Sábado, 22 de Agosto de 2009

De como um tipo como eu, contaminado pela ética produtivista, andou a flanar um bom par de horas

Devemos ao Charles Baudelaire a feliz invenção da palavra “flanar”, que viu pela primeira vez a luz do dia no Sobre a Modernidade.

Flaneur é o sujeito que flana, um tipo dotado de uma imensa ociosidade e que dispõe de uma tarde, de uma manhã, de um dia inteiro ou até, sabe-se lá, de uma semana completa, para flanar, ou seja para andar sem destino, vagabundear pelas ruas de uma cidade sem um objectivo, plano ou propósito previamente definidos, para além de pastar, de uma forma indolente, o que se vai passando à sua volta.

Do ponto de vista de consumo de uma cidade, eu estou nos antípodas do flaneur, já que antes de sair à rua preparo o mais cuidadosamente possível os passeios que vou dar, com o auxílio de guias turísticos, artigos de jornais e revistas, post it amarelos e mapas da cidade, metro e autocarros.

Não sou amigo de deixar as coisas ao sabor do improviso e imprevisto, o que faz de mim uma espécie de farejador profissional de cidades, animado pelo desejo de ver tudo, isto é claramente contaminado pelo excesso de ética produtivista.

Para o início de tarde de 2ª feira dia 10, tinha planeado flanarmos pelo Parc Monceau (sim, porque o flanar também pode ser programado, ou, se preferirem controlado e domesticado, tal como os cães que passeamos à trela), mas acabei por ceder à tentação de errar sem destino pelos boulevards.

Metemo-nos no metro, desembarcamos na Opéra, e andamos por aí a dar água sem caneco pela Paris de Haussmann, Madeleine, rue St Honoré, place Vendôme, place des Victoires, Bolsa, rue de la Paix. A flanar à séria, portanto.

publicado por Jorge Fiel às 18:08
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2 comentários:
De Abobrinha a 23 de Agosto de 2009 às 16:22
Pois eu adoro flanar! Em sítios desconhecidos ou na minha cidade de coração que é o Porto, onde consigo sempre ser surpreendida (o que implica desde logo a falta de deliberação) por um qualquer pormenor delicioso que não tinha visto antes.
De Jorge Fiel a 1 de Setembro de 2009 às 12:00
Chérie Abobrinha

Mais uma vez (e como sempre) cheia de razão. Acertasse assim no Euromilhões (ou, vá lá, ao menos no Totoloto).

Todos deviamos flanar no Porto!

A bem da Nação!

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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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