de sentir o fedor a podridão da pandemia de escândalos a que estamos sujeitos. Por isso, ou estes políticos conseguem reduzir drasticamente a quantidade de lixo que produzem e arranjam um eficiente tratamento da sua porcaria (dotando-se de um sistema subterrâneo de esgotos e de uma ETAR na periferia, longe dos nossos olhos), ou o melhor é darmos ouvidos ao conselho de Eça de Queiroz: “Os políticos e as fraldas devem mudar-se com frequência – pela mesma razão”.

Não me apetece viver num país que cheira como uma casa de banho que continua em uso apesar ter o autoclismo avariado – e em que não consigamos ouvir a marcha “Cheira bem, cheira a Lisboa” sem nos escangalharmos a rir às gargalhadas.

Jorge Fiel

Esta crónica foi publicada hoje no Diário de Noticias

música: All over now, Aimee Mann
publicado por Jorge Fiel às 10:10
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16 comentários:
De Renato Oliveira a 28 de Novembro de 2009 às 22:47
Ilustre Jorge!

De Lisboa já não é só o cheiro (cheira mal), mas também o verbo surripiar está cada vez mais em evidência na capital do império à deriva!

Até o coitado do RedBull Air Race querem "limpar" à
"paisagem"!

Temos que "ressuscitar" a canção "Eles comem Tudo", na voz do eterno Zeca Afonso!

A Bem da Região,

Renato Oliveira
De Jorge Fiel a 27 de Dezembro de 2009 às 19:40
Preclaro Renato Oliveira

Tem toda a razão. São uns abutres!

A bem da região!

A bem da Nação!
De Sun Iou Miou a 30 de Novembro de 2009 às 08:18
Para desanuviar um bocado o mal cheiro deste texto incorruptível ontem fui à Invicta, à comprometida visita a Serralves. Gostei das fotografias de Augusto Alves da Silva, não tanto (ou nada, pronto) do resto das "coisas" que por lá estavam distribuídas (coisos, fotografias doutros artistas), mas adorei o passeio pelo jardim, porque estava uma luz fantástica (entre nuvens escuríssimas e pedaços azuis de céu) e estive a tirar algumas fotografias.

Também fui a cinema, mas não me aventurei aos do Arrábida ainda. Sempre convém deixar alguma coisa para outro dia.

Na verdade, fui a Lisboa uma vez (estive outra, só de passagem) e não aguentei aquele cheiro, mas não sabia de quê era. Mas esses fedores metafóricos são bem piores. Não apetece mesmo aguentar tanta podridão assentada no poder.
De Jorge Fiel a 27 de Dezembro de 2009 às 19:42
Preclara Miou Miou

A exposição do Augusto Alves da Silva é muito boa. Estamos de acordo.

Também partilho do seu cepticismo relativamente à selecção de obras da colecção do museu que estão em exposição.

E da próxima já sabe. Atravesse a ponte da Arrábida sempre que quiser ir ao cinema.

A bem da Nação!
De Barba azul a 3 de Dezembro de 2009 às 13:16
Caro Jorge Fiel, nem a propósito, encontrei hoje no blog Reflexão Portista (aqui: http://reflexaoportista.blogspot.com/2009/12/nos-so-queremos-lisboa-arder.html) uma referência a um seu outro texto, mas de 2005: "Sócrates e a sua entourage andam a brincar com o fogo. Não devem ter lido, ou se leram não perceberam, o que o jornalista Jorge Fiel escreveu no Expresso, em 13 de Agosto de 2005:
"O grito de raiva «Nós só queremos Lisboa a arder» é a expressão (grosseira) da revolta de quem se sente discriminado. A única vacina eficaz contra esta raiva é corrigir as assimetrias que desequilibram o país."

Sempre oportuno e assertivo!
De Jorge Fiel a 27 de Dezembro de 2009 às 19:44
Preclaro Barba azul

Muito obrigado pelas suas gentis palavras. Para a semana, vou voltar a zurzir no ralo do nosso lavatório. Não nos podem doer as mãos :-)

A bem da Nação!
De Tibetana a 3 de Dezembro de 2009 às 22:51
São Jorge matou um dragão. A cavalo. NA LUA. Devia ser o Santo Padroeiro da Ficção Científica
De Jorge Fiel a 27 de Dezembro de 2009 às 19:44
Preclara Tibetana

Sempre fui mais colecção Vampiro do que Argonauta.

A bem da Nação!
De Barba azul a 16 de Dezembro de 2009 às 16:08
Huummm...Será do cadáver do Jorge Fiel, que morreu em frente ao televisor a ver as suas séries sem ninguém dar por isso?...
De Sun Iou Miou a 16 de Dezembro de 2009 às 17:59
Ele já disse que tem de transformar os caracteres em euros, que a vida está muito complicada. A nós toca-nos paciência e esperar que ele volte milionário também em caracteres.

E depois, não nos pode deixar sem conhecer o final da história. E eu que amanhã vou andar alegremente pela Rua do Campo Alegre... ainda bem não é o Passeio Alegre.
De Jorge Fiel a 27 de Dezembro de 2009 às 19:49
Preclara Miou Miou

O Chalé Suisso (aasim mesmo, com ss ) no Passeio Alegre é um belo poiso, principalmente se está bom tempo.

Mas, cuide-se, anda por lá à solta um buraco asssasino de que a minha preclara amiga foi madrinha.

A bem da Nação!
De Jorge Fiel a 27 de Dezembro de 2009 às 19:47
Preclaro Barba azul

Ainda não morri. Simplesmente andei à rasca para deixar as coisas prontas para a semana em que fui de férias até Londres - e à chegada tive de voltar a encher o armazém para me preparar para as Festas. A vida de biscateiro tem os seus espinhos.

A bem da Nação!
De Tibetana a 17 de Dezembro de 2009 às 22:22
Correto! como escreve o preclaro que "Está provado que as pessoas avaliam as prendas que recebem ",
desejo em caracteres BOAS FESTAS E 2010 pleno de paz e tranquilidade, amor, saúde!
E money!
De Jorge Fiel a 27 de Dezembro de 2009 às 19:50
Preclara Tibetana

Obrigado, minha preclara amiga. Igualmente para si. É uma pena que só nos filmes do Harry Potter seja possível beber uma poção e ficar automaticamente com tanta sorte como o Gastão.

A bem da Nação!
De Biriades Cartagulio a 18 de Dezembro de 2009 às 15:01
Preclaro JF, se eventualmente ainda nao os viu, é capaz de lhe interessar, ontem encontrei numa daquelas lojas, uns tomates secos também muito bons; desidratados, salgados e sem nenhum liquido conservante, estavam no sitio dos frutos secos.
De Jorge Fiel a 27 de Dezembro de 2009 às 19:52
Preclaro Biriades

Prefiro os tomates secos ao sol em molho de azeite. E isso porque os uso mais como antipasto do que como matéria prima para cozinhar.

De qualquer maneira, fico-lhe grato pela lembrança.

A bem da Nação

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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