Quinta-feira, 12 de Novembro de 2009
O meu top five de séries televisivas a 12.11.09

Amanhã, sem falta nenhuma, vou trocar os pneus da frente, a ver se resolvo de vez a tendência direitista da minha carrinha Fiat Marea.

Enquanto isso não acontece, pondo uma pedra em cima deste lamentável caso do Pneu Estraçalhado, tenho a comunicar-vos um feito tecnológico pessoal. Aprendi a gravar programas na box da Zon, o que me habilita a ver as minhas séries preferidas quando quiser, independentemente da hora a que foram transmitidas (muitas vezes tardia).

A este propósito, acho oportuno partilhar o meu top five actual. Ele vai variando muito. Por exemplo, alturas houve em que não perdia um CSI e agora enjoei-os a todos (a começar pelo Miami, que já fede, já não há cu para as poses do Horatio!) – talvez veja o episódio do abandono de Grissom mas certamente vou-me ficar por aí.

1.     FlashForward. Estou fanático. Prende tanto como o 24 nas suas primeiras temporadas. Mark Benford (Joseph Fiennes) não faz esquecer o bom e velho Jack Bauer (Kiefer Sutherland), mas anda por lá perto. Um blackout global (blecaute escreveriam os nossos irmãos do outro lado do Atlântico) de 2m17, ocorrido às 11 am (Pacific Standard Time) de 6 de Outubro deste ano, provoca 20 milhões de mortos. Os que sobreviveram tiveram uma visão (flashorward) das suas vidas, a 20 de Abril de 2010. O epicentro da acção está em Los Angeles, mas ainda vamos no 6º episódio e a intriga já se ramificou à Somália, mete uma matança de corvos, há um mau chamado D. Gibbons (alto nome!), o presidente dos Estados Unidos já apareceu num papel muito equivoco, e acaba de nomear para vice-presidente uma senadora  hispânica com muito mau feitio. Pelo meio têm aparecido uns matadores chineses.  A coisa promete. Como agravante, a agente do FBI Janis Hawk (Christine Woods na vida real, a menina da fotografia que encima este post) ainda não sabe se é lésbica e tem galo nos encontros amorosos, mas é uma queridinha;

 

2.     Free Radio. Uma pequena jóia e quando digo pequena refiro-me à duração dos episódios (22 minutos). Ando com a figadeira muito mais desopilada desde que me viciei nos diálogos absurdos com celebridades (da vida real) mantidos pelo casal de animadores (Lance e Ann) de Moron in the Morning, da KBOM FM. O Lance é mesmo idiota baptizado. Até dói. Acreditem!

 

3.     Sem Escrúpulos (Damages). Estou entusiasmadíssimo com o início da segunda temporada desta série em que Glenn Close (no papel da advogada Patty Hewes) arrasa uma vez mais. A intriga é tão complicada que depois de ter visto e revisto toda a primeira tempoarda anda não consegui distinguir os bons dos maus. Espectacular! Brutal!

 

4.     The Wire. Uma série policial que tem como cenário Baltimore. Está para esta primeira década do século XXI como Hill Street Blues esteve para o último quartel do século XX. Imperdível;

 

5.     Boston Legal. Só não está no primeiro lugar deste top, porque os palhaços da Fox decidiram  descontinuar a  produção de uma das melhores séries televisivas de sempre. Mas as alegações de Alan Shore são uma sinfonia, mesmo quando vistas e ouvidas pela quinta vez.

 

(continua)

 


música: Mona Bone Jakon, Cat Stevens

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Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
Bolo rei, rosbife, pezinhos de coentrada, muamba, rissóis de carne, francesinha e pimentos de Padron

Claro que isto já começa a meter um bocado de nojo. Eu sei. A boa e velha expressão “nem o pai morrre, nem a gente almoça” assenta como uma luva a esta maçadora saga do pneu, que está a viver um longo parêntesis que engobou um arroz de pato, que espero não tenha sido indegesto para ao clientela da Lavandaria.

