Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Ficamos com as mãos sujas após mudar um pneu

A escolha da fotografia de Jean Paul Sartre para ilustrar este post representa uma tentativa de emprestar alguma densidade intelectual a esta narração, idiota e em fascículos, dos dramas que ainda afectam a minha vida por causa de um pneu furado. O pretexto para a usurpação da imagem do inventor do existencialismo é o facto de ter ficado com as mãos sujas após ter mudado o pneu -  uma piscadela de olhos, portanto, a Les Mains Sales (1948), onde o filósofo francês defende o engajamento político dos intelectuais

Costuma dizer-se que o tempo é dinheiro (do inglês “time is money”) e isso é, com toda a certeza, verdade. Mas esta minha odisseia do pneu e jante assassinados por um buraco anónimo (que a preclara Miou Miou sugere, simpaticamente, que perca essa condição e passe a ser cognominado o Buraco Fiel) veio demonstrar que a informação pode ser tão valiosa como o tempo. Ou seja, informação é dinheiro.

Como presumo estão recordados, deixei a carrinha Fiat posta em sossego, em frente à porta da minha garagem, e só lhe voltei a pegar alguns dias depois, para levar o João à escola de futebol Hernâni Gonçalves, onde ele treina no lugar de defesa central, convencido que um dia o FC Porto vai conseguir transaccionar o seu passe por 30 milhões de euros, como fez com o Pepe e o Ricardo Carvalho.

Neste interim, um vizinho amigo e observador reparou que o meu pneu dianteiro do lado direito estava totalmente em baixo e diligentemente comunicou o facto a uma pessoa lá de casa.

Sucede que a pessoa (que, nem que me torturem, confessarei que tem 17 anos e o seu nome começa por C) que recebeu essa preciosa informação se esqueceu de a comunicar ao interessado (eu).

Resultado deste esquecimento? Ao rodar com o pneu vazio entre a avenida da Boavista e a Damião de Góis dei o golpe de misericórdia no pobrezinho.

No trajecto, constatei que o carro se inclinava tão perigosamente para a direita como o BNP (aquele novo partido inglês de extrema direita que não aceita a inscrição de pretos e que as sondagens dão como recolhendo 22% das intenções de voto), mas como estava atrasado só quando parei à porta da escola de futebol, onde constatei tristemente que o pneu estava completamente estraçalhado – e que nem com a ajuda de um desfibrilhador eu seria capaz de o ressuscitar.

Fui à mala, extrai o macaco e o pneu de reserva, e meti as mãos à tarefa de mudar o pneu. No final, tinha as mãos sujas. Enquanto as lavava, passaram-me pela cabeça os nomes de Sartre e de Judas.

(continua)

música: Rezo pela força do Amor, Bortnianski
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publicado por Jorge Fiel às 18:08
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4 comentários:
De Tibetana a 28 de Outubro de 2009 às 19:25
:D ...e???
De Jorge Fiel a 30 de Outubro de 2009 às 11:26
Preclara Tibetana

Só he posso adiantar que se trata de uma história trágica. Isto é como uma telenovela brasileira :-). Não lhe posso revelar já o final senão perde a já pouca graça que isto já tem. Vá-se entretendo, pf, com as cenas dos próximos capítulos...

A bem da Nação!
De Sun Iou Miou a 28 de Outubro de 2009 às 22:24
Eu o lavado das mãos antes o relacionaria com o Pôncio Pilatos ou a gripe A. A alusão ao Judas espero que fique convenientemente explicada no seguinte episódio, pois do contrário reclamarei à gerência desta Lavandaria. (Nem que isso fosse adiantar nada, mas...)

Para a próxima, veja se aprende, leve umas luvas no carro. É o que eu faço: dão um jeitinho nestes casos.

Ah, será que o Judas sujou as mãos com o dinheiro...? Sabe-se que é fonte de transmissão de agentes patógenos. (E agora, as autoridades sanitárias porquê é que não nos recomendam não aceitar nem dar dinheiro e nos advertem contra o perigo de nos beijarmos e darmos as mãos como irmãos?)
De Jorge Fiel a 30 de Outubro de 2009 às 11:30
Preclara Miou Miou

Está tão carregadinha de razão que até se arrisca a apanhar uma hérnia. Era o nome do Pilatos e não do Judas que me devia ter passado pela cabeça.

Não sei onde ando com a cabeça - ou, se quiser, sei perfeitamente onde ela anda e isso é que é deveras preocupante.

Imagine que hoje tive um pesadelo, onde, depois de andar às voltas pelas Caldas da Rainha numa Vespa cor de framboesa, a estacionei num lugar de que me esqueci - e passei toda a noite, debalde, a tentar encontrar a Vespa...

A bem da Nação!

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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