Terça-feira, 22 de Setembro de 2009

As técnicas de pedir lume e perguntar as horas ainda podem e devem ser usadas na abordagem

Se eu encontrasse a Melanie Laurent no café, era muito capaz de me sentir tentado a ir perguntar-lhe as horas – ou pedir-lhe lume

O “Podia, for favor, dizer-me que horas são?” é um clássico da abordagem a uma pessoa que nos é desconhecida, mas que nós estamos a esforçar-nos seriamente para que deixe de o ser – e cuja fachada nos deu uma enorme vontade de a conhecer, em vários domínios, incluindo o bíblico.

Penso que apenas o truque de pedir lume seja ainda mais popular do que o de perguntar as horas.

Agora que ninguém fuma e toda a gente anda com as horas guardadas no bolso, no mostrador do telemóvel, as velhas formas de abordagem tornaram-se arcaicas, a não ser que as passemos a usar de forma menos discreta e mais imaginativa.

Creio que as minhas preclaras amigas concordarão que, no passado, quando um desconhecido se aproximava a perguntar as horas (ou pedir lume) elas ficavam na dúvida sobre se o passarão queria mesmo só saber a quantas andava (ou espetar mais um prego no caixão, acendendo um cigarro) – ou se o queria realmente era figos.

Em tempos idos, que não voltam (como, em boa hora, nos avisou o António Mourão no inesquecível “Ó tempo volta para trás”), o meu amigo Luciano tinha um truque infalível no seu arsenal de abordagens.

Quando se dirigia a um alvo, praticando a abordagem do “Por favor, dá-me lume?”, o sábio do Luciano levava o cigarro na boca já aceso, para que não restasse a mínima das dúvidas ao que ia. Era como faziam os piratas quando arvoram no mastro principal o pavilhão negro, decorado com a caveira cruzada por duas tíbias, antes de atacarem a presa.

E quando a desconhecida lhe fazia ver que ele não precisava de lume, porque o cigarro já estava acesa, o tratante do Luciano compunha um ar de espanto, um misto de atrapalhação e despiste (as mulheres adoram esta ar!), olhava para o cigarro e respondia:

“Estás ver o efeito que fazes em mim? Desde que te vi, só faço disparates…”

Era fulminante. Tiro e queda.

música: Thomar the rhymer, Steeleye Span
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publicado por Jorge Fiel às 18:08
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14 comentários:
De Mónica Baptista a 22 de Setembro de 2009 às 19:52
:) Lembrei-me de uma situação que se passou comigo (eu que não uso relógio). Estava a tomar cafe com uma amiga, proximaram-se de mim e perguntaram-me as horas, eu, que não me escapam pormenores, respondi, mas tem o seu relógio para ver, ao que me respondem, era só para confirmar se estava certo. Como que por desígnio dos céus, começou a dar o telejornal na televisão do café, eu prontamente digo ao desconecido, pronto, já pode confirmar.
De Jorge Fiel a 29 de Setembro de 2009 às 13:54
Preclara Mónica Baptista

Não há duvidas. O desconhecido queria figos. Hoje em dia os relógios não se atrasam.

Se queria continuar a conversa podia sempre dizer que eram três da manhã e o café estava quase a fechar :-)

A bem da Nação!
De Sun Iou Miou a 23 de Setembro de 2009 às 08:24
Enfim, haverá que recorrer métodos acordes com os tempos, como perguntar pela fase lunar, pedir gel desinfectante para as mãos ou uma máscara...
De João Sousa a 23 de Setembro de 2009 às 09:49
Pedir uma máscara pode dar à senhora questionada a impressão de ter comido demasiada cebola.
De Jorge Fiel a 29 de Setembro de 2009 às 14:05
Preclaro João Sousa

E eu que adoro cebola! Bifes de cebolada. Atum de cebolada. Gosto de comer quase tudo de cebolada.

Até gosto de comer anéis de cebola crua a acompanhar um queijo forte.

A bem da Nação!
De Jorge Fiel a 29 de Setembro de 2009 às 13:59
Preclara Miou

Eu abomino a gripe A. Prefiro abordagens psicanalíticas, do estilo:

"Sabia que a grande estocada da psicanálise foi ter reconhecido a familia como um problema em vez de ser a solução?"

A bem da Nação!
De Rafael a 23 de Setembro de 2009 às 12:51
Genial! Tentarei tal abordagem pelas noites do Rio.
De Jorge Fiel a 29 de Setembro de 2009 às 13:59
Preclaro Rafael

Boa sorte meu preclaro amigo. E cuidado com as doenças :-)

A bem da Nação!
De Tibetana a 23 de Setembro de 2009 às 16:10
Muito bom! quando estás mais que inspirado...humm
De Jorge Fiel a 29 de Setembro de 2009 às 14:01
Preclara Tibetana

O problema é que passo muito mais tempo transpirado do que inspirado.

A bem da Nação!
De nitasstore a 24 de Setembro de 2009 às 10:14
Realmente, os tempos mudaram e de que maneira!!
Agora é tudo muito frio, falo pela minha geração ( os trintões) já não conseguiram captar o encanto de cortejar (vice versa).
De Jorge Fiel a 29 de Setembro de 2009 às 14:10
Preclara nitastore

Bem, os homens são um tudo nada menos românticos do que as mulheres.

O Billy Cristal disse, a propósito, uma frase com piada: "As mulheres precisam de uma razão para fazerem sexo. Os homens só precisam de um lugar".

Mas confesse que ficava intrigada com uma abordagem do estilo:

"Não te parece que o amor mal interpretado, supostamente deslocado, mata mais gente qie a Sida, os acidentes de automóvel e o cancro do pulmão juntos?"

A bem da Nação!
De Fátima a 24 de Setembro de 2009 às 10:27
O significativo não é perguntar as horas e/ou se tem lume, aqui o que conta é a forma como nos olham e como o dizem...
De Jorge Fiel a 29 de Setembro de 2009 às 14:15
Preclara Fátima

Tem razão. É a velha história de forma e do conteúdo. Há gente que está a sorrir mas nós olhamos para elas e temos a certeza que o seu espirito não está a sorrir.

A bem da Nação!

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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