Hoje concluo, em passo de corrida, a lista das dez coisas que me levam a gostar muito da rua do Campo Alegre. Espero amanhã ter boas notícias (ou seja o epílogo) para dar sobre o intrincado Caso do Pneu Estraçalhado:   

 5.     A Confeitaria Duvália encerra um si um segredo pouco conhecido mas precioso. Pertence à família de Ilídio Pinto e o bolo rei que fabrica é igualzinho em qualidade ao da sua irmã mais velha, a Petúlia. Ou seja, nas festas que avizinham, será uma opção inteligente comprar o bolo rei na Duvália em vez de engrossar as longas filas na rua Júlio Dinis;

 

6.     O Clube Inglês é, como não podia deixar de ser, uma ilha britânica no meio do imenso mar portuense, com o seu restaurante, onde não lhe servem refeição se não estiver de casaco, e o relvado onde se joga criquete, uma entediante modalidade que estou convencido que vou morrer sem conhecer as regras que a regem;  

 

7.     As Torres de Arménio Losa (732-738), ligadas por um edifício mais baixo, merecem uma honesta vista de olhos;

 

8.     O Restaurante Campo Alegre, que eu já não frequento há uma data de tempo (vá-se lá saber porquê) é acanhado em espaço mas amplo e generosa na oferta, que contempla duas cozinhas tão diferentes como a alentejana e angolana. Este pluralismo corresponde à denominação de origem do casal de donos, mas não me perguntem por favor se é ele ou ela que é de Angola porque eu faço sempre confusão;

 

9.     O Capa Negra é um valor seguríssimo para uma refeição tripeira – de tripas ou francesinha – ou de origens mais alargadas. O meu amigo Amadeu, que é o zelador da Confraria das Francesinhas, torce o nariz relativamente à qualidade da francesinha, alegando que a altura do pão não é “conforme” (o vocábulo é dele), por ser exagerada, iludindo o freguês encantado com a altura da sandes. Pode ter razão. Aliás planeio voltar a este assunto da francesinha, escapelizando-o com minúcia aqui nesta Lavandaria. No entretanto, declaro que continua a gostar da francesinhas e dos magníficos rissóis de carne o Capa Negra, que antes de ser um fábrica de comida era um café onde eu passei muitas manhãs e tardes a estudar quando andava na faculdade;

 

10.    A estátua da Rosalia Castro (na foto), na Praça da Galiza, da autoria de Barata Feyo, agrada-me de tal maneira que achei por me concluir esta lista de dez razões que me levam a gostar do Campo Alegre com um fragmento do poema Negra Sombra da poetisa galega, que morreu prematuramente (48 anos), em Padron, a terra dos famosos pimentos.

En todo estás e ti es todo

                                                                               pra min e en min mesma moras,

nin me abandonarás nunca,

 

sombra que sempre me asombras.

 

(continua)


música: O hábito faz o monstro, Rádio Macau

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Terça-feira, 10 de Novembro de 2009
O arroz de pato que está na origem da Quimonda

A Siemens estava decidida a fazer um grande investimento tecnológico em Portugal e diversas regiões lutavam para o acolher. Luís Braga da Cruz, à época presidente da CCRN, pediu a Daniel Bessa que fizesse de cicerone aos alemães que andavam a visitar as  diferentes localizações disponíveis e a estudar os prós e os contras de cada uma delas.

Bessa levou-os a Vila do Conde e foi muito convincente porque foi esse o local escolhido para a fábrica, que no entretanto mudaria de mãos e de nome, passando a chamar-se Quimonda.

No que toca ao programa social, o futuro ministro da Economia do primeiro Governo Guterres tentou impressionar os quatro alemães que constituíam a embaixada da Siemens levando-os a jantar à belíssima sala de refeições do Circulo Universitário do Porto, ao Campo Alegre,  e aconselhando-os a encomendar o Arroz do Pato, um dos pratos mais afamados da cozinha deste restrito clube.

Pouco depois da comida desembarcar na mesa, Bessa arrependeu-se do conselho ao ver os seus convidados a olharem para o prato com um ar desconfiado, após o que usaram faço e garfo para separar as águas, arrumando os bocadinhos de pato a um canto.

Ao olhar para o resultado final desta operação, constatando que o arroz ocupava a quase todalidade do prato, o bom do Daniel ficou envergonhado por os ter aconselhado uma refeição tão pobre e resolveu logo tentar emendar a mão levando-os, no dia seguinte, a almoçar à Cooperativa dos Pedreiros, um clássico que há largas décadas é considerado um dos melhores restaurantes do Porto.

O almoço correu muito bem. Os tornedós e linguados satisfizeram os olhos e a barriga do alemães. O único pequeno problema foi a conta.  Desenferrujado na aritmética, Bessa reparou logo que tinha ficado a cinco contos por cabeça, soma que Braga da Cruz, iria com toda a certeza achar exorbitante.

Para não ofender o espírito económico do presidente da CCRN, pediu ao empregado que indicasse na factura que os 25 contos se referiam a oito e não cinco refeições – pensando que este pequeno truque de baixar artificialmente o preço médio de refeição por cabeça chegaria para a conta passar despercebida ao escrutínio de Braga da Cruz.

Vários anos depois, já com as despesas recebidas e a história esquecida, estavam os dois à conversa, quando, assim como quem não quer a coisa, Braga da Cruz comentou : “Ó Daniel, não acha que se está a comer cada vez mais caro na Cooperativa dos Pedreiros?”.

(continua)


música: Guarda a faca, Rádio Macau

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Segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
Passeio no Campo Alegre com Groucho na cabeça

 

“Não posso ser sócio de um clube que me aceite como sócio” é um das frases mais conhecidas do baú de humor marxista (tendência Groucho), onde estão arrumadas algumas pérolas que não resisto a partilhar como os preclaros, como

 “Nunca esqueço uma cara, mas no teu caso abro uma excepção”

e

“O meu cliente tem ar de imbecil, mas desconfiem das aparências, ele é mesmo imbecil”

ou, ainda, este fabuloso diálogo, mantido com um dos irmãos que falava:

- Olha, o homem do lixo está a bater à porta...

- Diz-lhe que não queremos lixo nenhum!

Desenterrei estes pedacinhos a propósito de uma das coisas que me faz gostar da rua do Campo Alegre, que é precisamente o Circulo Universitário do Porto, um clube de que eu adorava ser sócio mas que não me pode aceitar como sócio porque a admissão está restrita a professores da Universidade do Porto (UP) e eu não passo de um reles jornalista biscateiro.

 

4.     O Círculo Universitário do Porto é um belo palacete romântico do século XIX,  que foi conhecido como a Casa Primo Madeira, o nome do seu proprietário após uma profunda remodelação levada a cabo pelo arquitecto Marques da Silva.

 

Quando passou para a posse da UP, a reitoria encomendou o restauro ao arquitecto Fernando Távora.

 

Ou seja, dois dos maiores arquitectos da cidade deixaram as suas impressões digitais neste palacete transformado num clube restrito, onde jantei por diversas vezes como convidado, e que além de servir refeições, também recebe festas e disponibiliza alojamento.

 

A qualidade do edifício foi reconhecida pela Câmara Municipal, que em 1990, lhe atribuiu o Prémio João Almada (o equivalente portuense ao lisboeta Valmor). 

Não fui testemunha, nem auricular nem ocular, da melhor história que conheço, tendo como cenário o Circulo Universitário do Porto, que me foi contada pelo seu protagonista, Daniel Bessa, tem a ver com arroz de pato, contempla de raspão a fonice de Braga da Cruz e cruza com a actualidade já que se situa na proto-história do investimento na Quimonda.

 

Acho que, enquanto a situação dos meus pneus dianteiros se mantém estacionária, esta história vale bem um intervalo no enunciar da lista de razões porque gosto da rua do Campo Alegre.

 

(continua)


música: Sinfonia Novo Mundo, Dvorak

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Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
Três razões para gostar do Campo Alegre

Os afazeres derivados desta minha vida de jornalista biscateiro ocupam-me mais tempo do que deviam, pelo que se escoou mais uma semana sem que eu conseguisse arranjar tempo (estive de 3ª de manhã até 5ª à noite em Lisboa) para ir à oficina da Pneus Ramalhão (que está fechada ao sábado e domingo) trocar de lado os pneus da frente para ver se é desta que o meu carro deixa de inclinar para a direita.

Como o Caso do Pneu Estraçalhado parece contaminado pela morosidade da Operação Furacão, aproveito a pausa para vos falar do Campo Alegre e das razões (enunciadas no sentido Lordelo-Praça da Galiza) que me levam a gostar muito desta rua:

1.     A Garrafeira do Campo Alegre é muito porreira e foi preciso vir um gajo de Lisboa para lhe dar publicamente o devido valor. Estou a referir-me ao MEC, que assinou em tempos idos, no DNA (um magnífico suplemento que a direcção do DN decidiu descontinuar, em hora menos feliz), um justo elogio desta garrafeira, que está encaixilhado, em papel já amarelecido, junto ao balcão. Por razões de força maior, o Miguel está agora circunscrito a uma dose diária de ginjinha, que usa à noite, antes de se sentar ao computador a escrever (ele é biscateiro como eu), mas nos seus tempos mais gloriosos era um avisado conhecedor e forte consumidor e de vários tipos de álcoois;

 

2.     O Jardim Botânico , com os seus liquidambares, faias, sobreiros, tílias, carvalhos e ofícios correlativos, é um local de que guardo, desde o tempo da faculdade (a FLUP ficava mesmo ali ao lado) gratas recordações, principalmente das margens do laguinho dos nenúfares. Acresce que o jardim está instalado na casa que foi habitada por dois nomes grandes da nossa literatura: Sophia e Ruben A – um tipo que intitula a sua autobiografia “O Mundo à minha procura” e que fez um strip tease integral num museu grego, porque não se sentia bem vestido no meio daquelas belíssimas estátuas nuas, só pode merecer as nossas mais elevadas estima, consideração e admiração;

 

3.     A Confeitaria Botânica é uma das minhas esplanadas preferidas por razões de índole geo-estratégica. Comecei a frequentá-la quando andava em Letras (a faculdade ficava mesmo em frente) e mantenho-me freguês entre outras coisas porque o facto de estar a coberto de uma arcada a torna utilizável mesmo em dias de chuva;

 

(continua)


música: Any time at all, Beatles

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Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
Disfarcei-me de dr House e falhei redondamente

Aspecto actual da minha Fiat Marea, que comprei quando a administração do Expresso não aprovou a recomendação da direcção editorial de me oferecer a Renault Espace azul que me tinha sido atribuída por eu o responsável pelo escritório no Porto daquele semanário

Apesar de ter as suas patas dianteiras calçadas com dois novos pneus usados, adquiridos na Pneus Ramalhão por 44 euros (soma que considerei muito em conta), a minha carrinha Fiat Marea cinzenta, com matrícula do ano em que o Porto foi Capital Europeia da Cultura (e que foi a verdadeira e anunciada odisseia no espaço), descaía para a direita, o que me incomodava seriamente a mim que tenho o coração à esquerda, como aliás estou em crer sucede com a generalidade das pessoas.

Apesar da minha completa e absoluta ignorância em matéria de pneus, aventurei-me a fazer de dr House e diagnostiquei duas eventualidades:

a)    O novo pneu usado da frente do lado direito estava com pressão inferior ao seu homólogo do lado esquerdo;

 

b)    A minha direcção tinha ficado desalinhada durante a emboscada ocorrida no Passeio Alegre, quando, ao cair da noite, um buraco (que a preclara Miou Miou diligentemente baptizou de Buraco do Fiel) matou o meu pneu da frente do lado direito e feriu gravemente a respectiva jante.

Precipitei-me em direcção à Pneus Ramalhão, onde relatei objectivamente a tendência direitista evidenciada pelo meu carro e confiei as duas causas possíveis para esse lamentável comportamento.

A hipótese de pressão desigual foi logo despistada. Seguiu-se a operação computadorizada e algo demorada de verificação do alinhamento da direcção.

No final, o cavalheiro da oficina trazia na cara o ar intrigado de quem está a pensar hmmmmmmmmm. A direcção estava desalinhada apenas  três milímetros. Não tinha a certeza sobre se era a causa do descaimento para a direita do carro. Que eu experimentasse. No caso dele teimar nas tendências direitistas, que o trouxesse de novo à oficina e ele procederia à troca dos pneus da frente. Como eram usados, podia ser que o da esquerda estivesse habituado a andar na direita e vice-versa - e estivesse aqui a raiz  de todos os males.  

Fui ter com a Maria João, perguntando-lhe se lhe devia alguma coisa, alimentando secretamente a esperança de que o alinhamento fosse de borla. Vã esperança. Doce engano. Levou-me 15 euros e, ao ver a minha surpresa, acrescentou que era barato, e que se se eu tivesse de trocar os pneus não me levaria nada.

De volta ao Campo Alegre, a carrinha mantinha o maldito hábito de inclinar para a direita.  A conta do caso do pneu assassinado no Passeio Alegre já se elevava a 59 euros e o dossiê ainda não tinha sido encerrado. Safa, Safa, como diria o Cavaco.

(continua)


música: Leaving las Vegas, Ben & Sera Theme
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Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
Operação Pneu Estraçalhado continua em aberto

Aspecto parcial do meu novo pneu usado dianteiro do lado direito e da respectiva jante, após ter sido vigorosamente desempanada

Como presumo que devem estar lembrados, saí dos Pneus Ramalhão todo satisfeito por ter (aparentemente) resolvido o problema do miserável homicídio do meu pneu dianteiro do lado direito, através da aquisição de dois pneus usados, por 44 euros, soma em que se incluía o pagamento pela desempanagem da jante.

Muito infelizmente, na descida da rua Campo Alegre em direcção a Lordelo, sempre que eu largava as mãos do volante, a minha carrinha Fiat Marea descaia perigosamente para a direita, o que me deixou seriamente preocupado, tanto mais que nas últimas legislativas, naquele momento solitário em que estamos escondidos numa cabina, com uma Muji de cor roxa na mão e o boletim de voto ainda virgem à frente, a única dúvida que me atravessou o espírito foi a de decidir se punha a cruz no quadradinho do PS ou no do Bloco de Esquerda.

Já era fim de tarde e como estava bastante trânsito, achei por bem não retornar à Pneus Ramalhão (que, segundo creio, fecha às 18h30) e encaminhei-me para casa, desanimado. Afinal não ia poder riscar o item pneu da lista de Tarefas do meu Outlook.

A operação Pneu Estraçalhado continuava em aberto, tal como a operações Furacão, Portucale, Submarinos, Face Oculta, Freeport, etc. Não sei porquê, mas só me vinha à memória a imagem de Cavaco, a dizer: “Safa, safa!” .

(continua)


música: Tuning my guitar, Melanie
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Terça-feira, 3 de Novembro de 2009
A história da minha vida condensada num episódio

Aspecto nocturno do meu LG que pesa tanto como o antigo HP e tem ainda menos autonomia

A culpa é minha. Eu tinha a obrigação de ter percebido logo que não era assim, com aquela facilidade toda que, pagando 44 euros por dois pneus usados, que eu iria resolver o drama induzido pelo homicídio cometido na pessoa do pneu dianteiro do lado direito por um malévolo buraco, implantado no pavimento da rua do Passeio Alegre – e que tem sido aqui referido como o Buraco do Fiel, após eu ter acolhido a amável sugestão feita nesse sentido pela preclara Miou Miou.

Eu  teimo em continuar a ser optimista e a não olhar para os dois lados antes de atravessar uma rua de sentido único, mas não me posso esquecer que a história da minha vida se pode condensar no episódio da compra do LG cujas teclas estou a martelar neste momento.

Antes do LG, tinha um HP que se portou à altura durante três anos, após o que começou a evidenciar preocupantes sinais de senilidade. De vez em quando, sem razão aparente, apagava-se por vontade própria, mandando para o galheiro o trabalho que eu estava a redigir e ainda não tinha sido gravado.

Como o HP se revelava cada vez mais temperamental (recusava-se arrancar logo de seguida aos trecos, solicitando um período de descanso após cada colapso) e  eu estava farto de andar a fazer save sempre que concluía uma frase, resolvi investir num novo portátil, antes que de eu próprio ter uma síncope, por contágio com o computador.

Neste doloroso transe, pedi ajuda a um amigo que tem uma empresa de material informático e que já me tinha vendido o HP, no entretanto precocemente acometido pelo Alzheimer dos computadores.

O M simpaticamente disponibilizou um dos seus funcionários para me aconselhar e ajudar neste melindroso momento, a quem eu expliquei que queria o seguinte:

1.     Como o HP estava doente, queria que vissem se era possível pô-lo bom de maneira a oferecê-lo ao meu filho Pedro;

 

2.     Que transferissem para o meu novo portátil os três anos de vida, em textos e fotografias, que estavam armazenados no disco do HP;

3.     O HP pesava quase três quilos e tinha três horas de autonomia. Eu gostava que o meu novo portátil tivesse mais autonomia e fosse mais leve.

Parti para o meu reequipamento informático com este caderno de encargos, que não me parece fosse ultra-ambicioso. O resultado final foi o seguinte:

1.     Não conseguiram recuperar nada do disco rígido do HP, que faleceu nas mãos dos funcionários da empresa do meu amigo, levando o que fiz durante três anos (sim, eu sou um incauto e não fazia backups);

 

2.     A HP carregou no preço para recondicionar o computador e equipá-lo com um disco novo;

 

3.     Comprei este LG que, apesar de muito simpático e de só desligar quando eu o mando, pesa os mesmos três quilos que o HP e tem menos autonomia (duas horas apenas).

Ora, um tipo a quem é capaz de acontecer isto, não se pode convencer que resolve o problema do falecimento de um pneu gastando apenas 44 euros (desempenagem da jante incluida) e numa só ida à oficina. Pensar isso era obviamente um doce engano que não tardaria a amargar.

(continua)


música: Tell me why, The Beatles
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Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
Ninguém me dá dez mil euros em notas ao almoço

Aspecto exterior dos Pneus Ramalhão, na rua do Campo Alegre

Tremi todo cá por dentro no momento em que a Maria José (1) me informou que tinha sido descontinuada a produção do modelo de pneu Michelin cobardemente assassinado pelo Buraco do Fiel, que se situa algures na rua do Passeio Alegre, um pouco depois do Chalet Suisso e do Augusto, para quem segue em direcção à ponte da Arrábida.

Pela minha cara, a Maria João (que além de despachada e simpática, também deve ser uma fina observadora) logo percebeu que eu, lamentavelmente, não fazia parte da lista dos tipos a quem o sucateiro de Ovar dava dez mil euros em notas sempre que almoçavam com ele.

Por isso, e como eu precisava não de um mas de dois pneus, logo percebeu que o melhor que havia a fazer era procurar uma situação mais económica do que a oferecida pela Michelin, e pediu a um dos seus colaboradores que indagasse sobre se haveria ou não disponíveis um par de pneus da marca Eurotyphoon, compatíveis com a minha carrinha Fiat Marea, de cor cinzento rato, que gasta dez litros aos 100 e completará dez Primaveras em Março de 2011.

Havia os pneus baratos, mas mesmo assim a conta situava-se claramente nos três dígitos, creio que 166 euros, o que me pareceu muito dinheiro - reparem que não disse caro, mas apenas muito dinheiro.

Custa-me imenso gastar mais dinheiro a calçar a minha Marea do que os meus próprios pés. Por 120 euros compro uns Citywalker da Ecco que me proporcionam um andar confortável e seguro durante cinco anos, no mínimo. Ora para calçar a carrinha, não com uns pneus topo de gama (como são os sapatos Ecco) mas de uma marca para tesos, teria de gastar quase o triplo – pois enquanto eu assento em apenas dois pés, a Marea tem quatro rodas.

Enquanto, o meu cérebro processava este raciocínio, a minha cara devia evidenciar um tal estado de infelicidade, que a Maria João, prontamente seguiu para o Plano C, o adequado a pelintras. Eu disse logo que sim quando ela me perguntou se eu estaria eventualmente interessado em que ela visse se tinha um par de pneus usados que me resolvesse o assunto.

A coisa começou a compor-se. Nem tudo pode correr sempre mal. Sempre havia o tal par de pneus usados e a festa ficava-me por 44 euros (incluida a desempanagem da jante). ‘Bora aí, disse eu, mas logo fiquei a pensar que para exteriorizar a minha satisfação por manter a solução abaixo dos 50 euros teria sido mais adequado soltar uma frase de mais efeito, do estilo: “Fogo à peça!”.

(continua)

 

(1)              Afinal, de acordo com a prestimosa informação providenciada pelo preclaro Barba Azul, a Maria José (pseudónimo atribuído aleatoriamente por mim) chama-se Maria João, nome porque doravante será aqui tratada, na prossecução da política de rigor e de dar o seu a seu dono que caracteriza esta Lavandaria


música: I should have known better, The Beatles
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Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009
A tenebrosa passagem ao plural do meu problema

Lenine podia ter muito defeitos (certamente os tinha, a Krupskaya que o diga), mas todos temos de reconhecer que foi muito judiciosa a sua escolha do título – Que Fazer? – para o livro que escreveu entre Outubro de 1901 e Fevereiro de 1902, onde procedeu a uma oportuna reflexão sobre as questões palpitantes que afectavam o movimento social democrata russo e só se viriam a clarificar com a posterior cisão entre mencheviques e bolcheviques.

Quando, na penumbra do interior da ampla oficina dos Pneus Ranalhão, à rua do Campo Alegre, foi pronunciada a morte do meu pneu dianteiro do lado direito (alvo de um atentado pormenorizadamente descrito em posts anteriores) achei que seria apropriado citar Lenine e perguntar o que fazer à mulher alta, sólida e despachada (mas com um espaço a separar-lhe os dois dentes da frente, do maxilar superior), que dirige o negócio e cujo nome desconheço, mas que por comodidade, passarei a designar por Maria José Ramalhão.

Preparei-me para o pior e fiz muito bem, porque veio o pior em mais uma demonstração da triste e fatal sabedoria encerrada pela na lei de Murphy – se uma coisa pode correr mal, pode estar certo que vai mesmo correr mal.

O pneu morto, apesar da fidalguia da marca (Michelin) tinha deixado de ser fabricado, pelo que eu precisava de adquirir não um mas sim dois pneus.

Não é preciso ser bruxo, um Einstein ou até mesmo fazer parte do lucrativo quarteto dos impagáveis Gatos Fedorentos, para perceber logo, ali naquele preciso momento e à primeira, que a passagem do meu problema para o plural, de pneu para pneus, iria atentar severamente, de forma indelével e irreversível, contra o já depauperado  estado das minhas finanças de jornalista biscateiro.

(continua)


música: Night comes on, Leonard Cohen
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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